Os contornos apagados

16/03/2010

O assassinato do cartunista Glauco Villas Boas tem mobilizado os meios de comunicação e incitado toda espécie de teorização.

Aliás, sempre que acontece algo assim, é curioso como o corpo social se mobiliza na busca de uma suposta “verdade do fato”, uma busca pelo que “realmente aconteceu”. Trata-se de uma busca de justiça, claro, mas aí resta a pergunta: Abstendo-nos de uma espécie de “moral do rebanho” ou bom samaritanismo, por que somos levados a exigir essa justiça? O mesmo aconteceu com o caso Isabela, algum tempo atrás.

Tentando ir um pouco além, seria interessante – ao menos dentro do âmbito a que este blog se propõe – se pensássemos o motivo pelo qual este evento se tornou traumático para a nossa sociedade. Seguindo a linha de raciocínio que venho mantendo através dos posts, poderíamos perguntar: o que ocorre neste evento no mundo que faz com que nos sintamos interpretados por ele? Por que temos a impressão de que, por um breve instante, a reconfortante cortina foi aberta e expôs o obsceno da fantasia nos bastidores?

É um exercício interpretativo o que me proponho fazer aqui, nada mais.

Na verdade, eu gostaria de recortar apenas um traço do caso todo, uma pequena nuance. Sabe-se agora que Carlos Eduardo – suposto assassino – disse ter matado Glauco para “cumprir uma missão”, missão que lhe foi atribuída por Deus. Ora, os psicanalistas com certeza não conseguiram se furtar de lembrar do famoso Presidente Schreber, conhecido caso clínico de Freud sobre a paranóia: Schreber acreditava ter sido escolhido por Deus para iniciar uma nova linhagem de homens na Terra. O próprio Deus fertilizaria Schreber através de feixes nervosos. O caso é bem complexo, mas vale muito a pena ser lido.

Não estou – de forma alguma – diagnosticando Carlos Eduardo. Fazer diagnóstico fora de transferência (fora da contingência da relação analista-analisando) é como julgar um livro pela sua capa: simplesmente não funciona (apesar de alguns profissionais da área psi adorarem capas acetinadas). Fato é que também Schreber julgava ter uma missão na Terra.

Mas o que isso tem a ver com o efeito traumático de que falei? Ora, sabemos que os eventos psicóticos (paranóicos, no caso) fascinam não porque são tão diferentes do que estamos acostumados, mas precisamente porque expõem na cena do mundo algo da ordem da fantasia de todos nós. O bizarro que reconhecemos na psicose é aquele que está domesticado dentro de nós pelo força do recalque (é a operação de recalque que permite a manutenção do contorno que separa o mundo “externo” do “interno”).

Em certa medida, todos acreditamos estar cumprindo uma missão, todos tomamos como referência para nossas escolhas de vida certos ideais – primeiramente ideais familiares, posteriormente, culturais. A pergunta “O que querem de mim?” é central para a estruturação da subjetividade, como pode-se ler no ensaio Introdução ao Narcisismo, publicado em 1914 por Freud. Precisamos do outro para nos constituirmos. Encontramos nosso lugar no mundo, em um primeiro momento, através do futuro que nossos pais projetam para nós. Distanciar-se destes ideais e poder construir seu próprio desejo é um árduo processo (que, na maior parte das vezes, é operado ao final da adolescência).

Entretanto, estes ideais que servem de referencia restam recalcados, em geral, ou seja, têm efeito no mundo através de seus efeitos, não por eles mesmos. É preciso contar a sua própria história várias vezes para se ter uma pálida idéia da missão que se está tentando cumprir.

O que é assustador no caso da morte de Glauco é que a missão de Carlos Eduardo não só estava exposta na cena do mundo como era palpável. E pior: realizável.

— Luciano Mattuella



O conteúdo da Coca-Cola

01/03/2010

Toda geração constrói para si mesma uma compreensão de mundo que lhe seja suficientemente plausível. Cada época responde às grandes perguntas através da criação de uma versão de mundo que seja consistente de acordo com seus parâmetros. Trata-se, no fim das contas, da aceitação generalizada de um discurso sobre a realidade, um discurso que almeja validação universal – delirante, portanto.

Fazer frente ao corpus teórico de uma época é tarefa árdua, exigindo que aqueles que o tentem sejam obrigados a erguer a voz acima das certezas sedimentadas e naturalizadas. Colocar-se em posição de crítica social implica tornar-se anacrônico, estar fora de seu próprio tempo. Por este motivo, alguns autores que lemos hoje estão tão carregados de algo indócil, algo contudente e, na maior parte das vezes, ácido. É o caso de Freud, por exemplo. Mas também é o caso de Adorno.

Filósofo alemão, Adorno fez parte do movimento conhecido como Escola de Frankfurt, do qual também participaram Marcuse e Horkheimer, para citar alguns. Sua crítica à Razão (em termos rápidos: explicação da realidade somente através de conceitos) é conhecida e, apesar de um tanto extremada – pelos motivos que falei acima -, muito rica.

Adorno fala que justamente no intuito de desmitologizar o mundo, o homem racional acabar por elevar a própria ciência à categoria de mito. Assim, a relação da humanidade com a ciência passa a ser, também ela, um laço de . Curioso paradoxo que nos permite pensar que o homem sempre vai necessitar da existência de um figura externa – um terceiro – que valide suas certezas – seja Deus, seja a Ciência.

Sua feroz crítica à cultura de massas é também muito conhecida. Adorno atribui a proliferação de produtos culturais de massa ao conteúdo narcísico que pode ser entrevisto neles: o povo busca estas manifestações culturais de modo a reafirmar a sua identidade, como se estes produtos devolvessem, reflexivamente, a imagem daquele que deles usufruem. Não há espaço para o novum, trata-se da repetição do mesmo. Pensando por este ponto de vista, faz sentido que a cultura pop tenha se disseminado e adquirido a forma como hoje a conhecemos na período pós-Segunda Guerra. As identidades – nacionais, coletivas, individuais – precisavam buscar uma certa, mesmo que frágil, unidade em algum lugar.

Interessante é que são justamente estas críticas de Adorno que permitem que hoje entendamos melhor a relação dos nossos tempos com a Cultura em que estamos inseridos. Se nos permitirmos ir para-além do hermetismo da crítica cega – “tudo o que é popular é ruim e destituído de valor” -, podemos usar os ensinamentos de Adorno para a criação de um poderoso arcabouço teórico que nos ajuda entender o Imaginário Social contemporâneo.

Bom exemplo disso é a transcrição de “Kulture e Cultura”, palestra proferida em 1959. Trata-se de um texto no qual Adorno explicita as duas concepções de cultura que podemos apreender no mundo: a Kulture européia e a Cultura americana. Um leitor acostumado com Adorno acreditaria que ele faria um elogia à Kultur e uma crítica voraz à Cultura. Não é o caso, e isso é surpreendente.

Em termos simplificados, a cultura européia e a americana – que podemos tranquilamente entender como cultura pop – encontram-se em pontos opostos.

A primeira, dotada de uma seriedade obtusa, é transcendente ao mundo, ou seja, é baseada na genialidade particular e seus produtos são obras “fora-do-mundo”, produtos que beiram à sacralidade (exemplos práticos são Fausto, de Goethe, e a Divina Comédia, de Dante).

Já a segunda – a cultura pop – é imanente à realidade, ou seja, é constitutiva da realidade a ponto de que seus efeitos substituam e tomem o lugar dos próprios efeitos da realidade. Perde-se a fronteira, nesta idéia da cultura americana, do quanto os produtos culturais referem-se à vida social e quanto eles moldam as estruturas desta própria vida. Nos termos de Adorno:

A cultura pode, de fato, referir-se ao modo como o homem lida com a natureza, no sentido de sua dominação; isto é, dominação tanto da natureza externa que se opõe à nós quanto das forças naturais no ser humano mesmo – brevemente: o controle da civilização sobre as urgências humanas e sobre o inconsciente. Pode-se caracterizar tal noção de cultura como aquela cuja substância é a fabricação da realidade.

É uma concepção de cultura muito próxima àquela que Freud apresenta em “O Mal Estar na Cultura”, escrito bons vinte nos antes.

A crítica anti-americana, anti-imperialista, anti-capitalista, enfim, anti-tudo, falha em perceber que a Coca-Cola é mais que a forma sedutora de sua garrafa: é também o seu gaseificado conteúdo. A cultura pop não é apenas um mero apêndice que possa ser retirado do mundo, mas é, sim, a própria estrutura das fantasias, ideais, desejos e anseios de nossa época. Entender a cultura pop, levar a sério seus efeitos e produtos, é buscar entender tudo aquilo que nos molda como alguém no mundo.

Interpretar como “cultura” tão-somente as obras de artes “de espírito”, ou os filmes de intelectualizados, é recair justamente naquilo que o estudioso da alta-cultura teme: nada é mais mainstream no cenário artístico pretensamente erudito do que uma tela de Rafael ou um filme de Bergman.

Se a cultura pop é narcísica e auto-referente, podemos entendê-la do mesmo modo que a sucessão de imagens de um sonho: é preciso escutá-la e, através da interpretação, retirar dali a palavra recalcada que diz da verdade singular de alguém. Ou de uma época.

— Luciano Mattuella



Have you met Ted?

21/02/2010

No meio acadêmico, costuma-se desprezar a cultura pop em sua potência interpretante do Imaginário Social. O “professor” tem que referenciar música clássica, autores tradicionais, pintores renomados. Essa, por falta de nome melhor, elitização da Academia é um mal que cega os pensadores de hoje em dia para o mal-estar de nossa civilização, para os sintomas que posicionam os indivíduos no mundo e estabelecem laços sociais.

Os consultórios particulares também, por sua vez, estão povoados de psicanalistas que não fazem questão alguma de partilhar das referências culturais de seus pacientes. Este fenômeno é sintomático da alienação do terapeuta à teoria, à uma imagem de psicanalista ideal. Escuta-se demais a teoria e de menos o discurso singular dos pacientes.

Estar atento às manifestações culturais é parte essencial do trabalho de qualquer psicanalista. Ignorar isso é correr o risco de empreender junto ao paciente um trabalho pedagógico (no mal sentido da palavra), em que o analisando tem de adequar-se a um ideal social – delirante – do analista, ao invés de escutar a sua verdade pessoal, estruturada na ficção que construiu para si de sua vida.

A ironia é justamente esta: tentar fugir da alienação é, na maior parte das vezes, alienar-se ainda mais.

Não quero entrar em rigores conceituais neste post, mas proponho que aquilo que Adorno chamava de cultura de massa é um material valiosíssimo que tem sido deixado de fora do meio de publicações acadêmicas. O que é uma pena, pois justamente a música que escutamos no carro, os filmes que vemos nos finais de semana, as revistas que nos acompanham no ônibus, é que podem dar testemunho de como nos localizamos no mundo e por onde circulam nossos desejos mais íntimos.

Um bom exemplo para ilustrar esta discussão é o seriado americano How I Met Your Mother, que vai ao ar aqui no Brasil pela emissora HBO, criada por Carter Bays e Craig Thomas, em 2005.

Trata-se de um sitcom – uma “comédia de situações” supostamente leve – que narra a história de cinco jovens em seus encontros e desencontros com a vida: Ted, o personagem central, é um arquiteto recém-formado com uma visão romantizada do mundo; Robin, uma apresentadora de noticiários televisivos (a que ninguém assiste); Lily, uma professora de jardim-de-infância e artista frustrada; Marshall, marido de Lily, advogado em início de carreira que sonha em tornar-se ambientalista (mas trabalha para uma grande corporação); e Barney, um womanizer que tem como lema a frase “Suit up!” – algo como: “Vista seu terno!”.

Um grande diferencial do seriado é sua estrutura narrativa. Os episódios começam, em geral, no ano 2030, quando um Ted mais velho conta para seu casal de filhos adolescentes a história de como, enfim, conheceu a mãe deles. Estamos já na quinta temporada de How I Met Your Mother e a esposa de Ted ainda nem apareceu no seriado. Portanto, a história dos cinco personagens é toda contada em flashbacks entrecortados por comentários – em geral amargurados e irônicos – do “Ted do futuro”.

Se levarmos em conta aquilo que a psicanálise ensina, que todo laço social, ou seja, toda a relação que estabelecemos com nossos pares e com nossos grupos de convivência, se estabelece não por gostos semelhantes, mas pelo compartilhamento de um sintoma em comum – inconsciente, portanto -, podemos dizer que Ted, Robin, Marshall, Lily e Barney estão unidos a partir do momento em que elaboram conjuntamente a ferida narcísica de não terem dado conta de realizarem aquilo que julgavam que deveriam.

Em certo momento, Ted abre mão da carreira de arquiteto para dar aula em uma universidade, o que ele encara como uma derrota pessoal. Marshall tem que contentar-se em ser advogado de uma grande empresa, e não alguém que luta pelo meio-ambiente, como era seu desejo aos 15 anos de idade. Lily chega a participar de uma bolsa de estudos para artistas iniciantes mas percebe que não tem vocação para as artes-plásticas.

HIMYM (sigla pela qual o seriado é conhecido) alterna momentos cômicos geniais com situações de uma tristeza e desolação que só comédias as ótimas conseguem engendrar – como o diálogo abaixo, de um episódio chamado The Leap (“O salto”):

Lily:
– You can’t design your life like a building. It doesn’t work that way. You just have to live and it will design itself.
Ted:
– I should just do nothing?
Lily:
– No. Listen to what the world is telling you to do and… take the leap.

[Lily:
– Você não pode projetar sua vida como um prédio. Não funciona deste jeito. Você tem que viver e tudo vai se projetar por si.
Ted:
– Eu não devo fazer nada?
Lily:
– Não. Escute o que o mundo está dizendo para você e… dê o salto.]

Interessante é que todo a série é justamente estruturada sobre a função do acaso na vida de Ted – e de como ele, frente ao não-sabido, preferiu dar o salto à ficar estagnado. Se tais e tais situação não tivessem fugido do controle, ele não teria conhecido a “mother”. E não poderia estar contando aos seus filhos a história que agora lhes pertence e na qual têm que se inserir e carregar como uma herança.

Um dos grandes trunfos de How I Met Your Mother, uma suposta série boba americana – produto da cultura de massa -, é mostrar como em nossa imaginário popular estamos condicionados a dar conta de um desejo que é, na maioria das vezes, um ideal impossível. E, principalmente, de como é possível fazer resistência a este ideal e, por isso mesmo, construir uma história singular, única, para ser passada adiante através da narrativa.

— Luciano Mattuella



O célebre grande irmão

06/02/2010

Mesmo aqueles que não acompanham o Big Brother Brasil 10 não conseguirem ficar completamente alheios às repercussões da participação da “sister” Tessália, conhecida no meio virtual como a “Twittess”. Foi a primeira vez que os brasileiros assistiram a um BBB com o recurso do Twitter para publicar suas opiniões. Formou-se, rapidamente, um movimento chamado #foratessália, palavra que ocupou por vários dias os trending topics (os assuntos mais comentados pelos usuários do serviço eletrônico) do Twitter no Brasil.

Quando finalmente o povo teve chance de votar contra a permanência de Tessália na casa, foi fulminante. A moça sofreu uma expressiva rejeição do público e saiu do jogo. Em entrevista, alguns dias depois de sua saída, Tessália disse que não se surpreendeu com o movimento #foratessália e até mesmo já esperava por isso, que entendia como algo que faz parte do meio virtual. Parecia estar sendo sincera.

Gerou muita polêmica o fato de Tessália se utilizar de um script no Twitter, um recurso para conseguir mais followers (seguidores de seu perfil virtual – sua timeline) de modo rápido. E ela foi bem-sucedida. Muito bem. Logo, ainda antes da participação no BBB, veio o convite para que Tessália fizesse um ensaio sensual na revista VIP – onde recebeu definitivamente o apelido Twittess (um neologismo que junta as palavras “twitter” e “miss”).

Há algo aí para se pensar, mas, antes eu gostaria de apresentar um segundo fato.

No caderno Kzuka – direcionado, pelo que entendo, ao público adolescente – da Zero Hora de sexta-feira passada, dia 5 de fevereiro, foi perguntado a uma menina de 16 anos quem ela gostaria de ser caso não fosse ela mesma. A resposta: “uma celebridade qualquer”. Reparem na formação da frase: não é “qualquer celebridade”, mas sim “uma celebridade qualquer“.

A pergunta do jornal é muito parecida com aquela que se faz às crianças pequenas: “O que tu queres ser quando crescer?”. É uma questão complexa. A resposta, em geral, explicita muito mais o desejo narcísico do pais do que o real interesse da criança, afinal é no imaginário dos pais que habitam os primeiros ideais com os quais as filhos sentem-se impelidos a se identificar.

Freud já comentava, em 1914, sobre esse futuro antecipado que os pais conjugam para a criança: que ela consiga realizar tudo aquilo que não conseguimos. E este é um investimento saudável, pois lança o sujeito na dialética do desejo próprio. Com o tempo, a criança distancia-se do imaginário dos pais para procurar pelos ideais que estão inscritos na Cultura. Esta passagem do desejo dos pais para o desejo da Cultura ocorre, de praxe, na adolescência, momento em que a pergunta “o que vais ser quando crescer?” é re-atualizada, em geral pelo vestibular – uma espécie de concurso de entrada na vida adulta.

O que tanto Tessália quanto a menina entrevistada pelo Kzuka denunciam de forma tão evidente? O que elas nos dão a ver do Imaginário Social em que estamos inseridos? Adio um pouco a resposta para citar uma pequena passagem do livro “The End of Dissatisfaction?”, de Todd McGowan, sobre o qual falei no post anterior:

“All of the knowledge that the father once embodied and passed on to the son has become useless because (…) success doesn’t require knowledge today. The basis for success has become celebrity, not knowledge.”

[Todo o conhecimento que o pai uma vez encarnava e passava adiante para o filho se tornou inútil porque o sucesso não requer mais conhecimento hoje em dia. A base para o sucesso tornou-se celebridade, não conhecimento.]

Pai, no discurso psicanalítico, é um conceito multifacetado que vai muito além da figura de carne-e-osso do progenitor. No contexto da citação acima, a palavra pai pode ser substituída por tradição, no sentido de um saber acumulado e transmitido de geração em geração (diferente de tradicionalismo, que é a tradição colocada no museu, sem possibilidade de dinamismo).

O que salta aos olhos na frase da menina de 16 anos é que nem importa mais qual celebridade ela admira, ou seja, não há mais uma identificação a um traço de sucesso ou de reconhecimento: o que é almejado é o lugar de celebridade. Ser reconhecida não necessariamente por mérito, mas pela simples existência. É algo bastante sintomático desta sociedade que McGowan apresenta no livro. Sintomático, eu digo, porque traz à luz algo da estrutura, do funcionamento implícito, do contexto social em que vivemos.

E nem se trata mais de uma grande celebridade, mas de uma celebridade qualquer – celebridade passa a ser uma moeda cotada pelo número de amigos no Facebook, no Orkut, de seguidores no Twitter… Não se está mais falando de um ideal impossível de ser atingido, mas de um role model que pode facilmente ser seguido – um ideal, se assim se pode dizer, horizontal. O vizinho mais sortudo.

Assim, tanto a Tessália quanto a garota do Kzuka, cada uma a seu modo, nos permitem entender o que acontece por debaixo do edredon do nosso contexto social.

— Luciano Mattuella



A grama do vizinho e um golpe de sorte

31/01/2010

Descobri, recentemente, o trabalho de Todd McGowan, professor na Universidade de Vermont. Seguindo uma linha de pensamento muito semelhante à do filósofo Slavoj Zizek, McGowan procura entender os bastidores da sociedade contemporânea através do estudos de fenômenos culturais – seu forte é a análise crítica de filmes.

Em seu impressionante livro “The End of Dissatisfaction? – Jacques Lacan and the Emerging Society of Enjoyment“, McGowan centra a atenção em uma mudança estrutural radical ocorrida nas últimas décadas: a passagem de uma sociedade da proibição (prohibition society) para uma sociedade do imperativo do gozo (society of command of the enjoyment). A discussão aberta pelo autor é muito longa e repleta de nuances importantes, mas a tese central é a de que se passou de um contexto social em que o gozo era proibido – abdicava-se do gozo pessoal em prol da manutenção de uma suposta estrutura social – para outro em que se é “obrigado” a gozar – importa o quanto cada um consegue se adequar a um ideal social de felicidade.

A questão agora é uma demanda de que sejamos felizes. O complicado, ainda seguindo a linha de raciocínio do autor, é que não temos referências que nos ajudem a entender o que é isso, ser feliz. Trata-se de uma ordem vazia de conteúdo, uma espécie de voz sem significado. Este problema não é novo: em seu artigo “O Mal-Estar na Civilização”, Freud já dizia que o homem é capaz de abrir mão de diversas coisas em troca de uma ilusão de felicidade. Especialmente daquilo que lhe é essencial: sua subjetividade (sua capacidade de resistência a um discurso hegemônico).

A série de televisão Mad Men, da rede HBO, – sobre a qual pretendo escrever com mais calma em breve – mostra claramente esta transição de que fala McGowan: aos publicitários (os homens da Madison Av.) não cabe mais demonstrar a utilidade e a praticidade de um produto: é necessário vender uma imagem. Já no primeiro episódio isto é evidente: quando a revista Reader’s Digest publica um artigo mostrando os malefícios do cigarro, a agência Sterling-Cooper, que trabalha com a conta Lucky Strike, opta por uma estratégia hoje em dia óbvia: não vendamos o produto, mas vendamos a imagem de alguém que corre riscos, que vive a vida no limite. Problema resolvido: o cigarro faz mal? Sim. Mas fumar mostra o quanto o consumidor é alguém que vive plenamente a vida. Em outras palavras: que goza a vida até o fim.

É este o fenômeno que explica, em parte, o sucesso de marcas como a Apple: ao comprar um iPod, não se está comprando apenas um tocador de músicas, mas sim toda uma imagem de uma pessoa “descolada”, atualizada e minimalista. Os comerciais da Apple batem muito forte nesta tecla da identificação com a marca: I’m a mac é o slogan utilizado. Sou um mac. Identifico-me à uma imagem de felicidade.

Percebe-se que o pano de fundo é uma questão de filiação, mas uma filiação não mais regulada através da presença de um pai em comum, mas sim através da semelhança com os irmãos. Os adesivos que vêm junto com os produtos da Apple marcam isso de modo muito forte: quando coloco no meu carro uma maçãzinha branca, estou mostrando para o mundo algo da minha (suposta) identidade.

Acredito que a importante sutileza nessa questão toda é saber interpretar estes fenômenos sem cair na armadilha do julgamento moral superficial. Discordo dos autores que têm um ponto de vista pessimista com relação ao mundo de hoje. Acho mais produtivo procurar entender as engrenagens por detrás do discurso vigente para, desta forma, poder sustentar um crítica – se é que ela é cabível – coerente.

Mas, de volta ao livro de McGowan. O que caracteriza, para o autor, o discurso social contemporâneo é este imperativo do gozo pleno, gozo total, um gozo que só pode ser atingido em nível fantasístico, uma vez que não há objeto no mundo que possa ser comprado/adquirido/incorporado de modo a satisfazer plenamente o homem. Este é grande paradoxo dos nossos tempos: é exigido que aproveitemos ao máximo a vida, mas a vida ela mesma não se entrega por completo. McGowan escreve isso de modo bem claro:

The fundamental thing to recognize about the society of enjoyment is that in it the pursuit of enjoyment has misfired: the society of enjoyment has not provided the enjoyment that it promises.

[O fundamental que temos que reconhecer sobre a sociedade do gozo é que nela a busca pelo gozo falhou: a sociedade do gozo não ofereceu o gozo que ela prometeu.]

O que de modo algum nos impede de tentarmos encontrar este gozo prometido. Aliás, provoca-nos ainda mais.

Consequência disso é que o reino da fantasia – das imagens -, que antes ocupava o lugar de “imagina se…”, agora aparece na própria cena do mundo, encarnado em role models, sejam eles celebridades ou mesmo o vizinho (cuja grama é mais verde). Perde-se a referência em um ideal construído de geração em geração, que opera pela via da transmissão de um saber que pode ser herdado. Um ideal que antes se encontrava numa linha vertical – da ancestralidade – agora coabita o nosso mundo, pode ser a pessoa ao lado.

Minha relação com o ideal agora não é uma remissão a uma ausência, mas, sim, ao ideal encarnado, a uma presença sufocante. As imagens de felicidade estão por todos os lados, fazendo parecer que é fácil ser feliz, seja isso o que for. O que faz com que um traço marcante da sociedade contemporânea seja um vida vivida sempre no presente: é preciso desfrutar ao máximo o momento, viver intensamente o agora. Aliás, este “conselho” (viva o momento em sua intensidade máxima) é chavão em literatura de auto-ajuda – o complicado, e sabe-se que o efeito depressivo dos livros de auto-ajuda pode ser devastador, é que este imperativo do gozo completo coloca o sujeito em uma situação impossível. Não há como viver tudo, ao máximo, em sua plenitude.

E é aqui que a leitura de McGowan me fez mais sentido, pois me ajuda a sustentar a minha tese de que o imaginário contemporâneo não consegue sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se o imperativo do gozo aponta sempre para o agora, sempre para o presente, é impossível um distanciamento suficiente do mundo – enquanto se está ensandecido atrás do gozo, não se consegue fazer pausas para pensar – que permita ser possível a construção de uma fantasia do porvir.

No final das contas, pode tudo estar condicionado a um golpe de sorte.

— Luciano Mattuella



"Everything in its right place"

23/01/2010

No último encontro de nosso grupo de estudos sobre Subjetividade Contemporânea discutimos os primeiros parágrafos do excelente Experiência e Pobreza, de Walter Benjamin. Uma das frases que causou mais discussão foi a seguinte: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”. Já citei esta passagem no post anterior, mas gostaria de revisitá-la, agora desde um outro ponto de vista.

Se observarmos atentamente, neste texto Benjamin se coloca a mesma questão que preocupou Freud em 1920, no artigo Para Além do Princípio do Prazer: como podemos explicar que os sobreviventes da Primeira Guerra tenham voltado dos campos de batalha mais pobres em experiências, não mais ricos? O lógico seria que, após um evento de tamanha intensidade emocional, aqueles combatentes voltassem para suas famílias repletos de histórias para contar, de lições para transmitir às futuras gerações. Não foi o que aconteceu. Fecharam-se em um profundo silêncio, resignados a reviver em seus sonhos uma e outra vez o evento traumático da morte de um amigo, uma amputação, o odor da fumaça das granadas.

Experiência, para Benjamin, é o estatuto ao qual um fato – uma vivência – pode ser elevado quando narrado desde a posição subjetiva singular e intransferível daquele que o presenciou. Ou seja, a função narrador é aquela através da qual a rugosidade do mundo adquire características de uma história a ser contada. O ouvinte deixa de ser inocente quando escuta uma história, torna-se testemunha de algo, ou seja, sua presença enquanto depositário de uma enunciação o responsabiliza pelo narrado (aliás, diga-se de passagem, posição típica do psicanalista).

Freud diagnostica os tempos pós-Primeira Guerra como tingidos por um sentimento ao qual ele dá o nome de desilusão. Dentro deste contexto, desilusão significa a impossibilidade de a humanidade, dada a crueza e o sem-sentido das atrocidades dos campos de batalha, fazer uma aposta no futuro, ou seja, sustentar uma fantasia de futuro. Em outros termos, para Freud, a Primeira Guerra teve como principal vítima a própria dimensão de futuro. Tornou-se impossível dar consistência à uma idéia de futuro.

Não seria disso que Benjamin estaria falando? Ora, um dos motivos para não poder sustentar uma fantasia viável de futuro é a impossibilidade de resgatar do passado aquela palavra de transmissão que está em jogo em todo ato narrativo. Quando a história dos antepassados se torna um mero jogo causal, perde-se a sua potência simbólica de sustentação de um lugar no mundo. Ocorre o que Benjamin chama de desvinculação do presente com relação ao patrimônio cultural.

E, frente a este vazio de referência, acaba-se caindo em uma das duas piores alternativas: ou nos vinculamos cegamente a um passado que não nos pertence e realizamos inconscientemente o desejo de outros (nos colocamos como meros coadjuvantes), ou nos distanciamos de tal modo de nossa história que nos tornamos caricaturas de nós mesmos (tão somente figurantes de um roteiro escrito por outro).

Muitos filmes de ficção-científica exploram estes cenários de aridez subjetiva absoluta, como, por exemplo, a primeira incursão no cinema de George Lucas, o surpreendente file THX 1138, de 1971, ou mesmo o mais recente The Island, de 2005 – para citar apenas dois de inúmeros. Nestes filmes, a sociedade desenvolveu-se de tal modo que o paradigma da pureza e da limpeza rege absolutamente a vida cotidiana, ao preço da perda da subjetividade e da singularidade (primeiras vítimas em qualquer regime totalitário). Tudo em seu respectivo lugar. Everything in its right place, como na música da banda Radiohead.

O que se perde, numa sociedade desiludida – uma sociedade mecanizada e burocratizada-, é a possibilidade da remissão a uma estilo, ou seja, a capacidade de responsabilizar-se pela experiência dos antepassados de forma a, de modo singular, poder inserir-se nesta história e transmitir adiante algo que tenha valor simbólico.

— Luciano Mattuella



Elementar, meu caro… Veríssimo?

19/01/2010

Em sua coluna do dia 14 de janeiro, Luis Fernando Veríssimo se mostra incomodado pela escolha de Robert Downey Jr. para viver o detetive Sherlock Holmes nos cinemas, afirmando que se trataria de um caso de miscastingescolha errada de ator para um papel. A sua opinião gerou algumas respostas e críticas, como esta do jornal CineSemana. Entretanto, no próprio texto Veríssimo afirma não ter visto o filme ainda, marcando ainda mais o tom meramente humorístico e provocativo da coluna.

Interessante que este termo – miscasting – me remeteu, por um motivo ao qual só agora tenho acesso, a um livro da psicanalista Maria Rita Kehl intitulado O tempo e o cão. Nesta obra, Kehl faz uma análise aprofundada do mal-estar contemporâneo, situando o lugar da depressão nos dias de hoje. Não se trata da depressão como o distúrbio clínico psiquiátrico, caracterizado por apatia, falta de apetite, distúrbios de sono, etc., mas sim da depressão como condição mesma da subjetividade contemporânea. O depressivo é aquele que não consegue atribuir sentido ao mundo, que tem a sensação de que nada lhe diz respeito, que não está implicado em nenhum dos discursos atuais, em nenhuma das narrativas que atribuem um lugar social para alguém. É um fora-do-mundo, por assim dizer. Um outcast.

É conhecida a afirmação de que, no mundo de hoje, os ideais vieram terra abaixo. Cada discurso social gera um Imaginário que dá consistência para o mundo, que tinge a realidade com os matizes dos anseios e fantasias herdados do passado e re-significados no contexto presente. Os ideais sendo, portanto, aquelas figuras que dariam conta de responder às demandas de uma época e que serviriam de referência. A questão que se coloca, entretanto – e também por isso alguns autores falam do fim da história – é que a contemporaneidade carece de um discurso, de uma narrativa organizadora.

Para Maria Rita Kehl, a depressão é um sintoma social, ou seja, uma espécie de enfermidade que denuncia, à sua maneira, algo da ordem inconsciente que opera na cena do mundo. O sintoma, em psicanálise, ocupa o lugar do mensageiro que é morto em lugar do remetente: é um ponto de não-saber (“não sei porque faço/sinto sempre isso!”) que aponta para um mecanismo inconsciente que ultrapassa a racionalização. Logo, a sensação de não pertencer ao mundo, de não ter lugar no mundo – sentimento de estar exilado em sua própria pátria -, típica do discurso do depressivo, diz de uma fragilização da própria tessitura do Imaginário Social contemporâneo. Todos nós, portanto, estamos minimamente identificados à figura do depressivo.

E aqui reencontramos Luis Fernando Veríssimo: o miscasting, ter sido uma péssima escolha para um papel que lhe foi atribuído, é a própria marca do depressivo. É a sensação de que só os outros desempenham muito bem suas partes, seguem tranquilamente um roteiro, improvisam ali onde é necessário, fazem parte de um grande enredo. Entretanto, Maria Rita Kehl parece avisar que devemos nos perguntar, atentos às demandas dos depressivos, se há ainda um roteiro que nos sirva de referência.

Acredito que esta questão está na base de minha hipótese de que a discurso social contemporâneo não é capaz de sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se não podemos olhar para trás e nos apropriar de nossa história – e dos nosso antepassados -, não poderemos nos colocar no lugar daqueles que transmitem algo às futuras gerações. Ou, como se interroga Walter Benjamin, no artigo Experiência e Pobreza: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”

— Luciano Mattuella



"Agora o oceano é de plástico"

18/01/2010

A frase que dá título a este post foi dita a Kitt Doucette – da revista Rolling Stone – pelo comandante da embarcação de pesquisa Alguita, Charles Moore. A tradução na íntegra desta matéria está na edição de janeiro da Rolling Stone brasileira e é parte de um breve dossiê cuja chamada na capa é: “Aquecimento Global – O Fim do Mundo Está Próximo?

A revista americana Wired também tem tratado deste tema com bastante frequência e de forma muito competente, como é o caso deste dossiê, disponibilizado online em seu site.

Voltando à matéria da RS, entretanto.

“Não importa onde você está, não tem como superar, não tem como escapar. Agora o oceano é de plástico.” Esta é a frase completa dita por Moore, com toda a urgência e a desilusão esperadas de quem, vagando pelos mares, encontrou por acaso a maior ilha de dejetos plásticos do mundo, localizada no Oceano Pacífico, chamada Grande Mancha de Lixo no Pacífico – “um vórtice giratório de uma sopa de plástico, um pântano imenso e fétido de dejetos em que pedacinhos minúsculos de plástico podre se sobrepõe ao zooplâncton (…) na proporção de seus para um”.

Em ainda outra matéria deste dossiê, Steven Chu, atual secretário de Energia dos Estados Unidos, diz, referindo-se às consequências do aquecimento global: “Acho que o povo americano ainda não se deu conta do que pode acontecer.”

O diagnóstico é certeiro.

Como explicitei no post anterior – e aqui eu gostaria de seguir aquela linha de raciocínio – o povo (não só americano) “não se deu conta” justamente porque não consegue sustentar uma fantasia de futuro autêntico para si. E esta impossibilidade gera uma consequência que opera diretamente na cena do mundo: ao não poder supor imaginariamente um futuro (a não ser um mundo sem humanos) para as próximas gerações, a humanidade não consegue tomar as rédeas da situação presente, minimizando a urgência da situação ou, ainda, menosprezando o papel que o homem tem no ambiente.

São muitas as discussões em torno da responsabilidade do ser humano no surgimento daquele efeito que conhecemos por aquecimento global. Ótimas teses são defendidas pró-intervenção humana e também excelentes opiniões são emitidas na direção oposta. Mas, parece-me, esta discussão serve como aquela imagem bem construída de “preocupação intelectual” que serve de fachada e encobre o que realmente está em questão: sendo ou não responsabilidade do homem a causa do aquecimento global, o problema existe e deve ser enfrentado. É necessário responsabilizar-se justamente por aquilo que não parece nos implicar na posição de culpados.

Procuro assumir uma posição atenuada por um distanciamento teórico. Esta ponto de vista me impede de dizer que somos culpados por algo, ainda mais no que tange a culpar alguém pela não possibilidade de construção de uma fantasia. Prefiro entender que ações cotidianas como separar lixo orgânico de lixo seco, abastecer o carro com etanol (ou não usar o carro!), utilizar de embalagens biodegradáveis, ainda não entraram para a rotina da maior parte da população porque a preocupação com o futuro não encontra anteparo fantasístico no imaginário social contemporâneo. Poderíamos arriscar, inclusive, a dizer que o descaso com o meio-ambiente pode ser entendido, uma vez que se trata de uma ação que ultrapassa a intenção, como uma espécie de sintoma social. Sintoma ao qual estamos todos, uma vez que todos somos filhos de nosso tempo, mais ou menos alienados.

E, como a psicanálise nos ensina há mais de 100 anos, o modo mais eficaz de abastar um sintoma, de esvaziá-lo de seu conteúdo nocivo, é que se fale repetidamente sobre ele. Mas que se fale no idioma que faz função na estrutura simbólica do mundo. Por isso não sou contra aproximações entre ecologia e moda (produtos ecofashion, por exemplo) ou campanhas publicitárias que atribuam uma qualidade cool àqueles que se preocupam com o ambiente. Há que se entrar na lógica para poder movimentar os alicerces.

No site da RS ainda podemos encontrar uma matéria cobrindo o tão falado – e tão decepcionante – COP15, a conferência da ONU que tinha como intuito repensar seriamente o aquecimento global e as alternativas que os governos poderiam lançar mão para lidar com ele.

Um dos comentários da revista sobre o evento é o seguinte (o grifo é meu):

É claro que ninguém quer trazer para a vida real o apocalipse que Hollywood alardeia há anos, em produções como O Dia Depois de Amanhã e o mais recente 2012. Mas a questão político-econômica pesa. Países desenvolvidos (principalmente os EUA) não queriam arcar com todas as despesas, nem brecar sua indústria. Países em desenvolvimento reclamaram por terem entrado na festa do desenvolvimento mais tarde. Para não passar a impressão de “conversa para boi dormir”, o acordo precisava ser aprovado por todos – norma da ONU para torná-lo legal. Venezuela e Cuba eram alguns dos opositores mais barulhentos.

Acredito que deveríamos nos ocupar das questão ambientais do mesmo modo que Freud aconselhava seus pacientes a tomarem conta de seus atos falhos, sonhos e sintomas: mesmo sentindo que eles vinham “de fora”, que não lhes pertenciam, devia-se tomá-los como se fossem seus e procurar dar sentido a eles levando em conta a sua história pessoal. Àqueles que não se dispunham a deixar rachar minimamente a sua carapaça narcísica e perceberem-se como autores de seus atos, Freud chamava de covardes morais.

Somos antropocêntricos para tudo, exceto para assumir responsabilidades.

— Luciano Mattuella



Um mundo sem humanos

17/01/2010

No caderno Cultura da Zero Hora de 16 de janeiro há uma interessante entrevista realizada por Ed Pilkington – jornalista do The Guardian – com o historiador inglês Tony Judt, intelectual acometido de Esclerose Lateral Amiotrófica, um mal que rapidamente evoluiu e lhe privou do movimento dos membros, além de lhe dificultar a respiração. Pois é desde este cenário de doença e mal-estar que Judt comenta, em tom entristecido:

Esta é a segunda geração de pessoas que não conseguem imaginar mudanças a não ser em suas próprias vidas, que não têm nenhuma noção de bens ou serviços públicos coletivos, que são apenas indivíduos isolados esforçando-se desesperadamente para melhorar a si próprios acima de todos os demais.

Acredito que o ponto de vista de Judt seja um tanto extremado, como costumam ser as posições de toda uma geração – a dele – que carrega consigo este sentimento de ter sido traída: prometeram-nos um mundo de prazeres e libertação (refiro-me aqui aos eventos dos anos 60) e nos deram apenas esta miséria de mundo. Foi uma geração que supôs que, após um período tão conturbado, merecia algo melhor. Que o Destino lhe devia algo. Uma geração que julgou ter percebido a tempo a artificialidade dos construtos sociais da década de 50: as famílias bem organizadas, os filhos, todos eles, possíveis futuros presidentes, a economia aparentemente estável, o american way of life, as cercas brancas na frente das casas, circundando os verdes gramados.

O que essa geração não tinha como saber, entretanto, é que as cercas brancas metaforizavam o arame-farpado das trincheiras.

Mas, apesar desta minha ressalva, acredito que a afirmação de Judt é, sim, válida. O historiador apenas “erra a mira”, se podemos dizer assim: ele diagnostica como se fosse um mal na realidade do mundo algo que, na verdade, faz adoecer a outra cena, como diria Freud, o mundo fantasmático que sustenta esta realidade (nos posts anteriores já falei algo sobre este arcabouço imagético, sobre este imaginário social). Naturalmente que esse padecimento do Imaginário Social tem seus efeitos na concretude do mundo; aliás, só é possível nos aproximarmos dele através de evento no mundo que sejam consequência de sua operação. Seria ingênuo pensar o contrário.

Mas qual seria este padecimento do Imaginário Social? Ora, creio que esta impossibilidade que Judt aponta, esta dificuldade em pensar um “mundo melhor” (por falta de outra expressão) que se ocupasse das preocupações do coletivo, que levasse em conta, enfim, a suposição de que outras gerações virão depois desta, é apenas um de inúmeros traços da civilização atual que nos permitem levantar a seguinte tese: a sociedade contemporânea não consegue sustentar uma fantasia de um futuro autêntico. E, consequência factual disto, age como se não fosse existir um mundo amanhã. Basta ver a (falta) de preocupação com a questão ambiental – a injunção “que mundo deixará para teus filhos?” não opera efetivamente porque não encontra eco no Imaginário Social para validá-la.

Este mote, aliás (sendo ainda fiel ao método a que me propus no primeiro post deste blog), está presente e antecipado em diversos filmes de razoável sucesso como I Am Legend (2007), de Francis Lawrence e o fantástico Children of Men (2006), de Alfonso Cuarón, ao qual pretendo dedicar mais minha atenção em breve. Em ambos, o que podemos perceber é a inevitabilidade de um mundo sem humanos, ou seja, um mundo reduzido à sua mecanicidade natural de ciclos e estações. Uma realidade em que a humanidade não foi exterminada por um agente externo como um fenômeno da natureza, mas sim na qual o homem foi, por suas próprias incapacidades e impossibilidades, pavimentando para si um lento processo de extinção da subjetividade.

Mais ou menos aquilo que a sociedade americana dos anos 50 tentou mimetizar.

— Luciano Mattuella



Nós e nossos frágeis fundamentos

16/01/2010

No post anterior fiz a proposta de um método para a interpretação da cultura. Uma proposta que é, antes, a proposição de uma tese: um evento se torna traumático na medida em que encontra ressonância em fantasias previamente constituídas. O pano de fundo para esta tese é a suposição – aceita como um dos pilares da psicanálise – de que substituímos o mundo em sua concretude por uma cenário particular de imagens e conceitos. O único acesso que temos ao que chamamos de realidade se dá, em última instância, através das fantasias que fazemos desta realidade. Este mecanismo é a tal ponto eficaz que podemos dizer que a própria realidade se estrutura como uma ficção.

Este substituição do mundo por uma versão, tão evidente nas sessões particulares de pessoas que buscam atendimento psicanalítico, também se constitui em nível mais amplo, na malha social. Cada época produz um imaginário que a sustenta, uma rede de referências simbólicas e imaginárias que estabelece lugares de valor, ideais e desejos. A questão é que este arcabouço fantasístico nem sempre é facilmente apreendido – por vezes (como na escuta de um paciente) é necessário um certo distanciamento para que se possa perceber a estrutura dos bastidores.

Um dos espaços privilegiados para a percepção de como uma época se sustenta fantasisticamente é aquele da produção de obras culturais como cinema, literatura, artes plásticas, blogs… O ato criativo se caracteriza justamente por isto, pela capacidade de dar forma a algo que resta como um não-dito social. Como mesmo o artista Marcel Duchamp já dizia, todo ato que se julgue criador traz, em sua própria realização, um hiato entre a intenção e a concretização – falta um elo na corrente, não se pode resumir a obra às intenções do seu autor. Este elo faltante é justamente, acredito, o ponto em que o não-dito da Cultura (com letra maíscula, para definir o corpus de fantasias de uma época) encontra vazão através de uma obra. E inteirar-se deste não-sabido é angustiante, é perturbador.

Assim, retomando a questão acerca dos eventos traumáticos, podemos dizer que qualquer evento que aconteça no mundo e que nomeie – explicite – este elo faltante na corrente pode ser entendido como um trauma. Acredito que é isto que esteja acontecendo agora com relação ao modo como o mundo todo trata do terrível terremoto que assolou o Haiti há poucos dias. Explico.

Se pararmos para pensar, um dos temas mais comuns nos filmes blockbuster das duas últimas décadas foi aquele que é conhecido no meio do cinema como cenário pós-apocalíptico. É o cenário que podemos encontrar em vários dos chamados filmes-catástrofe como Impacto Profundo, O Dia Depois de Amanhã, Armageddon e, mais recentemente, 2012. A natureza, em sua sublime magnitude, voltando-se contra o homem e destruindo suas obras. Se em uma primeira leitura o assustador do terremoto no Haiti pareça ser a magnitude sem precedência do acontecimento, quando olhamos com mais calma para as produções culturais de nossa época percebemos que aterrador mesmo é vermos se concretizando na cena do mundo aquilo que só suportávamos enquanto ficasse apenas no registro imaginário e fantasístico.

Ao explicitar no mundo algo que deveria ter restado como fantasia, o terremoto no Haiti levantou por alguns segundo o véu que torna possível nossa relação com a excessivamente ofuscante luz do sem-sentido fundamental da realidade.

— Luciano Mattuella



%d blogueiros gostam disto: