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Nós, os cisnes negros?

12/02/2011

É de fato impressionante o quanto se tem escrito, discutido, comentado e publicado sobre O Cisne Negro (Black Swan, 2010), filme do diretor Darren Aronofksy recém-chegado aos cinemas brasileiros (com o atraso habitual, diga-se de passagem). O enredo conta a história de Nina (Natalie Portman) uma jovem e retraída dançarina escolhida para o papel principal da famosa montagem “O Lago dos Cisnes” e a de seu reflexo no espelho, Lily (Mila Kunis), outra dançarina, menos técnica, porém mais desenvolta, mais passional no palco.

Não quero me ater ao desenrolar da trama, até porque vale a pena ver o filme sem muitas informações prévias – quero focar minha atenção mesmo em pensar por quê razão este filme gerou tantos efeitos, tanta discussão. Sempre que alguma produção cultural gera este tipo de movimento, sempre que ela desaloja o público espectador do lugar passivo para convocá-lo à posição de crítico (mesmo que seja na conversa entre amigos), podemos nos perguntar: O que de traumático este produção cultural trouxe à tona? Que ponto de silêncio da Cultura – que dimensão do recalcado, em termos mais técnicos – foi tocada?

Desde Freud, sabemos: nos ocupamos de falar sobre aquilo que nos angustia, aquilo que nos desestabiliza – há uma aposta (acertada) de que o ato de falar sobre algo tranquiliza na medida em que dá contorno, transforma em história, algo que de outra forma seria insuportável. Substitui-se a dor do afeto pela saída criativa de uma história de si.

Neste sentido, minha opinião é a de que O Cisne Negro transpõe para a tela a dinâmica da aquisição do próprio corpo. O que isso quer dizer? Ora, não nascemos donos de nós mesmos, precisamos do auxílio de um outro para que sobrevivamos. É preciso alguém que nos alimente, que nos proteja do frio e do calor, que cuide de nossas necessidade básicas. Quando somos muito pequenos, nosso corpo está – literalmente – nas mãos dos outros.

Se dermos sorte, estes outros (em geral os pais) permitirão que, pouco a pouco, este corpo seja investido de referenciais que vão para-além de seus próprios desejos e seja gradualmente inserido em um “caldo cultural”. Trata-se daquelas famosas frases: “Chutou muito quando estava na barriga, aposto que vai ser jogador de futebol”, ou “Ela anda feito uma princesa… vai ser modelo quando crescer!” – sentenças que guardam dentro de si um desejo de que aquele corpo seja mais do que um conjunto de órgãos, proteínas, etc…, mas que tenha um lugar no ambiente cultural de sua época. Aos poucos, o corpo (a libra de carne, como dizia Freud, remetendo a Shakespeare) vai sendo traduzido em palavras.

Se, além de darmos sorte, ainda por cima formos capazes de nos responsabilizarmos por estas frases proféticas e tomarmos nosso futuro em nossas mãos, nos descolando, por assim dizer, dos desejos de outros, então poderemos nos olhar no espelho (das palavras, claro) e ver nossos pais lá no fundo da cena, mais como sustentação da moldura do que como o reflexo em si. Entender que aquelas frases – carregadas de desejo – que nos davam bordas na infância são um ponto de partida, e não de chegada: eis a virada que a adolescência, na melhor das hipóteses, permite.

É neste ponto, me parece, que algo falha para Nina.

É muito importante (peço que o leitor veja o filme antes de seguir lendo) que nunca ter sido escolhida como a atriz para o papel principal de “O Lago dos Cisnes” é a grande desilusão da vida da sufocante mãe de Nina. De alguma forma, Nina fica presa nessa necessidade de dar conta dos desejos da mãe, de ser a cura para a sua insatisfação. E o faz da forma mais dolorosa possível: ao não ter palavras para falar disso, entrega o próprio corpo. Mais um dos ensinamentos clínicos da psicanálise: aquilo que não conseguimos traduzir em palavras, o corpo – padecendo e sofrendo – denuncia.

Exemplo disso são as suas alucinações: indícios de asas saindo das costas, os dedos dos pés grudados, como os de um pássaro… Nina, pouco a pouco, vai se tornando um cisne. É como se ela respondesse – com o corpo! – ao mandato materna: Torna-te o cisne negro (que eu não pude ser)!

Por isso a importância das cenas sexuais do filme: a masturbação é uma primeira forma, ainda muito primitiva (uma vez que narcisista), de apossar-se do próprio corpo, de descobrir que o próprio toque pode trazer prazer. Quando Nina tenta se masturbar, é a figura da mãe que aparece, em toda sua potência disruptiva e desorientadora, substituindo alguma fantasia erótica que diria de um desejo próprio. Para que alguém se torne dono de seu corpo e possa usá-lo ativamente, é preciso antes separá-lo e diferenciá-lo do corpo de sua mãe. Muitas patologias contemporâneas denunciam o quanto este processo é complicado e psiquicamente trabalhoso.

Em entrevista à revista francesa Les InrocKuptibles, a própria Natalie Portman dá sustentação (sem o vocabulário teórico, naturalmente) a esta minha linha de interpretação. Quando perguntada sobre a importância da cena de sexo com Mila Kunis, responde:

Penso que se trata de uma cena necessária, uma vez que é o primeiro momento em que Nina se deixa levar e dá prazer a si mesma ao invés de dar prazer aos outros. É a sua primeira revolta contra um mundo que a oprime.

Que o sexo tenha se banalizado, é um fato. É definitivamente mais fácil falar hoje sobre sexo com os irmãos-amigos do que na época de Freud. Entretanto, ainda é muito complicado e traumático falar de sua própria sexualidade. O próprio corpo ainda é (e tem como não ser?) excessivamente opaco, excessivamente visível. É fácil falar de sexo quando se está falando do sexo dos outros. Nina explicita isso da forma mais radical em O Cisne Negro: assumir sua sexualidade e dar contornos próprios ao seu corpo implica, necessariamente, a renúncia da instância materna, uma instância ao mesmo tempo consoladora e, eventualmente, devastadora.

Em tempo: outro artigo – muito interessante, abordando desde uma dimensão mais clínica – no blog de meu colega e amigo Vitor Hugo Triska: http://vhtriskaensaios.blogspot.com/.

– Luciano Mattuella


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