Posts Tagged ‘futuro’

Por favor, Mr. Cole, manere no tweed.

01/12/2011

(Este texto é inspirado e segue a linha de raciocínio do ensaio publicado pelo amigo e colega Vitor Hugo Triska.)

Uma das melhores brincadeiras de 1º de abril que eu lembro (ou pelos menos uma das mais bem escritas) apareceu no ano passado no site CNET. Fazendo uma alusão ao seriado norte-americano Doctor Who, a página noticiava que um jovem havia sido preso pela polícia suíça ao tentar sabotar o acelerador de partículas LHC – o tal Sr. Cole alegava ter vindo do futuro com a missão de impedir o fim do mundo. Há uma frase na divertida “matéria” que considero o seu ponto alto: “Police said Mr Cole, who was wearing a bow tie and rather too much tweed for his age, would not reveal his country of origin” (Traduzo: “A polícia disse que Sr. Cole, que estava vestindo uma gravata borboleta e um pouco de tweed demais para a sua idade, não queria revelar seu país de origem”).

A psicanálise hoje em dia se assemelha muito ao nosso querido Mr. Cole: uma prática que, por ter esquecido a sua origem – um Herr Freud sempre sintonizado com seu tempo e com as fantasias que sustentavam a Cultura de que era contemporâneo -, acaba usando tweed demais e, por vezes, se tornando um discurso empoeirado e démodé’ (confira-se, por exemplo, http://www.youtube.com/watch?v=TBUFMYythJQ). Acreditando vir do futuro, confessa sua escravidão ao passado.

É preocupante, mas é o estado da arte.

Há um abismo que separa a época de Freud da nossa. Mas estamos em tempos de aprendermos a caminhar sobre abismos. Ser “fiel a Freud”, ou seja, filiar-se à palavra de ensino freudiana é justamente aprender a ser filho de seu (nosso) tempo e pensar a contemporaneidade a partir dela (de nós) mesma (mesmos). Ser herdeiro do saber psicanalítico quer dizer fazer como Freud, claro, mas entendamos: fazer como Freud quer dizer seguir o seu exemplo e permitir-se escutar o que há de recalcado na Cultura contemporânea, e não intervir igual a Freud, calar-se igual a Freud, interpretar igual a Freud. Parece simples, mas há aqueles que confundem.

Um psicanalista hoje em dia deve ser capaz de explicar por quê a Lady Gaga é um role model, por quê Game of Thrones tem que ser a narrativa sobre o triunfo de um bastardo e por quê os zumbis não são figuras de ficção, mas caminham nas ruas todos os dias (e trabalham das 9h-17h).

Um psicanalista hoje em dia deve cuidar pra não usar muito tweed.

— Luciano Mattuella

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Também falando sobre a minha geração

21/05/2011

Hoje acordei e logo percebi que o relógio – de pulso – que deixo ao lado da cama estava parado. Sorri um sorriso um tanto freudiano, mas ainda tingido por umas imagens de sonho que insistiam em emancipar-se ao mundo.

Suspenso no tempo, tomei um café – sem açúcar, como gosto – enquanto lia um belíssimo texto escrito por meu amigo e colega Moysés. O café ficou um pouco mais amargo. Logo em seguida uma daquelas imagens do meu sonho sentou-se ao meu lado, silenciosa, aconchegada, mas muito nítida. Lembro que sonhei que eu estava embaixo de uma colina; no topo, um grupo de pessoas – todas iguais! – gritavam “Acabou, acabou!”. Desesperado, eu gritava de volta: “Ainda não, ainda tem tempo, ainda não!”. Só que, quando essas frases chegavam até os que estavam em cima da colina – lembro que eu via a frase fazendo todo o caminho até lá – ela se fazia eco da voz daquelas pessoas: “Acabou, acabou”. Como se eu falasse uma coisa e eles só conseguissem escutar aquilo que lhes fosse familiar.

Pensei de novo no relógio parado e desisti do café.

Então recordei que hoje era pra ter sido o fim do mundo. Há alguns meses foi ganhando consistência na cultura a idéia de que 21 de maio de 2011 seria o fim dos tempos (pra mim foi, na exata medida do meu pulso). “A Bíblia garante” é uma das frases estampadas em um outdoor aqui em Porto Alegre, na Terceira Perimetral. Sinal dos tempos: o fim do mundo é anunciado em outdoor (desculpem o spoiler). Profetizaram o Juízo Final e a sequência de catástrofes que se abateriam sobre os não escolhidos, os não puros. Os que ficaram embaixo da colina.

Penso sinceramente que eles – os profetas do apocalipse – estão corretos. Sem ironia, penso mesmo. Das duas, uma: se o mundo realmente acabar e hoje for o dia em que Jesus Cristo retornará para levar ao Paraíso os escolhidos, eles estarão certos. Se, por outro lado, nada disso acontecer e tudo seguir na mesma, bem, aí eles e Walter Benjamin estarão certos: “Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe”, escreveu o filósofo.

A minha geração é irmã – mais velha, pelo menos no meu caso – de Lady Gaga. E isso significa algo, definitivamente.

Esperamos por um Juízo Final (o sonho kantiano, o derradeiro juízo sobre tudo e todos!) que, cá entre nós, nunca virá. Ou já veio e nós perdemos porque nossos relógios estavam parados. Temos essa fantasia como constitutiva do nosso tempo: se tudo ficar sempre igual, nunca morreremos. Se o relógio não marcar o tempo, não envelheceremos. Se tomarmos nossas vidas como algo a ser pensado, corremos o risco de não encontrar nada no fundo da caneca do café. E ainda teremos que nos contentar em ficar dizendo: “como era bom o meu café amargo!”.

É como se a minha – a nossa? – geração fosse toda ela filha de uma mãe deprimida. Quando o filho de uma mãe depressiva volta-se para trás e pergunta: “Mãe, o que vale a pena no mundo?”, ela responde: “Nada, filho. Deixa assim mesmo”. Trata-se de uma mãe que não consegue antecipar um futuro para um filho, que não consegue banhar o tempo com desejo. Estamos desamparados, mas somos radicalmente felizes por esta condição: ela nos alivia da responsabilidade de ter que dar conta de alguma dívida, de que tenhamos de nos questionar pelo nosso próprio desejo. Por outro lado, nós estamos ainda presos nessa tentativa absurda de tentar animar uma mãe entristecida.

Não é esta a função que cabe a um filho, Freud nos ajuda a entender. Na verdade, o mesmo mundo desabitado que faz parte da fantasística de uma mãe deprimida pode ser encarado de duas formas: para os de cima da colina, como um lugar em que tudo já acabou. Para os que estão embaixo da colina, como um lugar que ainda nem começou. Talvez precisemos parar de tentar gritar a nossa resistência aos lá de cima e nos preocuparmos mais em falar em um tom mais calmo aos aqui de baixo.

Quem sabe seja por isso que vários autores (o genial Vladimir Safatle, por exemplo) costumam dizer que a marca de nossos tempos é o cinismo: como defesa à rugosidade do mundo nós desdenhamos da esperança, dizemos que sonhar e devanear são ações inúteis. Como não somos ouvidos, vestimos uma vestido de carne crua (lembrando da nossa irmã mais nova). Pior do que não criticarmos as coisas como estão, nós nos organizamos de tal forma a acreditar que estamos criticando. A sacola de tecido – e não de plástico – que levamos ao supermercado permite que nós durmamos tranquilos, mas definitivamente não nos ajuda a sonhar.

Enfim, meu relógio ainda marca a mesma hora em que acordei. Se o mundo ainda não tiver acabado, vou mandar consertar na segunda-feira.

— Luciano Mattuella

Eram os deuses… alienígenas?

25/03/2010

É bastante conhecido o livro “Utopia”, escrito por Thomas Morus em 1516. Neste relato, Morus descreve uma sociedade “perfeita”: as pessoas são felizes, vivem todas em casas iguais, têm a vida regrada, relacionam-se em harmonia – como uma partitura que é repetida à perfeição sem cessar, cada nota a seu tempo. Sociedade ideal? Pensemos com mais calma.

Apresentando através de imagens literárias a fantasia fundamental do homem renascentista de que tudo, mesmo o homem, pode ser matematizado – ou seja, de que por detrás da aparência do mundo há uma lógica auto-referente e consistente -, Morus propõe uma sociedade desprovida justamente da dimensão humana. Pois a subjetividade é justamente aquilo que resiste a toda tentativa de formalização: é a distonia, a nota tocada fora do tempo, a engrenagem emperrada na maquinaria da história.

A sociedade perfeita de Morus é um mundo sem humanos, um mundo transformado em máquina.

É interessante que essa mesma lógica renascentista ainda propague seus ecos nos tempos atuais. Se lembrarmos de filmes como “A Ilha” (de Michael Bay) ou “THX 1138” (de George Lucas), entre tantos outros, perceberemos que a fantasia de uma sociedade perfeitamente estéril encontra ainda – talvez mais do que nunca, na verdade – lugar no imaginário popular. O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) afirmava que o fazer científico opera justamente através da repetida foraclusão (exclusão absoluta) do sujeito: ou seja, o discurso da ciência tradicional tem como horizonte uma espécie de entendimento do mundo em si, sem a distorção de visões particulares – em outros termos, visões subjetivas.

Por trás desta questão toda está a noção moderna e tradicional de progresso: a crença de que a história humana tende na direção de um permanente aperfeiçoamento intelectual, o que permitiria – supostamente – uma vida melhor. É uma espécie bastante particular de messianismochegará um dia em que todos os mistérios do mundo terão sido elucidados e todos viveremos em harmonia com nossos desejos e anseios.

Este é o mote de diversos filmes de ficção-científica. Ficção-científica, aliás, que é um terreno fértil para entendermos as fantasias que sustentam o Imaginário Social contemporâneo, uma vez que é um ramo da cultura que costuma trabalhar de modo muito particular a dimensão do futuro. Falar de futuro implica explicitar alguns traços que estão na estrutura não-manifesta do próprio presente.

Apesar de a fantasia renascentista ainda ecoar nos dias de hoje, o lugar do homem no mundo parece estar amplamente despotencializado: se o homem iluminista – o homem da ciência – acreditava-se capaz de diluir a alteridade do mundo ao seu pensamento, o homem contemporâneo tenta ainda elaborar o luto de não ser mais o suporte da existência do universo.

Pensadores como Freud infligiram uma profunda ferida ao homem moderno quando mostraram que a divisão fundamental não está na relação homem/natureza (mundo interno/mundo externo), mas na relação do homem consigo próprio (razão consciente/pulsões inconscientes).

Sendo um pouco ousado, acho que podemos falar de uma melancolização da relação do homem com o mundo. Encontramos também em Freud a afirmação de que a melancolia, ou seja, o desligamento dos investimentos libidinais do “mundo exterior”, é o resultado patológico de um luto não-resolvido. Talvez esta seja uma hipótese para entendermos quais são os mecanismos inconscientes na base de nossa não-responsabilização com relação ao futuro, como no caso da questão ambiental, por exemplo. Ao invés de tomarmos partido e agirmos, assumimos uma posição inibida, à espera de uma entidade maior que resolva a questão por nós.

Mais uma vez é um produto da cultura pop que ilustra meu argumento. Estreia no dia 6 de abril, no Warner Channel, “V” (“Os Visitantes”), remake do seriado de mesmo nome que foi ao ar nos Estados Unidos em 1983. A história da série começa quando 29 gigantescas naves espaciais aparecem no céu de grandes cidades do mundo (o Rio de Janeiro, inclusive). Os alienígenas têm forma humana e afirmam estarem vindo em paz, buscando ajudar os terráqueos a resolverem seus problemas. Logo, postos de saúde com tecnologia avançadíssima são construídos e muitas pessoas portadoras de doenças que antes eram enigmas da medicina são milagrosamente curadas.

A salvação humana vem ao mundo sob a forma ovalada das brilhantes naves alienígenas.

— Luciano Mattuella


A grama do vizinho e um golpe de sorte

31/01/2010

Descobri, recentemente, o trabalho de Todd McGowan, professor na Universidade de Vermont. Seguindo uma linha de pensamento muito semelhante à do filósofo Slavoj Zizek, McGowan procura entender os bastidores da sociedade contemporânea através do estudos de fenômenos culturais – seu forte é a análise crítica de filmes.

Em seu impressionante livro “The End of Dissatisfaction? – Jacques Lacan and the Emerging Society of Enjoyment“, McGowan centra a atenção em uma mudança estrutural radical ocorrida nas últimas décadas: a passagem de uma sociedade da proibição (prohibition society) para uma sociedade do imperativo do gozo (society of command of the enjoyment). A discussão aberta pelo autor é muito longa e repleta de nuances importantes, mas a tese central é a de que se passou de um contexto social em que o gozo era proibido – abdicava-se do gozo pessoal em prol da manutenção de uma suposta estrutura social – para outro em que se é “obrigado” a gozar – importa o quanto cada um consegue se adequar a um ideal social de felicidade.

A questão agora é uma demanda de que sejamos felizes. O complicado, ainda seguindo a linha de raciocínio do autor, é que não temos referências que nos ajudem a entender o que é isso, ser feliz. Trata-se de uma ordem vazia de conteúdo, uma espécie de voz sem significado. Este problema não é novo: em seu artigo “O Mal-Estar na Civilização”, Freud já dizia que o homem é capaz de abrir mão de diversas coisas em troca de uma ilusão de felicidade. Especialmente daquilo que lhe é essencial: sua subjetividade (sua capacidade de resistência a um discurso hegemônico).

A série de televisão Mad Men, da rede HBO, – sobre a qual pretendo escrever com mais calma em breve – mostra claramente esta transição de que fala McGowan: aos publicitários (os homens da Madison Av.) não cabe mais demonstrar a utilidade e a praticidade de um produto: é necessário vender uma imagem. Já no primeiro episódio isto é evidente: quando a revista Reader’s Digest publica um artigo mostrando os malefícios do cigarro, a agência Sterling-Cooper, que trabalha com a conta Lucky Strike, opta por uma estratégia hoje em dia óbvia: não vendamos o produto, mas vendamos a imagem de alguém que corre riscos, que vive a vida no limite. Problema resolvido: o cigarro faz mal? Sim. Mas fumar mostra o quanto o consumidor é alguém que vive plenamente a vida. Em outras palavras: que goza a vida até o fim.

É este o fenômeno que explica, em parte, o sucesso de marcas como a Apple: ao comprar um iPod, não se está comprando apenas um tocador de músicas, mas sim toda uma imagem de uma pessoa “descolada”, atualizada e minimalista. Os comerciais da Apple batem muito forte nesta tecla da identificação com a marca: I’m a mac é o slogan utilizado. Sou um mac. Identifico-me à uma imagem de felicidade.

Percebe-se que o pano de fundo é uma questão de filiação, mas uma filiação não mais regulada através da presença de um pai em comum, mas sim através da semelhança com os irmãos. Os adesivos que vêm junto com os produtos da Apple marcam isso de modo muito forte: quando coloco no meu carro uma maçãzinha branca, estou mostrando para o mundo algo da minha (suposta) identidade.

Acredito que a importante sutileza nessa questão toda é saber interpretar estes fenômenos sem cair na armadilha do julgamento moral superficial. Discordo dos autores que têm um ponto de vista pessimista com relação ao mundo de hoje. Acho mais produtivo procurar entender as engrenagens por detrás do discurso vigente para, desta forma, poder sustentar um crítica – se é que ela é cabível – coerente.

Mas, de volta ao livro de McGowan. O que caracteriza, para o autor, o discurso social contemporâneo é este imperativo do gozo pleno, gozo total, um gozo que só pode ser atingido em nível fantasístico, uma vez que não há objeto no mundo que possa ser comprado/adquirido/incorporado de modo a satisfazer plenamente o homem. Este é grande paradoxo dos nossos tempos: é exigido que aproveitemos ao máximo a vida, mas a vida ela mesma não se entrega por completo. McGowan escreve isso de modo bem claro:

The fundamental thing to recognize about the society of enjoyment is that in it the pursuit of enjoyment has misfired: the society of enjoyment has not provided the enjoyment that it promises.

[O fundamental que temos que reconhecer sobre a sociedade do gozo é que nela a busca pelo gozo falhou: a sociedade do gozo não ofereceu o gozo que ela prometeu.]

O que de modo algum nos impede de tentarmos encontrar este gozo prometido. Aliás, provoca-nos ainda mais.

Consequência disso é que o reino da fantasia – das imagens -, que antes ocupava o lugar de “imagina se…”, agora aparece na própria cena do mundo, encarnado em role models, sejam eles celebridades ou mesmo o vizinho (cuja grama é mais verde). Perde-se a referência em um ideal construído de geração em geração, que opera pela via da transmissão de um saber que pode ser herdado. Um ideal que antes se encontrava numa linha vertical – da ancestralidade – agora coabita o nosso mundo, pode ser a pessoa ao lado.

Minha relação com o ideal agora não é uma remissão a uma ausência, mas, sim, ao ideal encarnado, a uma presença sufocante. As imagens de felicidade estão por todos os lados, fazendo parecer que é fácil ser feliz, seja isso o que for. O que faz com que um traço marcante da sociedade contemporânea seja um vida vivida sempre no presente: é preciso desfrutar ao máximo o momento, viver intensamente o agora. Aliás, este “conselho” (viva o momento em sua intensidade máxima) é chavão em literatura de auto-ajuda – o complicado, e sabe-se que o efeito depressivo dos livros de auto-ajuda pode ser devastador, é que este imperativo do gozo completo coloca o sujeito em uma situação impossível. Não há como viver tudo, ao máximo, em sua plenitude.

E é aqui que a leitura de McGowan me fez mais sentido, pois me ajuda a sustentar a minha tese de que o imaginário contemporâneo não consegue sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se o imperativo do gozo aponta sempre para o agora, sempre para o presente, é impossível um distanciamento suficiente do mundo – enquanto se está ensandecido atrás do gozo, não se consegue fazer pausas para pensar – que permita ser possível a construção de uma fantasia do porvir.

No final das contas, pode tudo estar condicionado a um golpe de sorte.

— Luciano Mattuella


"Everything in its right place"

23/01/2010

No último encontro de nosso grupo de estudos sobre Subjetividade Contemporânea discutimos os primeiros parágrafos do excelente Experiência e Pobreza, de Walter Benjamin. Uma das frases que causou mais discussão foi a seguinte: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”. Já citei esta passagem no post anterior, mas gostaria de revisitá-la, agora desde um outro ponto de vista.

Se observarmos atentamente, neste texto Benjamin se coloca a mesma questão que preocupou Freud em 1920, no artigo Para Além do Princípio do Prazer: como podemos explicar que os sobreviventes da Primeira Guerra tenham voltado dos campos de batalha mais pobres em experiências, não mais ricos? O lógico seria que, após um evento de tamanha intensidade emocional, aqueles combatentes voltassem para suas famílias repletos de histórias para contar, de lições para transmitir às futuras gerações. Não foi o que aconteceu. Fecharam-se em um profundo silêncio, resignados a reviver em seus sonhos uma e outra vez o evento traumático da morte de um amigo, uma amputação, o odor da fumaça das granadas.

Experiência, para Benjamin, é o estatuto ao qual um fato – uma vivência – pode ser elevado quando narrado desde a posição subjetiva singular e intransferível daquele que o presenciou. Ou seja, a função narrador é aquela através da qual a rugosidade do mundo adquire características de uma história a ser contada. O ouvinte deixa de ser inocente quando escuta uma história, torna-se testemunha de algo, ou seja, sua presença enquanto depositário de uma enunciação o responsabiliza pelo narrado (aliás, diga-se de passagem, posição típica do psicanalista).

Freud diagnostica os tempos pós-Primeira Guerra como tingidos por um sentimento ao qual ele dá o nome de desilusão. Dentro deste contexto, desilusão significa a impossibilidade de a humanidade, dada a crueza e o sem-sentido das atrocidades dos campos de batalha, fazer uma aposta no futuro, ou seja, sustentar uma fantasia de futuro. Em outros termos, para Freud, a Primeira Guerra teve como principal vítima a própria dimensão de futuro. Tornou-se impossível dar consistência à uma idéia de futuro.

Não seria disso que Benjamin estaria falando? Ora, um dos motivos para não poder sustentar uma fantasia viável de futuro é a impossibilidade de resgatar do passado aquela palavra de transmissão que está em jogo em todo ato narrativo. Quando a história dos antepassados se torna um mero jogo causal, perde-se a sua potência simbólica de sustentação de um lugar no mundo. Ocorre o que Benjamin chama de desvinculação do presente com relação ao patrimônio cultural.

E, frente a este vazio de referência, acaba-se caindo em uma das duas piores alternativas: ou nos vinculamos cegamente a um passado que não nos pertence e realizamos inconscientemente o desejo de outros (nos colocamos como meros coadjuvantes), ou nos distanciamos de tal modo de nossa história que nos tornamos caricaturas de nós mesmos (tão somente figurantes de um roteiro escrito por outro).

Muitos filmes de ficção-científica exploram estes cenários de aridez subjetiva absoluta, como, por exemplo, a primeira incursão no cinema de George Lucas, o surpreendente file THX 1138, de 1971, ou mesmo o mais recente The Island, de 2005 – para citar apenas dois de inúmeros. Nestes filmes, a sociedade desenvolveu-se de tal modo que o paradigma da pureza e da limpeza rege absolutamente a vida cotidiana, ao preço da perda da subjetividade e da singularidade (primeiras vítimas em qualquer regime totalitário). Tudo em seu respectivo lugar. Everything in its right place, como na música da banda Radiohead.

O que se perde, numa sociedade desiludida – uma sociedade mecanizada e burocratizada-, é a possibilidade da remissão a uma estilo, ou seja, a capacidade de responsabilizar-se pela experiência dos antepassados de forma a, de modo singular, poder inserir-se nesta história e transmitir adiante algo que tenha valor simbólico.

— Luciano Mattuella


Elementar, meu caro… Veríssimo?

19/01/2010

Em sua coluna do dia 14 de janeiro, Luis Fernando Veríssimo se mostra incomodado pela escolha de Robert Downey Jr. para viver o detetive Sherlock Holmes nos cinemas, afirmando que se trataria de um caso de miscastingescolha errada de ator para um papel. A sua opinião gerou algumas respostas e críticas, como esta do jornal CineSemana. Entretanto, no próprio texto Veríssimo afirma não ter visto o filme ainda, marcando ainda mais o tom meramente humorístico e provocativo da coluna.

Interessante que este termo – miscasting – me remeteu, por um motivo ao qual só agora tenho acesso, a um livro da psicanalista Maria Rita Kehl intitulado O tempo e o cão. Nesta obra, Kehl faz uma análise aprofundada do mal-estar contemporâneo, situando o lugar da depressão nos dias de hoje. Não se trata da depressão como o distúrbio clínico psiquiátrico, caracterizado por apatia, falta de apetite, distúrbios de sono, etc., mas sim da depressão como condição mesma da subjetividade contemporânea. O depressivo é aquele que não consegue atribuir sentido ao mundo, que tem a sensação de que nada lhe diz respeito, que não está implicado em nenhum dos discursos atuais, em nenhuma das narrativas que atribuem um lugar social para alguém. É um fora-do-mundo, por assim dizer. Um outcast.

É conhecida a afirmação de que, no mundo de hoje, os ideais vieram terra abaixo. Cada discurso social gera um Imaginário que dá consistência para o mundo, que tinge a realidade com os matizes dos anseios e fantasias herdados do passado e re-significados no contexto presente. Os ideais sendo, portanto, aquelas figuras que dariam conta de responder às demandas de uma época e que serviriam de referência. A questão que se coloca, entretanto – e também por isso alguns autores falam do fim da história – é que a contemporaneidade carece de um discurso, de uma narrativa organizadora.

Para Maria Rita Kehl, a depressão é um sintoma social, ou seja, uma espécie de enfermidade que denuncia, à sua maneira, algo da ordem inconsciente que opera na cena do mundo. O sintoma, em psicanálise, ocupa o lugar do mensageiro que é morto em lugar do remetente: é um ponto de não-saber (“não sei porque faço/sinto sempre isso!”) que aponta para um mecanismo inconsciente que ultrapassa a racionalização. Logo, a sensação de não pertencer ao mundo, de não ter lugar no mundo – sentimento de estar exilado em sua própria pátria -, típica do discurso do depressivo, diz de uma fragilização da própria tessitura do Imaginário Social contemporâneo. Todos nós, portanto, estamos minimamente identificados à figura do depressivo.

E aqui reencontramos Luis Fernando Veríssimo: o miscasting, ter sido uma péssima escolha para um papel que lhe foi atribuído, é a própria marca do depressivo. É a sensação de que só os outros desempenham muito bem suas partes, seguem tranquilamente um roteiro, improvisam ali onde é necessário, fazem parte de um grande enredo. Entretanto, Maria Rita Kehl parece avisar que devemos nos perguntar, atentos às demandas dos depressivos, se há ainda um roteiro que nos sirva de referência.

Acredito que esta questão está na base de minha hipótese de que a discurso social contemporâneo não é capaz de sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se não podemos olhar para trás e nos apropriar de nossa história – e dos nosso antepassados -, não poderemos nos colocar no lugar daqueles que transmitem algo às futuras gerações. Ou, como se interroga Walter Benjamin, no artigo Experiência e Pobreza: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”

— Luciano Mattuella


"Agora o oceano é de plástico"

18/01/2010

A frase que dá título a este post foi dita a Kitt Doucette – da revista Rolling Stone – pelo comandante da embarcação de pesquisa Alguita, Charles Moore. A tradução na íntegra desta matéria está na edição de janeiro da Rolling Stone brasileira e é parte de um breve dossiê cuja chamada na capa é: “Aquecimento Global – O Fim do Mundo Está Próximo?

A revista americana Wired também tem tratado deste tema com bastante frequência e de forma muito competente, como é o caso deste dossiê, disponibilizado online em seu site.

Voltando à matéria da RS, entretanto.

“Não importa onde você está, não tem como superar, não tem como escapar. Agora o oceano é de plástico.” Esta é a frase completa dita por Moore, com toda a urgência e a desilusão esperadas de quem, vagando pelos mares, encontrou por acaso a maior ilha de dejetos plásticos do mundo, localizada no Oceano Pacífico, chamada Grande Mancha de Lixo no Pacífico – “um vórtice giratório de uma sopa de plástico, um pântano imenso e fétido de dejetos em que pedacinhos minúsculos de plástico podre se sobrepõe ao zooplâncton (…) na proporção de seus para um”.

Em ainda outra matéria deste dossiê, Steven Chu, atual secretário de Energia dos Estados Unidos, diz, referindo-se às consequências do aquecimento global: “Acho que o povo americano ainda não se deu conta do que pode acontecer.”

O diagnóstico é certeiro.

Como explicitei no post anterior – e aqui eu gostaria de seguir aquela linha de raciocínio – o povo (não só americano) “não se deu conta” justamente porque não consegue sustentar uma fantasia de futuro autêntico para si. E esta impossibilidade gera uma consequência que opera diretamente na cena do mundo: ao não poder supor imaginariamente um futuro (a não ser um mundo sem humanos) para as próximas gerações, a humanidade não consegue tomar as rédeas da situação presente, minimizando a urgência da situação ou, ainda, menosprezando o papel que o homem tem no ambiente.

São muitas as discussões em torno da responsabilidade do ser humano no surgimento daquele efeito que conhecemos por aquecimento global. Ótimas teses são defendidas pró-intervenção humana e também excelentes opiniões são emitidas na direção oposta. Mas, parece-me, esta discussão serve como aquela imagem bem construída de “preocupação intelectual” que serve de fachada e encobre o que realmente está em questão: sendo ou não responsabilidade do homem a causa do aquecimento global, o problema existe e deve ser enfrentado. É necessário responsabilizar-se justamente por aquilo que não parece nos implicar na posição de culpados.

Procuro assumir uma posição atenuada por um distanciamento teórico. Esta ponto de vista me impede de dizer que somos culpados por algo, ainda mais no que tange a culpar alguém pela não possibilidade de construção de uma fantasia. Prefiro entender que ações cotidianas como separar lixo orgânico de lixo seco, abastecer o carro com etanol (ou não usar o carro!), utilizar de embalagens biodegradáveis, ainda não entraram para a rotina da maior parte da população porque a preocupação com o futuro não encontra anteparo fantasístico no imaginário social contemporâneo. Poderíamos arriscar, inclusive, a dizer que o descaso com o meio-ambiente pode ser entendido, uma vez que se trata de uma ação que ultrapassa a intenção, como uma espécie de sintoma social. Sintoma ao qual estamos todos, uma vez que todos somos filhos de nosso tempo, mais ou menos alienados.

E, como a psicanálise nos ensina há mais de 100 anos, o modo mais eficaz de abastar um sintoma, de esvaziá-lo de seu conteúdo nocivo, é que se fale repetidamente sobre ele. Mas que se fale no idioma que faz função na estrutura simbólica do mundo. Por isso não sou contra aproximações entre ecologia e moda (produtos ecofashion, por exemplo) ou campanhas publicitárias que atribuam uma qualidade cool àqueles que se preocupam com o ambiente. Há que se entrar na lógica para poder movimentar os alicerces.

No site da RS ainda podemos encontrar uma matéria cobrindo o tão falado – e tão decepcionante – COP15, a conferência da ONU que tinha como intuito repensar seriamente o aquecimento global e as alternativas que os governos poderiam lançar mão para lidar com ele.

Um dos comentários da revista sobre o evento é o seguinte (o grifo é meu):

É claro que ninguém quer trazer para a vida real o apocalipse que Hollywood alardeia há anos, em produções como O Dia Depois de Amanhã e o mais recente 2012. Mas a questão político-econômica pesa. Países desenvolvidos (principalmente os EUA) não queriam arcar com todas as despesas, nem brecar sua indústria. Países em desenvolvimento reclamaram por terem entrado na festa do desenvolvimento mais tarde. Para não passar a impressão de “conversa para boi dormir”, o acordo precisava ser aprovado por todos – norma da ONU para torná-lo legal. Venezuela e Cuba eram alguns dos opositores mais barulhentos.

Acredito que deveríamos nos ocupar das questão ambientais do mesmo modo que Freud aconselhava seus pacientes a tomarem conta de seus atos falhos, sonhos e sintomas: mesmo sentindo que eles vinham “de fora”, que não lhes pertenciam, devia-se tomá-los como se fossem seus e procurar dar sentido a eles levando em conta a sua história pessoal. Àqueles que não se dispunham a deixar rachar minimamente a sua carapaça narcísica e perceberem-se como autores de seus atos, Freud chamava de covardes morais.

Somos antropocêntricos para tudo, exceto para assumir responsabilidades.

— Luciano Mattuella


Um mundo sem humanos

17/01/2010

No caderno Cultura da Zero Hora de 16 de janeiro há uma interessante entrevista realizada por Ed Pilkington – jornalista do The Guardian – com o historiador inglês Tony Judt, intelectual acometido de Esclerose Lateral Amiotrófica, um mal que rapidamente evoluiu e lhe privou do movimento dos membros, além de lhe dificultar a respiração. Pois é desde este cenário de doença e mal-estar que Judt comenta, em tom entristecido:

Esta é a segunda geração de pessoas que não conseguem imaginar mudanças a não ser em suas próprias vidas, que não têm nenhuma noção de bens ou serviços públicos coletivos, que são apenas indivíduos isolados esforçando-se desesperadamente para melhorar a si próprios acima de todos os demais.

Acredito que o ponto de vista de Judt seja um tanto extremado, como costumam ser as posições de toda uma geração – a dele – que carrega consigo este sentimento de ter sido traída: prometeram-nos um mundo de prazeres e libertação (refiro-me aqui aos eventos dos anos 60) e nos deram apenas esta miséria de mundo. Foi uma geração que supôs que, após um período tão conturbado, merecia algo melhor. Que o Destino lhe devia algo. Uma geração que julgou ter percebido a tempo a artificialidade dos construtos sociais da década de 50: as famílias bem organizadas, os filhos, todos eles, possíveis futuros presidentes, a economia aparentemente estável, o american way of life, as cercas brancas na frente das casas, circundando os verdes gramados.

O que essa geração não tinha como saber, entretanto, é que as cercas brancas metaforizavam o arame-farpado das trincheiras.

Mas, apesar desta minha ressalva, acredito que a afirmação de Judt é, sim, válida. O historiador apenas “erra a mira”, se podemos dizer assim: ele diagnostica como se fosse um mal na realidade do mundo algo que, na verdade, faz adoecer a outra cena, como diria Freud, o mundo fantasmático que sustenta esta realidade (nos posts anteriores já falei algo sobre este arcabouço imagético, sobre este imaginário social). Naturalmente que esse padecimento do Imaginário Social tem seus efeitos na concretude do mundo; aliás, só é possível nos aproximarmos dele através de evento no mundo que sejam consequência de sua operação. Seria ingênuo pensar o contrário.

Mas qual seria este padecimento do Imaginário Social? Ora, creio que esta impossibilidade que Judt aponta, esta dificuldade em pensar um “mundo melhor” (por falta de outra expressão) que se ocupasse das preocupações do coletivo, que levasse em conta, enfim, a suposição de que outras gerações virão depois desta, é apenas um de inúmeros traços da civilização atual que nos permitem levantar a seguinte tese: a sociedade contemporânea não consegue sustentar uma fantasia de um futuro autêntico. E, consequência factual disto, age como se não fosse existir um mundo amanhã. Basta ver a (falta) de preocupação com a questão ambiental – a injunção “que mundo deixará para teus filhos?” não opera efetivamente porque não encontra eco no Imaginário Social para validá-la.

Este mote, aliás (sendo ainda fiel ao método a que me propus no primeiro post deste blog), está presente e antecipado em diversos filmes de razoável sucesso como I Am Legend (2007), de Francis Lawrence e o fantástico Children of Men (2006), de Alfonso Cuarón, ao qual pretendo dedicar mais minha atenção em breve. Em ambos, o que podemos perceber é a inevitabilidade de um mundo sem humanos, ou seja, um mundo reduzido à sua mecanicidade natural de ciclos e estações. Uma realidade em que a humanidade não foi exterminada por um agente externo como um fenômeno da natureza, mas sim na qual o homem foi, por suas próprias incapacidades e impossibilidades, pavimentando para si um lento processo de extinção da subjetividade.

Mais ou menos aquilo que a sociedade americana dos anos 50 tentou mimetizar.

— Luciano Mattuella


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