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A palavra contra a desilusão

15/09/2010

O escritor americano Philip Roth é, certamente, um dos grandes porta-vozes do mal estar da contemporaneidade. Junto a figuras como J.M. Coetzee, Raymond Carver e Richard Ford, Roth é expoente entre aqueles escritores que detêm o talento único de traduzir em palavras a atmosfera de paranóia, medo e impotência que tomou conta do mundo nas últimas décadas, especialmente após os atentados de 11 de setembro.

O que Philip Roth diagnostica em suas obras – como em American Pastoral, livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1997 – é justamente a sensação de desilusão do homem atual com relação àquilo que o passado é capaz lhe transmitir de experiência para dar conta de suas angústias. Como pode um passado tingido pelo matiz da guerra e da violência servir como referência para uma ação que procure a construção de um futuro que não seja repetição desta violência?

Já em 1933 (ano de nascimento de Philip Roth, aliás), o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamin havia alertado, em seu conhecido artigo Experiência e Pobreza, para este enfraquecimento da relação entre o homem e sua história, para a impossibilidade de o passado ser apreendido como uma herança que lance luzes sobre o presente. Philip Roth leva magistralmente adiante este tese, mostrando como a cultura americana produz ou homens alienados (os ufanistas republicanos, cegos para a decadência da América) ou homens desiludidos, como Nathan Zuckerman, célebre – e talvez um autobiográfico – personagem de diversos livros de Roth.

Zuckerman, aliás, que se alia a David Kepesh – outro personagem típico, central, por exemplo, em The Professor of Desire (1977) – como exemplos de outro dos temas recorrentes em Philip Roth: a senescência, essa inexorável e incessante passagem do tempo. O tempo como uma força devastadora, como Cronos a devorar todos os filhos – um tempo, enfim, que não aponta para uma possibilidade de futuro, para a perpetuação e a transmissão de uma herança, mas tão-somente para o passar da vida e a fragilização do corpo rumo ao silêncio da morte.

Assim, a idéia de desilusão também assume, nas obras de Philip Roth, esta fachada de resignação à insuficiência do tempo vivido: somos todos projetos fadados a nunca nos realizarmos por completo. Afinal, como pode um homem que nada herda legar algo de permanente para aqueles que virão depois dele? Talvez não seja por acaso que vários dos personagens de Roth não tenham filhos: não conseguiram, a bem da verdade, nem mesmo tornarem-se, ele próprios, filhos de sua cultura – uma cultura cuja inocuidade insistem em explicitar, especialmente no campo político, da ação coletiva.

Paradoxalmente, e para a sorte de todos nós, seus leitores, Philip Roth procura justamente na potência da escrita a possibilidade de denunciar as arestas mal-acabadas de um mundo desiludido. A palavra como um último recurso para que nos reste mais do que o mero papel de animais agonizantes.


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