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Eram os deuses… alienígenas?

25/03/2010

É bastante conhecido o livro “Utopia”, escrito por Thomas Morus em 1516. Neste relato, Morus descreve uma sociedade “perfeita”: as pessoas são felizes, vivem todas em casas iguais, têm a vida regrada, relacionam-se em harmonia – como uma partitura que é repetida à perfeição sem cessar, cada nota a seu tempo. Sociedade ideal? Pensemos com mais calma.

Apresentando através de imagens literárias a fantasia fundamental do homem renascentista de que tudo, mesmo o homem, pode ser matematizado – ou seja, de que por detrás da aparência do mundo há uma lógica auto-referente e consistente -, Morus propõe uma sociedade desprovida justamente da dimensão humana. Pois a subjetividade é justamente aquilo que resiste a toda tentativa de formalização: é a distonia, a nota tocada fora do tempo, a engrenagem emperrada na maquinaria da história.

A sociedade perfeita de Morus é um mundo sem humanos, um mundo transformado em máquina.

É interessante que essa mesma lógica renascentista ainda propague seus ecos nos tempos atuais. Se lembrarmos de filmes como “A Ilha” (de Michael Bay) ou “THX 1138” (de George Lucas), entre tantos outros, perceberemos que a fantasia de uma sociedade perfeitamente estéril encontra ainda – talvez mais do que nunca, na verdade – lugar no imaginário popular. O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) afirmava que o fazer científico opera justamente através da repetida foraclusão (exclusão absoluta) do sujeito: ou seja, o discurso da ciência tradicional tem como horizonte uma espécie de entendimento do mundo em si, sem a distorção de visões particulares – em outros termos, visões subjetivas.

Por trás desta questão toda está a noção moderna e tradicional de progresso: a crença de que a história humana tende na direção de um permanente aperfeiçoamento intelectual, o que permitiria – supostamente – uma vida melhor. É uma espécie bastante particular de messianismochegará um dia em que todos os mistérios do mundo terão sido elucidados e todos viveremos em harmonia com nossos desejos e anseios.

Este é o mote de diversos filmes de ficção-científica. Ficção-científica, aliás, que é um terreno fértil para entendermos as fantasias que sustentam o Imaginário Social contemporâneo, uma vez que é um ramo da cultura que costuma trabalhar de modo muito particular a dimensão do futuro. Falar de futuro implica explicitar alguns traços que estão na estrutura não-manifesta do próprio presente.

Apesar de a fantasia renascentista ainda ecoar nos dias de hoje, o lugar do homem no mundo parece estar amplamente despotencializado: se o homem iluminista – o homem da ciência – acreditava-se capaz de diluir a alteridade do mundo ao seu pensamento, o homem contemporâneo tenta ainda elaborar o luto de não ser mais o suporte da existência do universo.

Pensadores como Freud infligiram uma profunda ferida ao homem moderno quando mostraram que a divisão fundamental não está na relação homem/natureza (mundo interno/mundo externo), mas na relação do homem consigo próprio (razão consciente/pulsões inconscientes).

Sendo um pouco ousado, acho que podemos falar de uma melancolização da relação do homem com o mundo. Encontramos também em Freud a afirmação de que a melancolia, ou seja, o desligamento dos investimentos libidinais do “mundo exterior”, é o resultado patológico de um luto não-resolvido. Talvez esta seja uma hipótese para entendermos quais são os mecanismos inconscientes na base de nossa não-responsabilização com relação ao futuro, como no caso da questão ambiental, por exemplo. Ao invés de tomarmos partido e agirmos, assumimos uma posição inibida, à espera de uma entidade maior que resolva a questão por nós.

Mais uma vez é um produto da cultura pop que ilustra meu argumento. Estreia no dia 6 de abril, no Warner Channel, “V” (“Os Visitantes”), remake do seriado de mesmo nome que foi ao ar nos Estados Unidos em 1983. A história da série começa quando 29 gigantescas naves espaciais aparecem no céu de grandes cidades do mundo (o Rio de Janeiro, inclusive). Os alienígenas têm forma humana e afirmam estarem vindo em paz, buscando ajudar os terráqueos a resolverem seus problemas. Logo, postos de saúde com tecnologia avançadíssima são construídos e muitas pessoas portadoras de doenças que antes eram enigmas da medicina são milagrosamente curadas.

A salvação humana vem ao mundo sob a forma ovalada das brilhantes naves alienígenas.

— Luciano Mattuella


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"Everything in its right place"

23/01/2010

No último encontro de nosso grupo de estudos sobre Subjetividade Contemporânea discutimos os primeiros parágrafos do excelente Experiência e Pobreza, de Walter Benjamin. Uma das frases que causou mais discussão foi a seguinte: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”. Já citei esta passagem no post anterior, mas gostaria de revisitá-la, agora desde um outro ponto de vista.

Se observarmos atentamente, neste texto Benjamin se coloca a mesma questão que preocupou Freud em 1920, no artigo Para Além do Princípio do Prazer: como podemos explicar que os sobreviventes da Primeira Guerra tenham voltado dos campos de batalha mais pobres em experiências, não mais ricos? O lógico seria que, após um evento de tamanha intensidade emocional, aqueles combatentes voltassem para suas famílias repletos de histórias para contar, de lições para transmitir às futuras gerações. Não foi o que aconteceu. Fecharam-se em um profundo silêncio, resignados a reviver em seus sonhos uma e outra vez o evento traumático da morte de um amigo, uma amputação, o odor da fumaça das granadas.

Experiência, para Benjamin, é o estatuto ao qual um fato – uma vivência – pode ser elevado quando narrado desde a posição subjetiva singular e intransferível daquele que o presenciou. Ou seja, a função narrador é aquela através da qual a rugosidade do mundo adquire características de uma história a ser contada. O ouvinte deixa de ser inocente quando escuta uma história, torna-se testemunha de algo, ou seja, sua presença enquanto depositário de uma enunciação o responsabiliza pelo narrado (aliás, diga-se de passagem, posição típica do psicanalista).

Freud diagnostica os tempos pós-Primeira Guerra como tingidos por um sentimento ao qual ele dá o nome de desilusão. Dentro deste contexto, desilusão significa a impossibilidade de a humanidade, dada a crueza e o sem-sentido das atrocidades dos campos de batalha, fazer uma aposta no futuro, ou seja, sustentar uma fantasia de futuro. Em outros termos, para Freud, a Primeira Guerra teve como principal vítima a própria dimensão de futuro. Tornou-se impossível dar consistência à uma idéia de futuro.

Não seria disso que Benjamin estaria falando? Ora, um dos motivos para não poder sustentar uma fantasia viável de futuro é a impossibilidade de resgatar do passado aquela palavra de transmissão que está em jogo em todo ato narrativo. Quando a história dos antepassados se torna um mero jogo causal, perde-se a sua potência simbólica de sustentação de um lugar no mundo. Ocorre o que Benjamin chama de desvinculação do presente com relação ao patrimônio cultural.

E, frente a este vazio de referência, acaba-se caindo em uma das duas piores alternativas: ou nos vinculamos cegamente a um passado que não nos pertence e realizamos inconscientemente o desejo de outros (nos colocamos como meros coadjuvantes), ou nos distanciamos de tal modo de nossa história que nos tornamos caricaturas de nós mesmos (tão somente figurantes de um roteiro escrito por outro).

Muitos filmes de ficção-científica exploram estes cenários de aridez subjetiva absoluta, como, por exemplo, a primeira incursão no cinema de George Lucas, o surpreendente file THX 1138, de 1971, ou mesmo o mais recente The Island, de 2005 – para citar apenas dois de inúmeros. Nestes filmes, a sociedade desenvolveu-se de tal modo que o paradigma da pureza e da limpeza rege absolutamente a vida cotidiana, ao preço da perda da subjetividade e da singularidade (primeiras vítimas em qualquer regime totalitário). Tudo em seu respectivo lugar. Everything in its right place, como na música da banda Radiohead.

O que se perde, numa sociedade desiludida – uma sociedade mecanizada e burocratizada-, é a possibilidade da remissão a uma estilo, ou seja, a capacidade de responsabilizar-se pela experiência dos antepassados de forma a, de modo singular, poder inserir-se nesta história e transmitir adiante algo que tenha valor simbólico.

— Luciano Mattuella


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