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O célebre grande irmão

06/02/2010

Mesmo aqueles que não acompanham o Big Brother Brasil 10 não conseguirem ficar completamente alheios às repercussões da participação da “sister” Tessália, conhecida no meio virtual como a “Twittess”. Foi a primeira vez que os brasileiros assistiram a um BBB com o recurso do Twitter para publicar suas opiniões. Formou-se, rapidamente, um movimento chamado #foratessália, palavra que ocupou por vários dias os trending topics (os assuntos mais comentados pelos usuários do serviço eletrônico) do Twitter no Brasil.

Quando finalmente o povo teve chance de votar contra a permanência de Tessália na casa, foi fulminante. A moça sofreu uma expressiva rejeição do público e saiu do jogo. Em entrevista, alguns dias depois de sua saída, Tessália disse que não se surpreendeu com o movimento #foratessália e até mesmo já esperava por isso, que entendia como algo que faz parte do meio virtual. Parecia estar sendo sincera.

Gerou muita polêmica o fato de Tessália se utilizar de um script no Twitter, um recurso para conseguir mais followers (seguidores de seu perfil virtual – sua timeline) de modo rápido. E ela foi bem-sucedida. Muito bem. Logo, ainda antes da participação no BBB, veio o convite para que Tessália fizesse um ensaio sensual na revista VIP – onde recebeu definitivamente o apelido Twittess (um neologismo que junta as palavras “twitter” e “miss”).

Há algo aí para se pensar, mas, antes eu gostaria de apresentar um segundo fato.

No caderno Kzuka – direcionado, pelo que entendo, ao público adolescente – da Zero Hora de sexta-feira passada, dia 5 de fevereiro, foi perguntado a uma menina de 16 anos quem ela gostaria de ser caso não fosse ela mesma. A resposta: “uma celebridade qualquer”. Reparem na formação da frase: não é “qualquer celebridade”, mas sim “uma celebridade qualquer“.

A pergunta do jornal é muito parecida com aquela que se faz às crianças pequenas: “O que tu queres ser quando crescer?”. É uma questão complexa. A resposta, em geral, explicita muito mais o desejo narcísico do pais do que o real interesse da criança, afinal é no imaginário dos pais que habitam os primeiros ideais com os quais as filhos sentem-se impelidos a se identificar.

Freud já comentava, em 1914, sobre esse futuro antecipado que os pais conjugam para a criança: que ela consiga realizar tudo aquilo que não conseguimos. E este é um investimento saudável, pois lança o sujeito na dialética do desejo próprio. Com o tempo, a criança distancia-se do imaginário dos pais para procurar pelos ideais que estão inscritos na Cultura. Esta passagem do desejo dos pais para o desejo da Cultura ocorre, de praxe, na adolescência, momento em que a pergunta “o que vais ser quando crescer?” é re-atualizada, em geral pelo vestibular – uma espécie de concurso de entrada na vida adulta.

O que tanto Tessália quanto a menina entrevistada pelo Kzuka denunciam de forma tão evidente? O que elas nos dão a ver do Imaginário Social em que estamos inseridos? Adio um pouco a resposta para citar uma pequena passagem do livro “The End of Dissatisfaction?”, de Todd McGowan, sobre o qual falei no post anterior:

“All of the knowledge that the father once embodied and passed on to the son has become useless because (…) success doesn’t require knowledge today. The basis for success has become celebrity, not knowledge.”

[Todo o conhecimento que o pai uma vez encarnava e passava adiante para o filho se tornou inútil porque o sucesso não requer mais conhecimento hoje em dia. A base para o sucesso tornou-se celebridade, não conhecimento.]

Pai, no discurso psicanalítico, é um conceito multifacetado que vai muito além da figura de carne-e-osso do progenitor. No contexto da citação acima, a palavra pai pode ser substituída por tradição, no sentido de um saber acumulado e transmitido de geração em geração (diferente de tradicionalismo, que é a tradição colocada no museu, sem possibilidade de dinamismo).

O que salta aos olhos na frase da menina de 16 anos é que nem importa mais qual celebridade ela admira, ou seja, não há mais uma identificação a um traço de sucesso ou de reconhecimento: o que é almejado é o lugar de celebridade. Ser reconhecida não necessariamente por mérito, mas pela simples existência. É algo bastante sintomático desta sociedade que McGowan apresenta no livro. Sintomático, eu digo, porque traz à luz algo da estrutura, do funcionamento implícito, do contexto social em que vivemos.

E nem se trata mais de uma grande celebridade, mas de uma celebridade qualquer – celebridade passa a ser uma moeda cotada pelo número de amigos no Facebook, no Orkut, de seguidores no Twitter… Não se está mais falando de um ideal impossível de ser atingido, mas de um role model que pode facilmente ser seguido – um ideal, se assim se pode dizer, horizontal. O vizinho mais sortudo.

Assim, tanto a Tessália quanto a garota do Kzuka, cada uma a seu modo, nos permitem entender o que acontece por debaixo do edredon do nosso contexto social.

— Luciano Mattuella


A grama do vizinho e um golpe de sorte

31/01/2010

Descobri, recentemente, o trabalho de Todd McGowan, professor na Universidade de Vermont. Seguindo uma linha de pensamento muito semelhante à do filósofo Slavoj Zizek, McGowan procura entender os bastidores da sociedade contemporânea através do estudos de fenômenos culturais – seu forte é a análise crítica de filmes.

Em seu impressionante livro “The End of Dissatisfaction? – Jacques Lacan and the Emerging Society of Enjoyment“, McGowan centra a atenção em uma mudança estrutural radical ocorrida nas últimas décadas: a passagem de uma sociedade da proibição (prohibition society) para uma sociedade do imperativo do gozo (society of command of the enjoyment). A discussão aberta pelo autor é muito longa e repleta de nuances importantes, mas a tese central é a de que se passou de um contexto social em que o gozo era proibido – abdicava-se do gozo pessoal em prol da manutenção de uma suposta estrutura social – para outro em que se é “obrigado” a gozar – importa o quanto cada um consegue se adequar a um ideal social de felicidade.

A questão agora é uma demanda de que sejamos felizes. O complicado, ainda seguindo a linha de raciocínio do autor, é que não temos referências que nos ajudem a entender o que é isso, ser feliz. Trata-se de uma ordem vazia de conteúdo, uma espécie de voz sem significado. Este problema não é novo: em seu artigo “O Mal-Estar na Civilização”, Freud já dizia que o homem é capaz de abrir mão de diversas coisas em troca de uma ilusão de felicidade. Especialmente daquilo que lhe é essencial: sua subjetividade (sua capacidade de resistência a um discurso hegemônico).

A série de televisão Mad Men, da rede HBO, – sobre a qual pretendo escrever com mais calma em breve – mostra claramente esta transição de que fala McGowan: aos publicitários (os homens da Madison Av.) não cabe mais demonstrar a utilidade e a praticidade de um produto: é necessário vender uma imagem. Já no primeiro episódio isto é evidente: quando a revista Reader’s Digest publica um artigo mostrando os malefícios do cigarro, a agência Sterling-Cooper, que trabalha com a conta Lucky Strike, opta por uma estratégia hoje em dia óbvia: não vendamos o produto, mas vendamos a imagem de alguém que corre riscos, que vive a vida no limite. Problema resolvido: o cigarro faz mal? Sim. Mas fumar mostra o quanto o consumidor é alguém que vive plenamente a vida. Em outras palavras: que goza a vida até o fim.

É este o fenômeno que explica, em parte, o sucesso de marcas como a Apple: ao comprar um iPod, não se está comprando apenas um tocador de músicas, mas sim toda uma imagem de uma pessoa “descolada”, atualizada e minimalista. Os comerciais da Apple batem muito forte nesta tecla da identificação com a marca: I’m a mac é o slogan utilizado. Sou um mac. Identifico-me à uma imagem de felicidade.

Percebe-se que o pano de fundo é uma questão de filiação, mas uma filiação não mais regulada através da presença de um pai em comum, mas sim através da semelhança com os irmãos. Os adesivos que vêm junto com os produtos da Apple marcam isso de modo muito forte: quando coloco no meu carro uma maçãzinha branca, estou mostrando para o mundo algo da minha (suposta) identidade.

Acredito que a importante sutileza nessa questão toda é saber interpretar estes fenômenos sem cair na armadilha do julgamento moral superficial. Discordo dos autores que têm um ponto de vista pessimista com relação ao mundo de hoje. Acho mais produtivo procurar entender as engrenagens por detrás do discurso vigente para, desta forma, poder sustentar um crítica – se é que ela é cabível – coerente.

Mas, de volta ao livro de McGowan. O que caracteriza, para o autor, o discurso social contemporâneo é este imperativo do gozo pleno, gozo total, um gozo que só pode ser atingido em nível fantasístico, uma vez que não há objeto no mundo que possa ser comprado/adquirido/incorporado de modo a satisfazer plenamente o homem. Este é grande paradoxo dos nossos tempos: é exigido que aproveitemos ao máximo a vida, mas a vida ela mesma não se entrega por completo. McGowan escreve isso de modo bem claro:

The fundamental thing to recognize about the society of enjoyment is that in it the pursuit of enjoyment has misfired: the society of enjoyment has not provided the enjoyment that it promises.

[O fundamental que temos que reconhecer sobre a sociedade do gozo é que nela a busca pelo gozo falhou: a sociedade do gozo não ofereceu o gozo que ela prometeu.]

O que de modo algum nos impede de tentarmos encontrar este gozo prometido. Aliás, provoca-nos ainda mais.

Consequência disso é que o reino da fantasia – das imagens -, que antes ocupava o lugar de “imagina se…”, agora aparece na própria cena do mundo, encarnado em role models, sejam eles celebridades ou mesmo o vizinho (cuja grama é mais verde). Perde-se a referência em um ideal construído de geração em geração, que opera pela via da transmissão de um saber que pode ser herdado. Um ideal que antes se encontrava numa linha vertical – da ancestralidade – agora coabita o nosso mundo, pode ser a pessoa ao lado.

Minha relação com o ideal agora não é uma remissão a uma ausência, mas, sim, ao ideal encarnado, a uma presença sufocante. As imagens de felicidade estão por todos os lados, fazendo parecer que é fácil ser feliz, seja isso o que for. O que faz com que um traço marcante da sociedade contemporânea seja um vida vivida sempre no presente: é preciso desfrutar ao máximo o momento, viver intensamente o agora. Aliás, este “conselho” (viva o momento em sua intensidade máxima) é chavão em literatura de auto-ajuda – o complicado, e sabe-se que o efeito depressivo dos livros de auto-ajuda pode ser devastador, é que este imperativo do gozo completo coloca o sujeito em uma situação impossível. Não há como viver tudo, ao máximo, em sua plenitude.

E é aqui que a leitura de McGowan me fez mais sentido, pois me ajuda a sustentar a minha tese de que o imaginário contemporâneo não consegue sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se o imperativo do gozo aponta sempre para o agora, sempre para o presente, é impossível um distanciamento suficiente do mundo – enquanto se está ensandecido atrás do gozo, não se consegue fazer pausas para pensar – que permita ser possível a construção de uma fantasia do porvir.

No final das contas, pode tudo estar condicionado a um golpe de sorte.

— Luciano Mattuella


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