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Facebook e o imperativo da indignação

03/02/2012

Sou um otimista com relação às novas tecnologias e às redes sociais. Acredito que aqueles que procuram saber se o Twitter e o Facebook afastam ou aproximam as pessoas estão cometendo um engano: não é mais esta a questão (se é que em algum momento foi) – os próprios referenciais de distância de antes não valem nos dias de hoje. A geração analógica media distância em metros; a geração digital mede em cliques.

Há um abismo talvez intransponível separando estas duas gerações. Este é o único motivo que me ajuda a pensar a cobertura de alguns meios de comunicação com relação, por exemplo, às riots em Londres e ao Movimento Occupy. Dizer que estas manifestações culturais são “coisa de vagabundo” ou de “neo-burguês entediado” é um atestado de incapacidade de leitura do contexto contemporâneo. Ou mesmo um ato de má-fé – mas não é este o meu ponto aqui.

As novas (novas?) tecnologias, ao contrário do que parece pensar a geração do lado de lá do abismo, não enfraquecem a capacidade de fala. Elas surgem como uma, talvez a única, forma de se fazer escutar em um mundo que tinha desaprendido a protestar (é difícil protestar em uma língua morta). Não é à toa que, inspirados em Alan Moore, os manifestantes do Occupy utilizam a máscara de Guy Fawkes, um revolucionário de outros tempos: ao fazerem isso, não cortam laços com os antepassados, mas homenageiam e atualizam um potencial crítico que há muito foi emudecido pela rotina de trabalho, pelo cinza dos escapamentos dos carros, pelos monopólios de informação (algo que, como todos sabemos, “a gente vê por aqui”).

Eu gostaria de levar a discussão um pouco adiante. Por mais que eu seja um instigador e um entusiasmado com os movimentos sociais em redes, acredito que há algo a se tomar cuidado: de algum tempo para cá parece estar ganhando consistência, especialmente no Facebook, uma espécie de imperativo da indignação. Quão indignado você fica com a presença da PM na PUC-SP? E com Pinheirinho? E com o salários dos deputados? E com todo o resto? Fique indignado, não importa com o quê!

E, bom, estamos realmente indignados. Mas é importante saber que isso não é suficiente.

Estar indignado e não fazer nada, mesmo que sejam movimentos em nível micro – e aí o trabalho psicanalítico é imprescindível -, é ser cúmplice, é emprestar o olhar para sustentar uma violência. As redes sociais convocam o olhar (“Veja esta foto!”, “Repare neste absurdo!”), e este é justamente o seu grande risco – e trunfo. Aquele que “curte” uma “postagem de indignação” sem assumir uma posição crítica está na mesma posição do motorista que passa ao lado de um acidente, diminui a velocidade para ver melhor os feridos, e segue adiante: empresta o seu olhar para que as coisas fiquem como estão. Um olhar que não evoca a palavra é um olhar de gozo e de anuência.

Mas, como eu disse antes, esta fascinação pelo olhar é também o grande trunfo das redes sociais: será que saberíamos sobre o massacre de Pinheirinhos se não fosse o Facebook, se dependêssemos apenas dos meios tradicionais de comunicação? Levaríamos a sério e entenderíamos o real significado das revoltas londrinas? Lembrando, de passagem, que a revista Veja (!) apresentou aqueles jovens britânicos como alienados que estavam saqueando lojas atrás de tênis de marca e aparelhos eletrônicos. Faltou à revista perceber que aqueles jovens queimavam os produtos da loja: um modo simbólico de dizer que este sistema econômico em que vivemos está caduco, que, no fundo, toda a parafernália de consumo não tem valor.

Voltando ao assunto: a questão central está em saber o que fazemos com todas estas convocações à indignação. Como podemos quebrar os ciclos de violência, mesmo que os mais simples e discretos? Tenho em mente aqui uma frase genial de Guy Débord, em A Sociedade do Espetáculo:

À aceitação (…) daquilo que existe pode também se adicionar como uma mesma coisa a revolta puramente espetacular: isto traduz o simples fato de que a insatisfação ela própria se torna uma mercadoria (…).

Como ir além do espetáculo, além da convocação de um olhar passivo? Se “curtir” for o suficiente para estarmos com a consciência limpa, estamos fazendo algo errado. Bem errado.

As redes sociais são ferramentas importantíssimas para a construção de pontos de visibilidade no mundo. Compartilhar uma violência é uma forma de tornar pública e fazer visível algo que talvez não teria lugar na mídia. Entretanto, se a “insatisfação se torna uma mercadoria”, como diz Débord, nada muda – vira uma queixa vazia e sem sentido prático, um discurso que não gera movimentos – gozo da desilusão. Estar indignado porque é justamente isso o que o mundo parece querer é uma das novas formas de cinismo. Uma indignação espetacular.

Uma indignação de novela das oito.

— Luciano Mattuella

Luiza e o nosso jet lag

25/01/2012

Uma das tarefas essenciais de qualquer um que se ocupe com interpretação da Cultura hoje em dia é estimular uma discussão sobre o contexto contemporâneo que não caia nem no cinismo“não há nada a ser feito” –  nem na nostalgia“antes é que era bom”. Tanto a posição nostálgica quanto a cínica são estratégias, às vezes muito bem aceitas socialmente, de defesa, formas de manter-se distante do verdadeiro debate. A posição crítica, uma terceira via que me parece mais interessante, implica o risco de, volta e meia, tensionar e romper algumas opiniões aceitas pelo coletivo.

Um dos maiores perigos do pensamento nostálgico – por falta de nome mais adequado – é a sua transformação em moralismo – este artifício que Freud já denunciava como uma das formas mais refinadas de reprimir um desejo inconsciente – e, com isso, ainda desfrutar de certa aceitação social: “Olhem para aquele homem: tão correto, tão fiel aos seus princípios”. É também o caso da mulher que se apavora ao pensar que, por debaixo de toda a roupa, ela está completamente nua.

O que não se percebe com tanta frequência é que o moralismo é um modo de imposição de valores e diretrizes sob o pretexto de uma suposta preservação “da família e dos bons costumes”, estes estandartes tão caducos hoje em dia. Perplexo em sua adoração por um passado idealizado, o nostálgico desiste do presente. E, certamente, abre mão de qualquer possibilidade de interpretação de fatos sociais que não acabe sendo uma pálida e saudosista homenagem aos “bons tempos de outrora”. Em vez de entender um fato cultural como um sintoma de uma estrutura subjacente, o moralista petrifica-o em uma interpretação obsoleta.

Por outro lado, um fenômeno que me interessa muito, e que é uma das maiores críticas endereçadas a alguns pensadores pós-modernos, é a cada vez maior presença do pensamento cínico na Cultura. Na verdade, em sua manifestação mais explícita, o cínico acaba por encontrar-se na mesma esquina que o moralista: cada um ao seu modo, ambos abdicam da palavra em sua função transformadora para fazerem uso de um discurso que mantém tudo como está. Há, entretanto, uma forma mais sutil de cinismo, o que eu gostaria de chamar de modo irônico de viver.

Enquanto o moralista entende a ruptura com os modos de vida do passado como uma maldição, o cínico de hoje em dia – os ditos “hipsterssão uma boa, mas não suficiente, ilustração – celebra o fato de o passado não ser mais uma prisão, de poder inventar-se como bem entender. Se a tradição que pertencia a uma época antiga não dialoga mais com o presente, se os valores de outros tempos não ditam mais comportamentos, então somos livres, o mundo é nosso por direito!

Seria ótimo – mas não é bem assim que a coisa funciona.

O que por vezes não percebemos é que este rompimento em relação a uma linhagem que traz consigo um saber sobre a vida cobra um preço bastante alto: ao não nos remetermos mais a referências do passado, somos levados a procurar no presente pelos ideais que ajudam a compor nossa identidade. O problema é que, em geral, estes ideais são absolutamente fugazes.

Se antigamente o psicanalista era procurado em razão de um sintoma específico – um comportamento repetitivo, uma dúvida com relação a uma escolha amorosa… -, hoje em dia os consultórios recebem cada vez mais a queixa abstrata de que “nada faz sentido”, de que “a vida parece não ter propósito”. Isso parece evidenciar como a tentativa de organizar uma identidade através da mimetização de role models é vã e cruel.

E, bom, a princípio a vida não tem mesmo um propósito. Mas o que perdemos hoje em dia foi justamente a capacidade de inventar um sentido particular e singular para a existência de cada um. Não conseguimos mais contar histórias. A ficção é uma moeda cada mais desvalorizada, queremos o que “realmente” (aspas!) aconteceu, os fatos mesmos, a crueza dos dados quantitativos – como se existíssemos fora do mundo, como  (tele)espectadores.

Aquele que vive ironicamente a vida, aquele que mantém um distanciamento cool com relação ao mundo, cai numa armadilha: ao tentar fugir dos imperativos sociais tradicionais, acaba tendo que se haver com os imperativos performáticos que ele próprio criou. O rompimento com o passado, que deveria ser uma benção, acaba erguendo prisões cada vez mais confortáveis e alienantes. A liberdade acaba se tornando a pior sentença: seja livre, obrigatoriamente!

Então, sinceramente, não é a Luiza – no Canadá ou não – que vai nos ajudar a saber se ficamos mais ou menos burros.

[Este texto segue discussões iniciadas no grupo “Psicopatologia e Mal-Estar na Cultura Contemporânea”, ao qual estão convidados todos os que se sentirem convocados pelo tema]

— Luciano Mattuella

Os estupradores do imaginário

18/01/2012

Em meu primeiro ensaio publicado neste blog (no dia 16 de janeiro de 2010), propus um início de reflexão sobre a questão: como os psicanalistas interpretam a Cultura? À época, fiz referência ao livro Bem-vindo ao deserto do Real, do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Certamente há alguns pontos naquele pequeno texto que, hoje, eu reveria e teria escrito de forma diferente. A ideia central, entretanto, ainda me parece bastante válida. Retorno a isto daqui a pouco.

Comecemos por outro lado: ontem, o filósofo Juremir Machado da Silva publicou um artigo no jornal Correio do Povo que me fez retornar ao texto que escrevi há mais de um ano. Juremir lança alguns aforismas sobre o Big Brother Brasil 12 – famoso BBB12 – e o suposto estupro que teria ocorrido no programa. Reproduzo, abaixo, um pequeno trecho que me parece especialmente astucioso:

O suposto estupro do BBB12 é o ai se eu te pego que se materializou.

Quando se brinca com a fantasia ao extremo, flertando com o abismo, o salto acaba por acontecer.

Não precisa existir relação direta.

O imaginário é o resultado de saltos lógicos.

“Quando se brinca com a fantasia ao extremo (…) o salto acaba por acontecer”. Juremir parece sintetizar em uma frase toda a teorização psicanalítica sobre a fantasia e os modos de a fantasia precipitar-se na cena do mundo.

Que a Cultura seja também um repositório de tendências de acontecimentos é algo com o que os psicanalistas estão já acostumados. Esta é uma das possíveis interpretações da célebre tese de Lacan de que “a verdade está estruturada como uma ficção”, ou seja: a história de nossa vida nada mais é do que uma narrativa suficientemente consistente na qual escolhemos acreditar (os motivos pelos quais escolhemos tal ou tal narrativa são testemunho de nosso modo específico de estarmos inscritos na Cultura – mas isso é assunto para outra hora).

O ponto aqui é o seguinte: qual a importância da Cultura popular para o psicanalista? O que as músicas, seriados, filmes, enfim, qualquer produto da indústria cultural, dizem das fantasias inconscientes de uma determinada época, de uma determinada narrativa que um período escolheu para contar a sua própria história? Que haja uma tênue linha aproximando o Big Brother Brasil 12 e o “Ai se eu te pego” do Michel Teló, esta é uma consideração brilhante de Juremir Machado da Silva.

Os dois produtos – sim, mesmo o dito estupro é, infelizmente, um produto da indústria cultural (prova disso é a audiência recorde do BBB12 no dia em que Daniel foi expulso) – são a materialização de alguma fantasia inconsciente que insiste no imaginário social e insiste em ganhar materialidade concreta.

E aqui retomo Zizek, citado no primeiro posto do blog:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Quando a imagem invade o mundo, quando a fantasia ganha consistência material, estamos frente à falência da herança simbólica, ou seja, frente à fragilização daqueles referenciais que podemos utilizar para contar a nossa história (ficcional, diga-se de passagem). O estupro é o assassinato da ficção – é o colapso do imaginário. O grande brother também habita o deserto do real.

— Luciano Mattuella

Por favor, Mr. Cole, manere no tweed.

01/12/2011

(Este texto é inspirado e segue a linha de raciocínio do ensaio publicado pelo amigo e colega Vitor Hugo Triska.)

Uma das melhores brincadeiras de 1º de abril que eu lembro (ou pelos menos uma das mais bem escritas) apareceu no ano passado no site CNET. Fazendo uma alusão ao seriado norte-americano Doctor Who, a página noticiava que um jovem havia sido preso pela polícia suíça ao tentar sabotar o acelerador de partículas LHC – o tal Sr. Cole alegava ter vindo do futuro com a missão de impedir o fim do mundo. Há uma frase na divertida “matéria” que considero o seu ponto alto: “Police said Mr Cole, who was wearing a bow tie and rather too much tweed for his age, would not reveal his country of origin” (Traduzo: “A polícia disse que Sr. Cole, que estava vestindo uma gravata borboleta e um pouco de tweed demais para a sua idade, não queria revelar seu país de origem”).

A psicanálise hoje em dia se assemelha muito ao nosso querido Mr. Cole: uma prática que, por ter esquecido a sua origem – um Herr Freud sempre sintonizado com seu tempo e com as fantasias que sustentavam a Cultura de que era contemporâneo -, acaba usando tweed demais e, por vezes, se tornando um discurso empoeirado e démodé’ (confira-se, por exemplo, http://www.youtube.com/watch?v=TBUFMYythJQ). Acreditando vir do futuro, confessa sua escravidão ao passado.

É preocupante, mas é o estado da arte.

Há um abismo que separa a época de Freud da nossa. Mas estamos em tempos de aprendermos a caminhar sobre abismos. Ser “fiel a Freud”, ou seja, filiar-se à palavra de ensino freudiana é justamente aprender a ser filho de seu (nosso) tempo e pensar a contemporaneidade a partir dela (de nós) mesma (mesmos). Ser herdeiro do saber psicanalítico quer dizer fazer como Freud, claro, mas entendamos: fazer como Freud quer dizer seguir o seu exemplo e permitir-se escutar o que há de recalcado na Cultura contemporânea, e não intervir igual a Freud, calar-se igual a Freud, interpretar igual a Freud. Parece simples, mas há aqueles que confundem.

Um psicanalista hoje em dia deve ser capaz de explicar por quê a Lady Gaga é um role model, por quê Game of Thrones tem que ser a narrativa sobre o triunfo de um bastardo e por quê os zumbis não são figuras de ficção, mas caminham nas ruas todos os dias (e trabalham das 9h-17h).

Um psicanalista hoje em dia deve cuidar pra não usar muito tweed.

— Luciano Mattuella

Os homens nucleares

15/03/2011

Apesar de ter sido filho legítimo do cientificismo, Freud valeu-se da sensibilidade clínica – esta possibilidade de ser surpreendido pela inquietante opacidade particular e singular, e não deixar-se ensurdecer pela transparência apaziguadora do universal e essencial – para colocar em questão os dogmas e as diretrizes de um modo de pensar vigente (à época e, certamente, ainda hoje). Assim, também lançar luzes àquilo que escapa ao senso comum, que faz tensão e sulca brechas no discurso científico, suposto lugar da verdade no contexto social (“É científico, é verdadeiro”). Pergunta-se, em carta enviada a Albert Einstein em 1932:

Mas toda a ciência não termina numa espécie de Mitologia? Parece-lhe diferente na física de hoje?

Ao mesmo tempo em que mantinha o rigor experimental na escrita, levando em conta as opiniões de seus antecessores, valorizando teses antes levantadas, Freud permitiu-se deixar atravessar pelo único da fala de cada um de seus pacientes. Para ele, não havia fórmula para um tratamento analítico: cada novo caso clínico implicava um deslocamento e um questionamento da posição do analista. Ou seja, um conselho que ainda hoje, mais do que nunca, é importante: não há garantias prévias a qualquer tratamento pela Psicanálise. O próprio do sujeito é resistir a toda forma de nomeação e conceitualização.

Esta possibilidade de explicitar a impotência do discurso científico em dar conta da vida, do cotidiano, do sofrimento humano, revela-se, parece-me, como um interessante norte para todo aquele que se debruçar sobre os textos ditos culturais de Freud (artigos como o “Mal-Estar na Cultura” e “O Futuro de uma Ilusão”, por exemplo).

Nestes escritos, vê-se muito bem os paradoxos daquilo que chamamos de técnica – toda a gama de recursos que o homem desenvolveu para dominar a natureza. O mesmo Freud que é entusiasta dos feitos da Racionalidade humana escreve frases como a seguinte, retirada ainda da carta a Einstein:

Há tempos imemoriais ocorre na humanidade o processo de evolução da cultura (…). A ela devemos o melhor daquilo que nos tornamos e uma boa parte daquilo de que sofremos.

Sutil e delicadamente matizada opinião freudiana: o acúmulo de conhecimento, realizado na cena do mundo como progresso técnico (e tecnológico), é ao mesmo tempo cura e origem de sofrimento. Assim, seria próprio da humanidade a construção dos abrigos nos quais refugiasse de suas próprias bombas. A cultura como espaço de criação mas também de destruição, como a filósofa Hannah Arendt escreve em seu belíssimo “Entre o passado e o futuro”:

No momento em que iniciamos processos naturais por conta própria – e a fissão do átomo é precisamente um destes processos naturais efetuados pelo homem – não somente ampliamos nosso poder sobre a natureza (…), mas, pela primeira vez, introduzimos a natureza no mundo humano como tal, obliterando as fronteiras defensivas entre os elementos naturais e o artefato humano nas quais todas as civilizações anteriores se encerravam.

Fico me perguntando qual seria a reação de Freud e de Hannah Arendt ao verem estas mesmas imagens que agora tenho a minha frente em meu computador, imagens de um mundo distante, mas ainda assim tão próximo: vejo um reator nuclear em chamas, prenunciando a invisível e destrutiva potência de um sol nascente.

– Luciano Mattuella


A palavra contra a desilusão

15/09/2010

O escritor americano Philip Roth é, certamente, um dos grandes porta-vozes do mal estar da contemporaneidade. Junto a figuras como J.M. Coetzee, Raymond Carver e Richard Ford, Roth é expoente entre aqueles escritores que detêm o talento único de traduzir em palavras a atmosfera de paranóia, medo e impotência que tomou conta do mundo nas últimas décadas, especialmente após os atentados de 11 de setembro.

O que Philip Roth diagnostica em suas obras – como em American Pastoral, livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1997 – é justamente a sensação de desilusão do homem atual com relação àquilo que o passado é capaz lhe transmitir de experiência para dar conta de suas angústias. Como pode um passado tingido pelo matiz da guerra e da violência servir como referência para uma ação que procure a construção de um futuro que não seja repetição desta violência?

Já em 1933 (ano de nascimento de Philip Roth, aliás), o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamin havia alertado, em seu conhecido artigo Experiência e Pobreza, para este enfraquecimento da relação entre o homem e sua história, para a impossibilidade de o passado ser apreendido como uma herança que lance luzes sobre o presente. Philip Roth leva magistralmente adiante este tese, mostrando como a cultura americana produz ou homens alienados (os ufanistas republicanos, cegos para a decadência da América) ou homens desiludidos, como Nathan Zuckerman, célebre – e talvez um autobiográfico – personagem de diversos livros de Roth.

Zuckerman, aliás, que se alia a David Kepesh – outro personagem típico, central, por exemplo, em The Professor of Desire (1977) – como exemplos de outro dos temas recorrentes em Philip Roth: a senescência, essa inexorável e incessante passagem do tempo. O tempo como uma força devastadora, como Cronos a devorar todos os filhos – um tempo, enfim, que não aponta para uma possibilidade de futuro, para a perpetuação e a transmissão de uma herança, mas tão-somente para o passar da vida e a fragilização do corpo rumo ao silêncio da morte.

Assim, a idéia de desilusão também assume, nas obras de Philip Roth, esta fachada de resignação à insuficiência do tempo vivido: somos todos projetos fadados a nunca nos realizarmos por completo. Afinal, como pode um homem que nada herda legar algo de permanente para aqueles que virão depois dele? Talvez não seja por acaso que vários dos personagens de Roth não tenham filhos: não conseguiram, a bem da verdade, nem mesmo tornarem-se, ele próprios, filhos de sua cultura – uma cultura cuja inocuidade insistem em explicitar, especialmente no campo político, da ação coletiva.

Paradoxalmente, e para a sorte de todos nós, seus leitores, Philip Roth procura justamente na potência da escrita a possibilidade de denunciar as arestas mal-acabadas de um mundo desiludido. A palavra como um último recurso para que nos reste mais do que o mero papel de animais agonizantes.


Eram os deuses… alienígenas?

25/03/2010

É bastante conhecido o livro “Utopia”, escrito por Thomas Morus em 1516. Neste relato, Morus descreve uma sociedade “perfeita”: as pessoas são felizes, vivem todas em casas iguais, têm a vida regrada, relacionam-se em harmonia – como uma partitura que é repetida à perfeição sem cessar, cada nota a seu tempo. Sociedade ideal? Pensemos com mais calma.

Apresentando através de imagens literárias a fantasia fundamental do homem renascentista de que tudo, mesmo o homem, pode ser matematizado – ou seja, de que por detrás da aparência do mundo há uma lógica auto-referente e consistente -, Morus propõe uma sociedade desprovida justamente da dimensão humana. Pois a subjetividade é justamente aquilo que resiste a toda tentativa de formalização: é a distonia, a nota tocada fora do tempo, a engrenagem emperrada na maquinaria da história.

A sociedade perfeita de Morus é um mundo sem humanos, um mundo transformado em máquina.

É interessante que essa mesma lógica renascentista ainda propague seus ecos nos tempos atuais. Se lembrarmos de filmes como “A Ilha” (de Michael Bay) ou “THX 1138” (de George Lucas), entre tantos outros, perceberemos que a fantasia de uma sociedade perfeitamente estéril encontra ainda – talvez mais do que nunca, na verdade – lugar no imaginário popular. O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) afirmava que o fazer científico opera justamente através da repetida foraclusão (exclusão absoluta) do sujeito: ou seja, o discurso da ciência tradicional tem como horizonte uma espécie de entendimento do mundo em si, sem a distorção de visões particulares – em outros termos, visões subjetivas.

Por trás desta questão toda está a noção moderna e tradicional de progresso: a crença de que a história humana tende na direção de um permanente aperfeiçoamento intelectual, o que permitiria – supostamente – uma vida melhor. É uma espécie bastante particular de messianismochegará um dia em que todos os mistérios do mundo terão sido elucidados e todos viveremos em harmonia com nossos desejos e anseios.

Este é o mote de diversos filmes de ficção-científica. Ficção-científica, aliás, que é um terreno fértil para entendermos as fantasias que sustentam o Imaginário Social contemporâneo, uma vez que é um ramo da cultura que costuma trabalhar de modo muito particular a dimensão do futuro. Falar de futuro implica explicitar alguns traços que estão na estrutura não-manifesta do próprio presente.

Apesar de a fantasia renascentista ainda ecoar nos dias de hoje, o lugar do homem no mundo parece estar amplamente despotencializado: se o homem iluminista – o homem da ciência – acreditava-se capaz de diluir a alteridade do mundo ao seu pensamento, o homem contemporâneo tenta ainda elaborar o luto de não ser mais o suporte da existência do universo.

Pensadores como Freud infligiram uma profunda ferida ao homem moderno quando mostraram que a divisão fundamental não está na relação homem/natureza (mundo interno/mundo externo), mas na relação do homem consigo próprio (razão consciente/pulsões inconscientes).

Sendo um pouco ousado, acho que podemos falar de uma melancolização da relação do homem com o mundo. Encontramos também em Freud a afirmação de que a melancolia, ou seja, o desligamento dos investimentos libidinais do “mundo exterior”, é o resultado patológico de um luto não-resolvido. Talvez esta seja uma hipótese para entendermos quais são os mecanismos inconscientes na base de nossa não-responsabilização com relação ao futuro, como no caso da questão ambiental, por exemplo. Ao invés de tomarmos partido e agirmos, assumimos uma posição inibida, à espera de uma entidade maior que resolva a questão por nós.

Mais uma vez é um produto da cultura pop que ilustra meu argumento. Estreia no dia 6 de abril, no Warner Channel, “V” (“Os Visitantes”), remake do seriado de mesmo nome que foi ao ar nos Estados Unidos em 1983. A história da série começa quando 29 gigantescas naves espaciais aparecem no céu de grandes cidades do mundo (o Rio de Janeiro, inclusive). Os alienígenas têm forma humana e afirmam estarem vindo em paz, buscando ajudar os terráqueos a resolverem seus problemas. Logo, postos de saúde com tecnologia avançadíssima são construídos e muitas pessoas portadoras de doenças que antes eram enigmas da medicina são milagrosamente curadas.

A salvação humana vem ao mundo sob a forma ovalada das brilhantes naves alienígenas.

— Luciano Mattuella


O conteúdo da Coca-Cola

01/03/2010

Toda geração constrói para si mesma uma compreensão de mundo que lhe seja suficientemente plausível. Cada época responde às grandes perguntas através da criação de uma versão de mundo que seja consistente de acordo com seus parâmetros. Trata-se, no fim das contas, da aceitação generalizada de um discurso sobre a realidade, um discurso que almeja validação universal – delirante, portanto.

Fazer frente ao corpus teórico de uma época é tarefa árdua, exigindo que aqueles que o tentem sejam obrigados a erguer a voz acima das certezas sedimentadas e naturalizadas. Colocar-se em posição de crítica social implica tornar-se anacrônico, estar fora de seu próprio tempo. Por este motivo, alguns autores que lemos hoje estão tão carregados de algo indócil, algo contudente e, na maior parte das vezes, ácido. É o caso de Freud, por exemplo. Mas também é o caso de Adorno.

Filósofo alemão, Adorno fez parte do movimento conhecido como Escola de Frankfurt, do qual também participaram Marcuse e Horkheimer, para citar alguns. Sua crítica à Razão (em termos rápidos: explicação da realidade somente através de conceitos) é conhecida e, apesar de um tanto extremada – pelos motivos que falei acima -, muito rica.

Adorno fala que justamente no intuito de desmitologizar o mundo, o homem racional acabar por elevar a própria ciência à categoria de mito. Assim, a relação da humanidade com a ciência passa a ser, também ela, um laço de . Curioso paradoxo que nos permite pensar que o homem sempre vai necessitar da existência de um figura externa – um terceiro – que valide suas certezas – seja Deus, seja a Ciência.

Sua feroz crítica à cultura de massas é também muito conhecida. Adorno atribui a proliferação de produtos culturais de massa ao conteúdo narcísico que pode ser entrevisto neles: o povo busca estas manifestações culturais de modo a reafirmar a sua identidade, como se estes produtos devolvessem, reflexivamente, a imagem daquele que deles usufruem. Não há espaço para o novum, trata-se da repetição do mesmo. Pensando por este ponto de vista, faz sentido que a cultura pop tenha se disseminado e adquirido a forma como hoje a conhecemos na período pós-Segunda Guerra. As identidades – nacionais, coletivas, individuais – precisavam buscar uma certa, mesmo que frágil, unidade em algum lugar.

Interessante é que são justamente estas críticas de Adorno que permitem que hoje entendamos melhor a relação dos nossos tempos com a Cultura em que estamos inseridos. Se nos permitirmos ir para-além do hermetismo da crítica cega – “tudo o que é popular é ruim e destituído de valor” -, podemos usar os ensinamentos de Adorno para a criação de um poderoso arcabouço teórico que nos ajuda entender o Imaginário Social contemporâneo.

Bom exemplo disso é a transcrição de “Kulture e Cultura”, palestra proferida em 1959. Trata-se de um texto no qual Adorno explicita as duas concepções de cultura que podemos apreender no mundo: a Kulture européia e a Cultura americana. Um leitor acostumado com Adorno acreditaria que ele faria um elogia à Kultur e uma crítica voraz à Cultura. Não é o caso, e isso é surpreendente.

Em termos simplificados, a cultura européia e a americana – que podemos tranquilamente entender como cultura pop – encontram-se em pontos opostos.

A primeira, dotada de uma seriedade obtusa, é transcendente ao mundo, ou seja, é baseada na genialidade particular e seus produtos são obras “fora-do-mundo”, produtos que beiram à sacralidade (exemplos práticos são Fausto, de Goethe, e a Divina Comédia, de Dante).

Já a segunda – a cultura pop – é imanente à realidade, ou seja, é constitutiva da realidade a ponto de que seus efeitos substituam e tomem o lugar dos próprios efeitos da realidade. Perde-se a fronteira, nesta idéia da cultura americana, do quanto os produtos culturais referem-se à vida social e quanto eles moldam as estruturas desta própria vida. Nos termos de Adorno:

A cultura pode, de fato, referir-se ao modo como o homem lida com a natureza, no sentido de sua dominação; isto é, dominação tanto da natureza externa que se opõe à nós quanto das forças naturais no ser humano mesmo – brevemente: o controle da civilização sobre as urgências humanas e sobre o inconsciente. Pode-se caracterizar tal noção de cultura como aquela cuja substância é a fabricação da realidade.

É uma concepção de cultura muito próxima àquela que Freud apresenta em “O Mal Estar na Cultura”, escrito bons vinte nos antes.

A crítica anti-americana, anti-imperialista, anti-capitalista, enfim, anti-tudo, falha em perceber que a Coca-Cola é mais que a forma sedutora de sua garrafa: é também o seu gaseificado conteúdo. A cultura pop não é apenas um mero apêndice que possa ser retirado do mundo, mas é, sim, a própria estrutura das fantasias, ideais, desejos e anseios de nossa época. Entender a cultura pop, levar a sério seus efeitos e produtos, é buscar entender tudo aquilo que nos molda como alguém no mundo.

Interpretar como “cultura” tão-somente as obras de artes “de espírito”, ou os filmes de intelectualizados, é recair justamente naquilo que o estudioso da alta-cultura teme: nada é mais mainstream no cenário artístico pretensamente erudito do que uma tela de Rafael ou um filme de Bergman.

Se a cultura pop é narcísica e auto-referente, podemos entendê-la do mesmo modo que a sucessão de imagens de um sonho: é preciso escutá-la e, através da interpretação, retirar dali a palavra recalcada que diz da verdade singular de alguém. Ou de uma época.

— Luciano Mattuella


Have you met Ted?

21/02/2010

No meio acadêmico, costuma-se desprezar a cultura pop em sua potência interpretante do Imaginário Social. O “professor” tem que referenciar música clássica, autores tradicionais, pintores renomados. Essa, por falta de nome melhor, elitização da Academia é um mal que cega os pensadores de hoje em dia para o mal-estar de nossa civilização, para os sintomas que posicionam os indivíduos no mundo e estabelecem laços sociais.

Os consultórios particulares também, por sua vez, estão povoados de psicanalistas que não fazem questão alguma de partilhar das referências culturais de seus pacientes. Este fenômeno é sintomático da alienação do terapeuta à teoria, à uma imagem de psicanalista ideal. Escuta-se demais a teoria e de menos o discurso singular dos pacientes.

Estar atento às manifestações culturais é parte essencial do trabalho de qualquer psicanalista. Ignorar isso é correr o risco de empreender junto ao paciente um trabalho pedagógico (no mal sentido da palavra), em que o analisando tem de adequar-se a um ideal social – delirante – do analista, ao invés de escutar a sua verdade pessoal, estruturada na ficção que construiu para si de sua vida.

A ironia é justamente esta: tentar fugir da alienação é, na maior parte das vezes, alienar-se ainda mais.

Não quero entrar em rigores conceituais neste post, mas proponho que aquilo que Adorno chamava de cultura de massa é um material valiosíssimo que tem sido deixado de fora do meio de publicações acadêmicas. O que é uma pena, pois justamente a música que escutamos no carro, os filmes que vemos nos finais de semana, as revistas que nos acompanham no ônibus, é que podem dar testemunho de como nos localizamos no mundo e por onde circulam nossos desejos mais íntimos.

Um bom exemplo para ilustrar esta discussão é o seriado americano How I Met Your Mother, que vai ao ar aqui no Brasil pela emissora HBO, criada por Carter Bays e Craig Thomas, em 2005.

Trata-se de um sitcom – uma “comédia de situações” supostamente leve – que narra a história de cinco jovens em seus encontros e desencontros com a vida: Ted, o personagem central, é um arquiteto recém-formado com uma visão romantizada do mundo; Robin, uma apresentadora de noticiários televisivos (a que ninguém assiste); Lily, uma professora de jardim-de-infância e artista frustrada; Marshall, marido de Lily, advogado em início de carreira que sonha em tornar-se ambientalista (mas trabalha para uma grande corporação); e Barney, um womanizer que tem como lema a frase “Suit up!” – algo como: “Vista seu terno!”.

Um grande diferencial do seriado é sua estrutura narrativa. Os episódios começam, em geral, no ano 2030, quando um Ted mais velho conta para seu casal de filhos adolescentes a história de como, enfim, conheceu a mãe deles. Estamos já na quinta temporada de How I Met Your Mother e a esposa de Ted ainda nem apareceu no seriado. Portanto, a história dos cinco personagens é toda contada em flashbacks entrecortados por comentários – em geral amargurados e irônicos – do “Ted do futuro”.

Se levarmos em conta aquilo que a psicanálise ensina, que todo laço social, ou seja, toda a relação que estabelecemos com nossos pares e com nossos grupos de convivência, se estabelece não por gostos semelhantes, mas pelo compartilhamento de um sintoma em comum – inconsciente, portanto -, podemos dizer que Ted, Robin, Marshall, Lily e Barney estão unidos a partir do momento em que elaboram conjuntamente a ferida narcísica de não terem dado conta de realizarem aquilo que julgavam que deveriam.

Em certo momento, Ted abre mão da carreira de arquiteto para dar aula em uma universidade, o que ele encara como uma derrota pessoal. Marshall tem que contentar-se em ser advogado de uma grande empresa, e não alguém que luta pelo meio-ambiente, como era seu desejo aos 15 anos de idade. Lily chega a participar de uma bolsa de estudos para artistas iniciantes mas percebe que não tem vocação para as artes-plásticas.

HIMYM (sigla pela qual o seriado é conhecido) alterna momentos cômicos geniais com situações de uma tristeza e desolação que só comédias as ótimas conseguem engendrar – como o diálogo abaixo, de um episódio chamado The Leap (“O salto”):

Lily:
– You can’t design your life like a building. It doesn’t work that way. You just have to live and it will design itself.
Ted:
– I should just do nothing?
Lily:
– No. Listen to what the world is telling you to do and… take the leap.

[Lily:
– Você não pode projetar sua vida como um prédio. Não funciona deste jeito. Você tem que viver e tudo vai se projetar por si.
Ted:
– Eu não devo fazer nada?
Lily:
– Não. Escute o que o mundo está dizendo para você e… dê o salto.]

Interessante é que todo a série é justamente estruturada sobre a função do acaso na vida de Ted – e de como ele, frente ao não-sabido, preferiu dar o salto à ficar estagnado. Se tais e tais situação não tivessem fugido do controle, ele não teria conhecido a “mother”. E não poderia estar contando aos seus filhos a história que agora lhes pertence e na qual têm que se inserir e carregar como uma herança.

Um dos grandes trunfos de How I Met Your Mother, uma suposta série boba americana – produto da cultura de massa -, é mostrar como em nossa imaginário popular estamos condicionados a dar conta de um desejo que é, na maioria das vezes, um ideal impossível. E, principalmente, de como é possível fazer resistência a este ideal e, por isso mesmo, construir uma história singular, única, para ser passada adiante através da narrativa.

— Luciano Mattuella


O célebre grande irmão

06/02/2010

Mesmo aqueles que não acompanham o Big Brother Brasil 10 não conseguirem ficar completamente alheios às repercussões da participação da “sister” Tessália, conhecida no meio virtual como a “Twittess”. Foi a primeira vez que os brasileiros assistiram a um BBB com o recurso do Twitter para publicar suas opiniões. Formou-se, rapidamente, um movimento chamado #foratessália, palavra que ocupou por vários dias os trending topics (os assuntos mais comentados pelos usuários do serviço eletrônico) do Twitter no Brasil.

Quando finalmente o povo teve chance de votar contra a permanência de Tessália na casa, foi fulminante. A moça sofreu uma expressiva rejeição do público e saiu do jogo. Em entrevista, alguns dias depois de sua saída, Tessália disse que não se surpreendeu com o movimento #foratessália e até mesmo já esperava por isso, que entendia como algo que faz parte do meio virtual. Parecia estar sendo sincera.

Gerou muita polêmica o fato de Tessália se utilizar de um script no Twitter, um recurso para conseguir mais followers (seguidores de seu perfil virtual – sua timeline) de modo rápido. E ela foi bem-sucedida. Muito bem. Logo, ainda antes da participação no BBB, veio o convite para que Tessália fizesse um ensaio sensual na revista VIP – onde recebeu definitivamente o apelido Twittess (um neologismo que junta as palavras “twitter” e “miss”).

Há algo aí para se pensar, mas, antes eu gostaria de apresentar um segundo fato.

No caderno Kzuka – direcionado, pelo que entendo, ao público adolescente – da Zero Hora de sexta-feira passada, dia 5 de fevereiro, foi perguntado a uma menina de 16 anos quem ela gostaria de ser caso não fosse ela mesma. A resposta: “uma celebridade qualquer”. Reparem na formação da frase: não é “qualquer celebridade”, mas sim “uma celebridade qualquer“.

A pergunta do jornal é muito parecida com aquela que se faz às crianças pequenas: “O que tu queres ser quando crescer?”. É uma questão complexa. A resposta, em geral, explicita muito mais o desejo narcísico do pais do que o real interesse da criança, afinal é no imaginário dos pais que habitam os primeiros ideais com os quais as filhos sentem-se impelidos a se identificar.

Freud já comentava, em 1914, sobre esse futuro antecipado que os pais conjugam para a criança: que ela consiga realizar tudo aquilo que não conseguimos. E este é um investimento saudável, pois lança o sujeito na dialética do desejo próprio. Com o tempo, a criança distancia-se do imaginário dos pais para procurar pelos ideais que estão inscritos na Cultura. Esta passagem do desejo dos pais para o desejo da Cultura ocorre, de praxe, na adolescência, momento em que a pergunta “o que vais ser quando crescer?” é re-atualizada, em geral pelo vestibular – uma espécie de concurso de entrada na vida adulta.

O que tanto Tessália quanto a menina entrevistada pelo Kzuka denunciam de forma tão evidente? O que elas nos dão a ver do Imaginário Social em que estamos inseridos? Adio um pouco a resposta para citar uma pequena passagem do livro “The End of Dissatisfaction?”, de Todd McGowan, sobre o qual falei no post anterior:

“All of the knowledge that the father once embodied and passed on to the son has become useless because (…) success doesn’t require knowledge today. The basis for success has become celebrity, not knowledge.”

[Todo o conhecimento que o pai uma vez encarnava e passava adiante para o filho se tornou inútil porque o sucesso não requer mais conhecimento hoje em dia. A base para o sucesso tornou-se celebridade, não conhecimento.]

Pai, no discurso psicanalítico, é um conceito multifacetado que vai muito além da figura de carne-e-osso do progenitor. No contexto da citação acima, a palavra pai pode ser substituída por tradição, no sentido de um saber acumulado e transmitido de geração em geração (diferente de tradicionalismo, que é a tradição colocada no museu, sem possibilidade de dinamismo).

O que salta aos olhos na frase da menina de 16 anos é que nem importa mais qual celebridade ela admira, ou seja, não há mais uma identificação a um traço de sucesso ou de reconhecimento: o que é almejado é o lugar de celebridade. Ser reconhecida não necessariamente por mérito, mas pela simples existência. É algo bastante sintomático desta sociedade que McGowan apresenta no livro. Sintomático, eu digo, porque traz à luz algo da estrutura, do funcionamento implícito, do contexto social em que vivemos.

E nem se trata mais de uma grande celebridade, mas de uma celebridade qualquer – celebridade passa a ser uma moeda cotada pelo número de amigos no Facebook, no Orkut, de seguidores no Twitter… Não se está mais falando de um ideal impossível de ser atingido, mas de um role model que pode facilmente ser seguido – um ideal, se assim se pode dizer, horizontal. O vizinho mais sortudo.

Assim, tanto a Tessália quanto a garota do Kzuka, cada uma a seu modo, nos permitem entender o que acontece por debaixo do edredon do nosso contexto social.

— Luciano Mattuella


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