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"Agora o oceano é de plástico"

18/01/2010

A frase que dá título a este post foi dita a Kitt Doucette – da revista Rolling Stone – pelo comandante da embarcação de pesquisa Alguita, Charles Moore. A tradução na íntegra desta matéria está na edição de janeiro da Rolling Stone brasileira e é parte de um breve dossiê cuja chamada na capa é: “Aquecimento Global – O Fim do Mundo Está Próximo?

A revista americana Wired também tem tratado deste tema com bastante frequência e de forma muito competente, como é o caso deste dossiê, disponibilizado online em seu site.

Voltando à matéria da RS, entretanto.

“Não importa onde você está, não tem como superar, não tem como escapar. Agora o oceano é de plástico.” Esta é a frase completa dita por Moore, com toda a urgência e a desilusão esperadas de quem, vagando pelos mares, encontrou por acaso a maior ilha de dejetos plásticos do mundo, localizada no Oceano Pacífico, chamada Grande Mancha de Lixo no Pacífico – “um vórtice giratório de uma sopa de plástico, um pântano imenso e fétido de dejetos em que pedacinhos minúsculos de plástico podre se sobrepõe ao zooplâncton (…) na proporção de seus para um”.

Em ainda outra matéria deste dossiê, Steven Chu, atual secretário de Energia dos Estados Unidos, diz, referindo-se às consequências do aquecimento global: “Acho que o povo americano ainda não se deu conta do que pode acontecer.”

O diagnóstico é certeiro.

Como explicitei no post anterior – e aqui eu gostaria de seguir aquela linha de raciocínio – o povo (não só americano) “não se deu conta” justamente porque não consegue sustentar uma fantasia de futuro autêntico para si. E esta impossibilidade gera uma consequência que opera diretamente na cena do mundo: ao não poder supor imaginariamente um futuro (a não ser um mundo sem humanos) para as próximas gerações, a humanidade não consegue tomar as rédeas da situação presente, minimizando a urgência da situação ou, ainda, menosprezando o papel que o homem tem no ambiente.

São muitas as discussões em torno da responsabilidade do ser humano no surgimento daquele efeito que conhecemos por aquecimento global. Ótimas teses são defendidas pró-intervenção humana e também excelentes opiniões são emitidas na direção oposta. Mas, parece-me, esta discussão serve como aquela imagem bem construída de “preocupação intelectual” que serve de fachada e encobre o que realmente está em questão: sendo ou não responsabilidade do homem a causa do aquecimento global, o problema existe e deve ser enfrentado. É necessário responsabilizar-se justamente por aquilo que não parece nos implicar na posição de culpados.

Procuro assumir uma posição atenuada por um distanciamento teórico. Esta ponto de vista me impede de dizer que somos culpados por algo, ainda mais no que tange a culpar alguém pela não possibilidade de construção de uma fantasia. Prefiro entender que ações cotidianas como separar lixo orgânico de lixo seco, abastecer o carro com etanol (ou não usar o carro!), utilizar de embalagens biodegradáveis, ainda não entraram para a rotina da maior parte da população porque a preocupação com o futuro não encontra anteparo fantasístico no imaginário social contemporâneo. Poderíamos arriscar, inclusive, a dizer que o descaso com o meio-ambiente pode ser entendido, uma vez que se trata de uma ação que ultrapassa a intenção, como uma espécie de sintoma social. Sintoma ao qual estamos todos, uma vez que todos somos filhos de nosso tempo, mais ou menos alienados.

E, como a psicanálise nos ensina há mais de 100 anos, o modo mais eficaz de abastar um sintoma, de esvaziá-lo de seu conteúdo nocivo, é que se fale repetidamente sobre ele. Mas que se fale no idioma que faz função na estrutura simbólica do mundo. Por isso não sou contra aproximações entre ecologia e moda (produtos ecofashion, por exemplo) ou campanhas publicitárias que atribuam uma qualidade cool àqueles que se preocupam com o ambiente. Há que se entrar na lógica para poder movimentar os alicerces.

No site da RS ainda podemos encontrar uma matéria cobrindo o tão falado – e tão decepcionante – COP15, a conferência da ONU que tinha como intuito repensar seriamente o aquecimento global e as alternativas que os governos poderiam lançar mão para lidar com ele.

Um dos comentários da revista sobre o evento é o seguinte (o grifo é meu):

É claro que ninguém quer trazer para a vida real o apocalipse que Hollywood alardeia há anos, em produções como O Dia Depois de Amanhã e o mais recente 2012. Mas a questão político-econômica pesa. Países desenvolvidos (principalmente os EUA) não queriam arcar com todas as despesas, nem brecar sua indústria. Países em desenvolvimento reclamaram por terem entrado na festa do desenvolvimento mais tarde. Para não passar a impressão de “conversa para boi dormir”, o acordo precisava ser aprovado por todos – norma da ONU para torná-lo legal. Venezuela e Cuba eram alguns dos opositores mais barulhentos.

Acredito que deveríamos nos ocupar das questão ambientais do mesmo modo que Freud aconselhava seus pacientes a tomarem conta de seus atos falhos, sonhos e sintomas: mesmo sentindo que eles vinham “de fora”, que não lhes pertenciam, devia-se tomá-los como se fossem seus e procurar dar sentido a eles levando em conta a sua história pessoal. Àqueles que não se dispunham a deixar rachar minimamente a sua carapaça narcísica e perceberem-se como autores de seus atos, Freud chamava de covardes morais.

Somos antropocêntricos para tudo, exceto para assumir responsabilidades.

— Luciano Mattuella


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