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Os estupradores do imaginário

18/01/2012

Em meu primeiro ensaio publicado neste blog (no dia 16 de janeiro de 2010), propus um início de reflexão sobre a questão: como os psicanalistas interpretam a Cultura? À época, fiz referência ao livro Bem-vindo ao deserto do Real, do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Certamente há alguns pontos naquele pequeno texto que, hoje, eu reveria e teria escrito de forma diferente. A ideia central, entretanto, ainda me parece bastante válida. Retorno a isto daqui a pouco.

Comecemos por outro lado: ontem, o filósofo Juremir Machado da Silva publicou um artigo no jornal Correio do Povo que me fez retornar ao texto que escrevi há mais de um ano. Juremir lança alguns aforismas sobre o Big Brother Brasil 12 – famoso BBB12 – e o suposto estupro que teria ocorrido no programa. Reproduzo, abaixo, um pequeno trecho que me parece especialmente astucioso:

O suposto estupro do BBB12 é o ai se eu te pego que se materializou.

Quando se brinca com a fantasia ao extremo, flertando com o abismo, o salto acaba por acontecer.

Não precisa existir relação direta.

O imaginário é o resultado de saltos lógicos.

“Quando se brinca com a fantasia ao extremo (…) o salto acaba por acontecer”. Juremir parece sintetizar em uma frase toda a teorização psicanalítica sobre a fantasia e os modos de a fantasia precipitar-se na cena do mundo.

Que a Cultura seja também um repositório de tendências de acontecimentos é algo com o que os psicanalistas estão já acostumados. Esta é uma das possíveis interpretações da célebre tese de Lacan de que “a verdade está estruturada como uma ficção”, ou seja: a história de nossa vida nada mais é do que uma narrativa suficientemente consistente na qual escolhemos acreditar (os motivos pelos quais escolhemos tal ou tal narrativa são testemunho de nosso modo específico de estarmos inscritos na Cultura – mas isso é assunto para outra hora).

O ponto aqui é o seguinte: qual a importância da Cultura popular para o psicanalista? O que as músicas, seriados, filmes, enfim, qualquer produto da indústria cultural, dizem das fantasias inconscientes de uma determinada época, de uma determinada narrativa que um período escolheu para contar a sua própria história? Que haja uma tênue linha aproximando o Big Brother Brasil 12 e o “Ai se eu te pego” do Michel Teló, esta é uma consideração brilhante de Juremir Machado da Silva.

Os dois produtos – sim, mesmo o dito estupro é, infelizmente, um produto da indústria cultural (prova disso é a audiência recorde do BBB12 no dia em que Daniel foi expulso) – são a materialização de alguma fantasia inconsciente que insiste no imaginário social e insiste em ganhar materialidade concreta.

E aqui retomo Zizek, citado no primeiro posto do blog:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Quando a imagem invade o mundo, quando a fantasia ganha consistência material, estamos frente à falência da herança simbólica, ou seja, frente à fragilização daqueles referenciais que podemos utilizar para contar a nossa história (ficcional, diga-se de passagem). O estupro é o assassinato da ficção – é o colapso do imaginário. O grande brother também habita o deserto do real.

— Luciano Mattuella

Por favor, Mr. Cole, manere no tweed.

01/12/2011

(Este texto é inspirado e segue a linha de raciocínio do ensaio publicado pelo amigo e colega Vitor Hugo Triska.)

Uma das melhores brincadeiras de 1º de abril que eu lembro (ou pelos menos uma das mais bem escritas) apareceu no ano passado no site CNET. Fazendo uma alusão ao seriado norte-americano Doctor Who, a página noticiava que um jovem havia sido preso pela polícia suíça ao tentar sabotar o acelerador de partículas LHC – o tal Sr. Cole alegava ter vindo do futuro com a missão de impedir o fim do mundo. Há uma frase na divertida “matéria” que considero o seu ponto alto: “Police said Mr Cole, who was wearing a bow tie and rather too much tweed for his age, would not reveal his country of origin” (Traduzo: “A polícia disse que Sr. Cole, que estava vestindo uma gravata borboleta e um pouco de tweed demais para a sua idade, não queria revelar seu país de origem”).

A psicanálise hoje em dia se assemelha muito ao nosso querido Mr. Cole: uma prática que, por ter esquecido a sua origem – um Herr Freud sempre sintonizado com seu tempo e com as fantasias que sustentavam a Cultura de que era contemporâneo -, acaba usando tweed demais e, por vezes, se tornando um discurso empoeirado e démodé’ (confira-se, por exemplo, http://www.youtube.com/watch?v=TBUFMYythJQ). Acreditando vir do futuro, confessa sua escravidão ao passado.

É preocupante, mas é o estado da arte.

Há um abismo que separa a época de Freud da nossa. Mas estamos em tempos de aprendermos a caminhar sobre abismos. Ser “fiel a Freud”, ou seja, filiar-se à palavra de ensino freudiana é justamente aprender a ser filho de seu (nosso) tempo e pensar a contemporaneidade a partir dela (de nós) mesma (mesmos). Ser herdeiro do saber psicanalítico quer dizer fazer como Freud, claro, mas entendamos: fazer como Freud quer dizer seguir o seu exemplo e permitir-se escutar o que há de recalcado na Cultura contemporânea, e não intervir igual a Freud, calar-se igual a Freud, interpretar igual a Freud. Parece simples, mas há aqueles que confundem.

Um psicanalista hoje em dia deve ser capaz de explicar por quê a Lady Gaga é um role model, por quê Game of Thrones tem que ser a narrativa sobre o triunfo de um bastardo e por quê os zumbis não são figuras de ficção, mas caminham nas ruas todos os dias (e trabalham das 9h-17h).

Um psicanalista hoje em dia deve cuidar pra não usar muito tweed.

— Luciano Mattuella

Também falando sobre a minha geração

21/05/2011

Hoje acordei e logo percebi que o relógio – de pulso – que deixo ao lado da cama estava parado. Sorri um sorriso um tanto freudiano, mas ainda tingido por umas imagens de sonho que insistiam em emancipar-se ao mundo.

Suspenso no tempo, tomei um café – sem açúcar, como gosto – enquanto lia um belíssimo texto escrito por meu amigo e colega Moysés. O café ficou um pouco mais amargo. Logo em seguida uma daquelas imagens do meu sonho sentou-se ao meu lado, silenciosa, aconchegada, mas muito nítida. Lembro que sonhei que eu estava embaixo de uma colina; no topo, um grupo de pessoas – todas iguais! – gritavam “Acabou, acabou!”. Desesperado, eu gritava de volta: “Ainda não, ainda tem tempo, ainda não!”. Só que, quando essas frases chegavam até os que estavam em cima da colina – lembro que eu via a frase fazendo todo o caminho até lá – ela se fazia eco da voz daquelas pessoas: “Acabou, acabou”. Como se eu falasse uma coisa e eles só conseguissem escutar aquilo que lhes fosse familiar.

Pensei de novo no relógio parado e desisti do café.

Então recordei que hoje era pra ter sido o fim do mundo. Há alguns meses foi ganhando consistência na cultura a idéia de que 21 de maio de 2011 seria o fim dos tempos (pra mim foi, na exata medida do meu pulso). “A Bíblia garante” é uma das frases estampadas em um outdoor aqui em Porto Alegre, na Terceira Perimetral. Sinal dos tempos: o fim do mundo é anunciado em outdoor (desculpem o spoiler). Profetizaram o Juízo Final e a sequência de catástrofes que se abateriam sobre os não escolhidos, os não puros. Os que ficaram embaixo da colina.

Penso sinceramente que eles – os profetas do apocalipse – estão corretos. Sem ironia, penso mesmo. Das duas, uma: se o mundo realmente acabar e hoje for o dia em que Jesus Cristo retornará para levar ao Paraíso os escolhidos, eles estarão certos. Se, por outro lado, nada disso acontecer e tudo seguir na mesma, bem, aí eles e Walter Benjamin estarão certos: “Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe”, escreveu o filósofo.

A minha geração é irmã – mais velha, pelo menos no meu caso – de Lady Gaga. E isso significa algo, definitivamente.

Esperamos por um Juízo Final (o sonho kantiano, o derradeiro juízo sobre tudo e todos!) que, cá entre nós, nunca virá. Ou já veio e nós perdemos porque nossos relógios estavam parados. Temos essa fantasia como constitutiva do nosso tempo: se tudo ficar sempre igual, nunca morreremos. Se o relógio não marcar o tempo, não envelheceremos. Se tomarmos nossas vidas como algo a ser pensado, corremos o risco de não encontrar nada no fundo da caneca do café. E ainda teremos que nos contentar em ficar dizendo: “como era bom o meu café amargo!”.

É como se a minha – a nossa? – geração fosse toda ela filha de uma mãe deprimida. Quando o filho de uma mãe depressiva volta-se para trás e pergunta: “Mãe, o que vale a pena no mundo?”, ela responde: “Nada, filho. Deixa assim mesmo”. Trata-se de uma mãe que não consegue antecipar um futuro para um filho, que não consegue banhar o tempo com desejo. Estamos desamparados, mas somos radicalmente felizes por esta condição: ela nos alivia da responsabilidade de ter que dar conta de alguma dívida, de que tenhamos de nos questionar pelo nosso próprio desejo. Por outro lado, nós estamos ainda presos nessa tentativa absurda de tentar animar uma mãe entristecida.

Não é esta a função que cabe a um filho, Freud nos ajuda a entender. Na verdade, o mesmo mundo desabitado que faz parte da fantasística de uma mãe deprimida pode ser encarado de duas formas: para os de cima da colina, como um lugar em que tudo já acabou. Para os que estão embaixo da colina, como um lugar que ainda nem começou. Talvez precisemos parar de tentar gritar a nossa resistência aos lá de cima e nos preocuparmos mais em falar em um tom mais calmo aos aqui de baixo.

Quem sabe seja por isso que vários autores (o genial Vladimir Safatle, por exemplo) costumam dizer que a marca de nossos tempos é o cinismo: como defesa à rugosidade do mundo nós desdenhamos da esperança, dizemos que sonhar e devanear são ações inúteis. Como não somos ouvidos, vestimos uma vestido de carne crua (lembrando da nossa irmã mais nova). Pior do que não criticarmos as coisas como estão, nós nos organizamos de tal forma a acreditar que estamos criticando. A sacola de tecido – e não de plástico – que levamos ao supermercado permite que nós durmamos tranquilos, mas definitivamente não nos ajuda a sonhar.

Enfim, meu relógio ainda marca a mesma hora em que acordei. Se o mundo ainda não tiver acabado, vou mandar consertar na segunda-feira.

— Luciano Mattuella

Os homens nucleares

15/03/2011

Apesar de ter sido filho legítimo do cientificismo, Freud valeu-se da sensibilidade clínica – esta possibilidade de ser surpreendido pela inquietante opacidade particular e singular, e não deixar-se ensurdecer pela transparência apaziguadora do universal e essencial – para colocar em questão os dogmas e as diretrizes de um modo de pensar vigente (à época e, certamente, ainda hoje). Assim, também lançar luzes àquilo que escapa ao senso comum, que faz tensão e sulca brechas no discurso científico, suposto lugar da verdade no contexto social (“É científico, é verdadeiro”). Pergunta-se, em carta enviada a Albert Einstein em 1932:

Mas toda a ciência não termina numa espécie de Mitologia? Parece-lhe diferente na física de hoje?

Ao mesmo tempo em que mantinha o rigor experimental na escrita, levando em conta as opiniões de seus antecessores, valorizando teses antes levantadas, Freud permitiu-se deixar atravessar pelo único da fala de cada um de seus pacientes. Para ele, não havia fórmula para um tratamento analítico: cada novo caso clínico implicava um deslocamento e um questionamento da posição do analista. Ou seja, um conselho que ainda hoje, mais do que nunca, é importante: não há garantias prévias a qualquer tratamento pela Psicanálise. O próprio do sujeito é resistir a toda forma de nomeação e conceitualização.

Esta possibilidade de explicitar a impotência do discurso científico em dar conta da vida, do cotidiano, do sofrimento humano, revela-se, parece-me, como um interessante norte para todo aquele que se debruçar sobre os textos ditos culturais de Freud (artigos como o “Mal-Estar na Cultura” e “O Futuro de uma Ilusão”, por exemplo).

Nestes escritos, vê-se muito bem os paradoxos daquilo que chamamos de técnica – toda a gama de recursos que o homem desenvolveu para dominar a natureza. O mesmo Freud que é entusiasta dos feitos da Racionalidade humana escreve frases como a seguinte, retirada ainda da carta a Einstein:

Há tempos imemoriais ocorre na humanidade o processo de evolução da cultura (…). A ela devemos o melhor daquilo que nos tornamos e uma boa parte daquilo de que sofremos.

Sutil e delicadamente matizada opinião freudiana: o acúmulo de conhecimento, realizado na cena do mundo como progresso técnico (e tecnológico), é ao mesmo tempo cura e origem de sofrimento. Assim, seria próprio da humanidade a construção dos abrigos nos quais refugiasse de suas próprias bombas. A cultura como espaço de criação mas também de destruição, como a filósofa Hannah Arendt escreve em seu belíssimo “Entre o passado e o futuro”:

No momento em que iniciamos processos naturais por conta própria – e a fissão do átomo é precisamente um destes processos naturais efetuados pelo homem – não somente ampliamos nosso poder sobre a natureza (…), mas, pela primeira vez, introduzimos a natureza no mundo humano como tal, obliterando as fronteiras defensivas entre os elementos naturais e o artefato humano nas quais todas as civilizações anteriores se encerravam.

Fico me perguntando qual seria a reação de Freud e de Hannah Arendt ao verem estas mesmas imagens que agora tenho a minha frente em meu computador, imagens de um mundo distante, mas ainda assim tão próximo: vejo um reator nuclear em chamas, prenunciando a invisível e destrutiva potência de um sol nascente.

– Luciano Mattuella


Nós, os cisnes negros?

12/02/2011

É de fato impressionante o quanto se tem escrito, discutido, comentado e publicado sobre O Cisne Negro (Black Swan, 2010), filme do diretor Darren Aronofksy recém-chegado aos cinemas brasileiros (com o atraso habitual, diga-se de passagem). O enredo conta a história de Nina (Natalie Portman) uma jovem e retraída dançarina escolhida para o papel principal da famosa montagem “O Lago dos Cisnes” e a de seu reflexo no espelho, Lily (Mila Kunis), outra dançarina, menos técnica, porém mais desenvolta, mais passional no palco.

Não quero me ater ao desenrolar da trama, até porque vale a pena ver o filme sem muitas informações prévias – quero focar minha atenção mesmo em pensar por quê razão este filme gerou tantos efeitos, tanta discussão. Sempre que alguma produção cultural gera este tipo de movimento, sempre que ela desaloja o público espectador do lugar passivo para convocá-lo à posição de crítico (mesmo que seja na conversa entre amigos), podemos nos perguntar: O que de traumático este produção cultural trouxe à tona? Que ponto de silêncio da Cultura – que dimensão do recalcado, em termos mais técnicos – foi tocada?

Desde Freud, sabemos: nos ocupamos de falar sobre aquilo que nos angustia, aquilo que nos desestabiliza – há uma aposta (acertada) de que o ato de falar sobre algo tranquiliza na medida em que dá contorno, transforma em história, algo que de outra forma seria insuportável. Substitui-se a dor do afeto pela saída criativa de uma história de si.

Neste sentido, minha opinião é a de que O Cisne Negro transpõe para a tela a dinâmica da aquisição do próprio corpo. O que isso quer dizer? Ora, não nascemos donos de nós mesmos, precisamos do auxílio de um outro para que sobrevivamos. É preciso alguém que nos alimente, que nos proteja do frio e do calor, que cuide de nossas necessidade básicas. Quando somos muito pequenos, nosso corpo está – literalmente – nas mãos dos outros.

Se dermos sorte, estes outros (em geral os pais) permitirão que, pouco a pouco, este corpo seja investido de referenciais que vão para-além de seus próprios desejos e seja gradualmente inserido em um “caldo cultural”. Trata-se daquelas famosas frases: “Chutou muito quando estava na barriga, aposto que vai ser jogador de futebol”, ou “Ela anda feito uma princesa… vai ser modelo quando crescer!” – sentenças que guardam dentro de si um desejo de que aquele corpo seja mais do que um conjunto de órgãos, proteínas, etc…, mas que tenha um lugar no ambiente cultural de sua época. Aos poucos, o corpo (a libra de carne, como dizia Freud, remetendo a Shakespeare) vai sendo traduzido em palavras.

Se, além de darmos sorte, ainda por cima formos capazes de nos responsabilizarmos por estas frases proféticas e tomarmos nosso futuro em nossas mãos, nos descolando, por assim dizer, dos desejos de outros, então poderemos nos olhar no espelho (das palavras, claro) e ver nossos pais lá no fundo da cena, mais como sustentação da moldura do que como o reflexo em si. Entender que aquelas frases – carregadas de desejo – que nos davam bordas na infância são um ponto de partida, e não de chegada: eis a virada que a adolescência, na melhor das hipóteses, permite.

É neste ponto, me parece, que algo falha para Nina.

É muito importante (peço que o leitor veja o filme antes de seguir lendo) que nunca ter sido escolhida como a atriz para o papel principal de “O Lago dos Cisnes” é a grande desilusão da vida da sufocante mãe de Nina. De alguma forma, Nina fica presa nessa necessidade de dar conta dos desejos da mãe, de ser a cura para a sua insatisfação. E o faz da forma mais dolorosa possível: ao não ter palavras para falar disso, entrega o próprio corpo. Mais um dos ensinamentos clínicos da psicanálise: aquilo que não conseguimos traduzir em palavras, o corpo – padecendo e sofrendo – denuncia.

Exemplo disso são as suas alucinações: indícios de asas saindo das costas, os dedos dos pés grudados, como os de um pássaro… Nina, pouco a pouco, vai se tornando um cisne. É como se ela respondesse – com o corpo! – ao mandato materna: Torna-te o cisne negro (que eu não pude ser)!

Por isso a importância das cenas sexuais do filme: a masturbação é uma primeira forma, ainda muito primitiva (uma vez que narcisista), de apossar-se do próprio corpo, de descobrir que o próprio toque pode trazer prazer. Quando Nina tenta se masturbar, é a figura da mãe que aparece, em toda sua potência disruptiva e desorientadora, substituindo alguma fantasia erótica que diria de um desejo próprio. Para que alguém se torne dono de seu corpo e possa usá-lo ativamente, é preciso antes separá-lo e diferenciá-lo do corpo de sua mãe. Muitas patologias contemporâneas denunciam o quanto este processo é complicado e psiquicamente trabalhoso.

Em entrevista à revista francesa Les InrocKuptibles, a própria Natalie Portman dá sustentação (sem o vocabulário teórico, naturalmente) a esta minha linha de interpretação. Quando perguntada sobre a importância da cena de sexo com Mila Kunis, responde:

Penso que se trata de uma cena necessária, uma vez que é o primeiro momento em que Nina se deixa levar e dá prazer a si mesma ao invés de dar prazer aos outros. É a sua primeira revolta contra um mundo que a oprime.

Que o sexo tenha se banalizado, é um fato. É definitivamente mais fácil falar hoje sobre sexo com os irmãos-amigos do que na época de Freud. Entretanto, ainda é muito complicado e traumático falar de sua própria sexualidade. O próprio corpo ainda é (e tem como não ser?) excessivamente opaco, excessivamente visível. É fácil falar de sexo quando se está falando do sexo dos outros. Nina explicita isso da forma mais radical em O Cisne Negro: assumir sua sexualidade e dar contornos próprios ao seu corpo implica, necessariamente, a renúncia da instância materna, uma instância ao mesmo tempo consoladora e, eventualmente, devastadora.

Em tempo: outro artigo – muito interessante, abordando desde uma dimensão mais clínica – no blog de meu colega e amigo Vitor Hugo Triska: http://vhtriskaensaios.blogspot.com/.

– Luciano Mattuella


A palavra contra a desilusão

15/09/2010

O escritor americano Philip Roth é, certamente, um dos grandes porta-vozes do mal estar da contemporaneidade. Junto a figuras como J.M. Coetzee, Raymond Carver e Richard Ford, Roth é expoente entre aqueles escritores que detêm o talento único de traduzir em palavras a atmosfera de paranóia, medo e impotência que tomou conta do mundo nas últimas décadas, especialmente após os atentados de 11 de setembro.

O que Philip Roth diagnostica em suas obras – como em American Pastoral, livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1997 – é justamente a sensação de desilusão do homem atual com relação àquilo que o passado é capaz lhe transmitir de experiência para dar conta de suas angústias. Como pode um passado tingido pelo matiz da guerra e da violência servir como referência para uma ação que procure a construção de um futuro que não seja repetição desta violência?

Já em 1933 (ano de nascimento de Philip Roth, aliás), o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamin havia alertado, em seu conhecido artigo Experiência e Pobreza, para este enfraquecimento da relação entre o homem e sua história, para a impossibilidade de o passado ser apreendido como uma herança que lance luzes sobre o presente. Philip Roth leva magistralmente adiante este tese, mostrando como a cultura americana produz ou homens alienados (os ufanistas republicanos, cegos para a decadência da América) ou homens desiludidos, como Nathan Zuckerman, célebre – e talvez um autobiográfico – personagem de diversos livros de Roth.

Zuckerman, aliás, que se alia a David Kepesh – outro personagem típico, central, por exemplo, em The Professor of Desire (1977) – como exemplos de outro dos temas recorrentes em Philip Roth: a senescência, essa inexorável e incessante passagem do tempo. O tempo como uma força devastadora, como Cronos a devorar todos os filhos – um tempo, enfim, que não aponta para uma possibilidade de futuro, para a perpetuação e a transmissão de uma herança, mas tão-somente para o passar da vida e a fragilização do corpo rumo ao silêncio da morte.

Assim, a idéia de desilusão também assume, nas obras de Philip Roth, esta fachada de resignação à insuficiência do tempo vivido: somos todos projetos fadados a nunca nos realizarmos por completo. Afinal, como pode um homem que nada herda legar algo de permanente para aqueles que virão depois dele? Talvez não seja por acaso que vários dos personagens de Roth não tenham filhos: não conseguiram, a bem da verdade, nem mesmo tornarem-se, ele próprios, filhos de sua cultura – uma cultura cuja inocuidade insistem em explicitar, especialmente no campo político, da ação coletiva.

Paradoxalmente, e para a sorte de todos nós, seus leitores, Philip Roth procura justamente na potência da escrita a possibilidade de denunciar as arestas mal-acabadas de um mundo desiludido. A palavra como um último recurso para que nos reste mais do que o mero papel de animais agonizantes.


Eram os deuses… alienígenas?

25/03/2010

É bastante conhecido o livro “Utopia”, escrito por Thomas Morus em 1516. Neste relato, Morus descreve uma sociedade “perfeita”: as pessoas são felizes, vivem todas em casas iguais, têm a vida regrada, relacionam-se em harmonia – como uma partitura que é repetida à perfeição sem cessar, cada nota a seu tempo. Sociedade ideal? Pensemos com mais calma.

Apresentando através de imagens literárias a fantasia fundamental do homem renascentista de que tudo, mesmo o homem, pode ser matematizado – ou seja, de que por detrás da aparência do mundo há uma lógica auto-referente e consistente -, Morus propõe uma sociedade desprovida justamente da dimensão humana. Pois a subjetividade é justamente aquilo que resiste a toda tentativa de formalização: é a distonia, a nota tocada fora do tempo, a engrenagem emperrada na maquinaria da história.

A sociedade perfeita de Morus é um mundo sem humanos, um mundo transformado em máquina.

É interessante que essa mesma lógica renascentista ainda propague seus ecos nos tempos atuais. Se lembrarmos de filmes como “A Ilha” (de Michael Bay) ou “THX 1138” (de George Lucas), entre tantos outros, perceberemos que a fantasia de uma sociedade perfeitamente estéril encontra ainda – talvez mais do que nunca, na verdade – lugar no imaginário popular. O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) afirmava que o fazer científico opera justamente através da repetida foraclusão (exclusão absoluta) do sujeito: ou seja, o discurso da ciência tradicional tem como horizonte uma espécie de entendimento do mundo em si, sem a distorção de visões particulares – em outros termos, visões subjetivas.

Por trás desta questão toda está a noção moderna e tradicional de progresso: a crença de que a história humana tende na direção de um permanente aperfeiçoamento intelectual, o que permitiria – supostamente – uma vida melhor. É uma espécie bastante particular de messianismochegará um dia em que todos os mistérios do mundo terão sido elucidados e todos viveremos em harmonia com nossos desejos e anseios.

Este é o mote de diversos filmes de ficção-científica. Ficção-científica, aliás, que é um terreno fértil para entendermos as fantasias que sustentam o Imaginário Social contemporâneo, uma vez que é um ramo da cultura que costuma trabalhar de modo muito particular a dimensão do futuro. Falar de futuro implica explicitar alguns traços que estão na estrutura não-manifesta do próprio presente.

Apesar de a fantasia renascentista ainda ecoar nos dias de hoje, o lugar do homem no mundo parece estar amplamente despotencializado: se o homem iluminista – o homem da ciência – acreditava-se capaz de diluir a alteridade do mundo ao seu pensamento, o homem contemporâneo tenta ainda elaborar o luto de não ser mais o suporte da existência do universo.

Pensadores como Freud infligiram uma profunda ferida ao homem moderno quando mostraram que a divisão fundamental não está na relação homem/natureza (mundo interno/mundo externo), mas na relação do homem consigo próprio (razão consciente/pulsões inconscientes).

Sendo um pouco ousado, acho que podemos falar de uma melancolização da relação do homem com o mundo. Encontramos também em Freud a afirmação de que a melancolia, ou seja, o desligamento dos investimentos libidinais do “mundo exterior”, é o resultado patológico de um luto não-resolvido. Talvez esta seja uma hipótese para entendermos quais são os mecanismos inconscientes na base de nossa não-responsabilização com relação ao futuro, como no caso da questão ambiental, por exemplo. Ao invés de tomarmos partido e agirmos, assumimos uma posição inibida, à espera de uma entidade maior que resolva a questão por nós.

Mais uma vez é um produto da cultura pop que ilustra meu argumento. Estreia no dia 6 de abril, no Warner Channel, “V” (“Os Visitantes”), remake do seriado de mesmo nome que foi ao ar nos Estados Unidos em 1983. A história da série começa quando 29 gigantescas naves espaciais aparecem no céu de grandes cidades do mundo (o Rio de Janeiro, inclusive). Os alienígenas têm forma humana e afirmam estarem vindo em paz, buscando ajudar os terráqueos a resolverem seus problemas. Logo, postos de saúde com tecnologia avançadíssima são construídos e muitas pessoas portadoras de doenças que antes eram enigmas da medicina são milagrosamente curadas.

A salvação humana vem ao mundo sob a forma ovalada das brilhantes naves alienígenas.

— Luciano Mattuella


Os contornos apagados

16/03/2010

O assassinato do cartunista Glauco Villas Boas tem mobilizado os meios de comunicação e incitado toda espécie de teorização.

Aliás, sempre que acontece algo assim, é curioso como o corpo social se mobiliza na busca de uma suposta “verdade do fato”, uma busca pelo que “realmente aconteceu”. Trata-se de uma busca de justiça, claro, mas aí resta a pergunta: Abstendo-nos de uma espécie de “moral do rebanho” ou bom samaritanismo, por que somos levados a exigir essa justiça? O mesmo aconteceu com o caso Isabela, algum tempo atrás.

Tentando ir um pouco além, seria interessante – ao menos dentro do âmbito a que este blog se propõe – se pensássemos o motivo pelo qual este evento se tornou traumático para a nossa sociedade. Seguindo a linha de raciocínio que venho mantendo através dos posts, poderíamos perguntar: o que ocorre neste evento no mundo que faz com que nos sintamos interpretados por ele? Por que temos a impressão de que, por um breve instante, a reconfortante cortina foi aberta e expôs o obsceno da fantasia nos bastidores?

É um exercício interpretativo o que me proponho fazer aqui, nada mais.

Na verdade, eu gostaria de recortar apenas um traço do caso todo, uma pequena nuance. Sabe-se agora que Carlos Eduardo – suposto assassino – disse ter matado Glauco para “cumprir uma missão”, missão que lhe foi atribuída por Deus. Ora, os psicanalistas com certeza não conseguiram se furtar de lembrar do famoso Presidente Schreber, conhecido caso clínico de Freud sobre a paranóia: Schreber acreditava ter sido escolhido por Deus para iniciar uma nova linhagem de homens na Terra. O próprio Deus fertilizaria Schreber através de feixes nervosos. O caso é bem complexo, mas vale muito a pena ser lido.

Não estou – de forma alguma – diagnosticando Carlos Eduardo. Fazer diagnóstico fora de transferência (fora da contingência da relação analista-analisando) é como julgar um livro pela sua capa: simplesmente não funciona (apesar de alguns profissionais da área psi adorarem capas acetinadas). Fato é que também Schreber julgava ter uma missão na Terra.

Mas o que isso tem a ver com o efeito traumático de que falei? Ora, sabemos que os eventos psicóticos (paranóicos, no caso) fascinam não porque são tão diferentes do que estamos acostumados, mas precisamente porque expõem na cena do mundo algo da ordem da fantasia de todos nós. O bizarro que reconhecemos na psicose é aquele que está domesticado dentro de nós pelo força do recalque (é a operação de recalque que permite a manutenção do contorno que separa o mundo “externo” do “interno”).

Em certa medida, todos acreditamos estar cumprindo uma missão, todos tomamos como referência para nossas escolhas de vida certos ideais – primeiramente ideais familiares, posteriormente, culturais. A pergunta “O que querem de mim?” é central para a estruturação da subjetividade, como pode-se ler no ensaio Introdução ao Narcisismo, publicado em 1914 por Freud. Precisamos do outro para nos constituirmos. Encontramos nosso lugar no mundo, em um primeiro momento, através do futuro que nossos pais projetam para nós. Distanciar-se destes ideais e poder construir seu próprio desejo é um árduo processo (que, na maior parte das vezes, é operado ao final da adolescência).

Entretanto, estes ideais que servem de referencia restam recalcados, em geral, ou seja, têm efeito no mundo através de seus efeitos, não por eles mesmos. É preciso contar a sua própria história várias vezes para se ter uma pálida idéia da missão que se está tentando cumprir.

O que é assustador no caso da morte de Glauco é que a missão de Carlos Eduardo não só estava exposta na cena do mundo como era palpável. E pior: realizável.

— Luciano Mattuella


O conteúdo da Coca-Cola

01/03/2010

Toda geração constrói para si mesma uma compreensão de mundo que lhe seja suficientemente plausível. Cada época responde às grandes perguntas através da criação de uma versão de mundo que seja consistente de acordo com seus parâmetros. Trata-se, no fim das contas, da aceitação generalizada de um discurso sobre a realidade, um discurso que almeja validação universal – delirante, portanto.

Fazer frente ao corpus teórico de uma época é tarefa árdua, exigindo que aqueles que o tentem sejam obrigados a erguer a voz acima das certezas sedimentadas e naturalizadas. Colocar-se em posição de crítica social implica tornar-se anacrônico, estar fora de seu próprio tempo. Por este motivo, alguns autores que lemos hoje estão tão carregados de algo indócil, algo contudente e, na maior parte das vezes, ácido. É o caso de Freud, por exemplo. Mas também é o caso de Adorno.

Filósofo alemão, Adorno fez parte do movimento conhecido como Escola de Frankfurt, do qual também participaram Marcuse e Horkheimer, para citar alguns. Sua crítica à Razão (em termos rápidos: explicação da realidade somente através de conceitos) é conhecida e, apesar de um tanto extremada – pelos motivos que falei acima -, muito rica.

Adorno fala que justamente no intuito de desmitologizar o mundo, o homem racional acabar por elevar a própria ciência à categoria de mito. Assim, a relação da humanidade com a ciência passa a ser, também ela, um laço de . Curioso paradoxo que nos permite pensar que o homem sempre vai necessitar da existência de um figura externa – um terceiro – que valide suas certezas – seja Deus, seja a Ciência.

Sua feroz crítica à cultura de massas é também muito conhecida. Adorno atribui a proliferação de produtos culturais de massa ao conteúdo narcísico que pode ser entrevisto neles: o povo busca estas manifestações culturais de modo a reafirmar a sua identidade, como se estes produtos devolvessem, reflexivamente, a imagem daquele que deles usufruem. Não há espaço para o novum, trata-se da repetição do mesmo. Pensando por este ponto de vista, faz sentido que a cultura pop tenha se disseminado e adquirido a forma como hoje a conhecemos na período pós-Segunda Guerra. As identidades – nacionais, coletivas, individuais – precisavam buscar uma certa, mesmo que frágil, unidade em algum lugar.

Interessante é que são justamente estas críticas de Adorno que permitem que hoje entendamos melhor a relação dos nossos tempos com a Cultura em que estamos inseridos. Se nos permitirmos ir para-além do hermetismo da crítica cega – “tudo o que é popular é ruim e destituído de valor” -, podemos usar os ensinamentos de Adorno para a criação de um poderoso arcabouço teórico que nos ajuda entender o Imaginário Social contemporâneo.

Bom exemplo disso é a transcrição de “Kulture e Cultura”, palestra proferida em 1959. Trata-se de um texto no qual Adorno explicita as duas concepções de cultura que podemos apreender no mundo: a Kulture européia e a Cultura americana. Um leitor acostumado com Adorno acreditaria que ele faria um elogia à Kultur e uma crítica voraz à Cultura. Não é o caso, e isso é surpreendente.

Em termos simplificados, a cultura européia e a americana – que podemos tranquilamente entender como cultura pop – encontram-se em pontos opostos.

A primeira, dotada de uma seriedade obtusa, é transcendente ao mundo, ou seja, é baseada na genialidade particular e seus produtos são obras “fora-do-mundo”, produtos que beiram à sacralidade (exemplos práticos são Fausto, de Goethe, e a Divina Comédia, de Dante).

Já a segunda – a cultura pop – é imanente à realidade, ou seja, é constitutiva da realidade a ponto de que seus efeitos substituam e tomem o lugar dos próprios efeitos da realidade. Perde-se a fronteira, nesta idéia da cultura americana, do quanto os produtos culturais referem-se à vida social e quanto eles moldam as estruturas desta própria vida. Nos termos de Adorno:

A cultura pode, de fato, referir-se ao modo como o homem lida com a natureza, no sentido de sua dominação; isto é, dominação tanto da natureza externa que se opõe à nós quanto das forças naturais no ser humano mesmo – brevemente: o controle da civilização sobre as urgências humanas e sobre o inconsciente. Pode-se caracterizar tal noção de cultura como aquela cuja substância é a fabricação da realidade.

É uma concepção de cultura muito próxima àquela que Freud apresenta em “O Mal Estar na Cultura”, escrito bons vinte nos antes.

A crítica anti-americana, anti-imperialista, anti-capitalista, enfim, anti-tudo, falha em perceber que a Coca-Cola é mais que a forma sedutora de sua garrafa: é também o seu gaseificado conteúdo. A cultura pop não é apenas um mero apêndice que possa ser retirado do mundo, mas é, sim, a própria estrutura das fantasias, ideais, desejos e anseios de nossa época. Entender a cultura pop, levar a sério seus efeitos e produtos, é buscar entender tudo aquilo que nos molda como alguém no mundo.

Interpretar como “cultura” tão-somente as obras de artes “de espírito”, ou os filmes de intelectualizados, é recair justamente naquilo que o estudioso da alta-cultura teme: nada é mais mainstream no cenário artístico pretensamente erudito do que uma tela de Rafael ou um filme de Bergman.

Se a cultura pop é narcísica e auto-referente, podemos entendê-la do mesmo modo que a sucessão de imagens de um sonho: é preciso escutá-la e, através da interpretação, retirar dali a palavra recalcada que diz da verdade singular de alguém. Ou de uma época.

— Luciano Mattuella


Have you met Ted?

21/02/2010

No meio acadêmico, costuma-se desprezar a cultura pop em sua potência interpretante do Imaginário Social. O “professor” tem que referenciar música clássica, autores tradicionais, pintores renomados. Essa, por falta de nome melhor, elitização da Academia é um mal que cega os pensadores de hoje em dia para o mal-estar de nossa civilização, para os sintomas que posicionam os indivíduos no mundo e estabelecem laços sociais.

Os consultórios particulares também, por sua vez, estão povoados de psicanalistas que não fazem questão alguma de partilhar das referências culturais de seus pacientes. Este fenômeno é sintomático da alienação do terapeuta à teoria, à uma imagem de psicanalista ideal. Escuta-se demais a teoria e de menos o discurso singular dos pacientes.

Estar atento às manifestações culturais é parte essencial do trabalho de qualquer psicanalista. Ignorar isso é correr o risco de empreender junto ao paciente um trabalho pedagógico (no mal sentido da palavra), em que o analisando tem de adequar-se a um ideal social – delirante – do analista, ao invés de escutar a sua verdade pessoal, estruturada na ficção que construiu para si de sua vida.

A ironia é justamente esta: tentar fugir da alienação é, na maior parte das vezes, alienar-se ainda mais.

Não quero entrar em rigores conceituais neste post, mas proponho que aquilo que Adorno chamava de cultura de massa é um material valiosíssimo que tem sido deixado de fora do meio de publicações acadêmicas. O que é uma pena, pois justamente a música que escutamos no carro, os filmes que vemos nos finais de semana, as revistas que nos acompanham no ônibus, é que podem dar testemunho de como nos localizamos no mundo e por onde circulam nossos desejos mais íntimos.

Um bom exemplo para ilustrar esta discussão é o seriado americano How I Met Your Mother, que vai ao ar aqui no Brasil pela emissora HBO, criada por Carter Bays e Craig Thomas, em 2005.

Trata-se de um sitcom – uma “comédia de situações” supostamente leve – que narra a história de cinco jovens em seus encontros e desencontros com a vida: Ted, o personagem central, é um arquiteto recém-formado com uma visão romantizada do mundo; Robin, uma apresentadora de noticiários televisivos (a que ninguém assiste); Lily, uma professora de jardim-de-infância e artista frustrada; Marshall, marido de Lily, advogado em início de carreira que sonha em tornar-se ambientalista (mas trabalha para uma grande corporação); e Barney, um womanizer que tem como lema a frase “Suit up!” – algo como: “Vista seu terno!”.

Um grande diferencial do seriado é sua estrutura narrativa. Os episódios começam, em geral, no ano 2030, quando um Ted mais velho conta para seu casal de filhos adolescentes a história de como, enfim, conheceu a mãe deles. Estamos já na quinta temporada de How I Met Your Mother e a esposa de Ted ainda nem apareceu no seriado. Portanto, a história dos cinco personagens é toda contada em flashbacks entrecortados por comentários – em geral amargurados e irônicos – do “Ted do futuro”.

Se levarmos em conta aquilo que a psicanálise ensina, que todo laço social, ou seja, toda a relação que estabelecemos com nossos pares e com nossos grupos de convivência, se estabelece não por gostos semelhantes, mas pelo compartilhamento de um sintoma em comum – inconsciente, portanto -, podemos dizer que Ted, Robin, Marshall, Lily e Barney estão unidos a partir do momento em que elaboram conjuntamente a ferida narcísica de não terem dado conta de realizarem aquilo que julgavam que deveriam.

Em certo momento, Ted abre mão da carreira de arquiteto para dar aula em uma universidade, o que ele encara como uma derrota pessoal. Marshall tem que contentar-se em ser advogado de uma grande empresa, e não alguém que luta pelo meio-ambiente, como era seu desejo aos 15 anos de idade. Lily chega a participar de uma bolsa de estudos para artistas iniciantes mas percebe que não tem vocação para as artes-plásticas.

HIMYM (sigla pela qual o seriado é conhecido) alterna momentos cômicos geniais com situações de uma tristeza e desolação que só comédias as ótimas conseguem engendrar – como o diálogo abaixo, de um episódio chamado The Leap (“O salto”):

Lily:
– You can’t design your life like a building. It doesn’t work that way. You just have to live and it will design itself.
Ted:
– I should just do nothing?
Lily:
– No. Listen to what the world is telling you to do and… take the leap.

[Lily:
– Você não pode projetar sua vida como um prédio. Não funciona deste jeito. Você tem que viver e tudo vai se projetar por si.
Ted:
– Eu não devo fazer nada?
Lily:
– Não. Escute o que o mundo está dizendo para você e… dê o salto.]

Interessante é que todo a série é justamente estruturada sobre a função do acaso na vida de Ted – e de como ele, frente ao não-sabido, preferiu dar o salto à ficar estagnado. Se tais e tais situação não tivessem fugido do controle, ele não teria conhecido a “mother”. E não poderia estar contando aos seus filhos a história que agora lhes pertence e na qual têm que se inserir e carregar como uma herança.

Um dos grandes trunfos de How I Met Your Mother, uma suposta série boba americana – produto da cultura de massa -, é mostrar como em nossa imaginário popular estamos condicionados a dar conta de um desejo que é, na maioria das vezes, um ideal impossível. E, principalmente, de como é possível fazer resistência a este ideal e, por isso mesmo, construir uma história singular, única, para ser passada adiante através da narrativa.

— Luciano Mattuella


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