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Facebook e o imperativo da indignação

03/02/2012

Sou um otimista com relação às novas tecnologias e às redes sociais. Acredito que aqueles que procuram saber se o Twitter e o Facebook afastam ou aproximam as pessoas estão cometendo um engano: não é mais esta a questão (se é que em algum momento foi) – os próprios referenciais de distância de antes não valem nos dias de hoje. A geração analógica media distância em metros; a geração digital mede em cliques.

Há um abismo talvez intransponível separando estas duas gerações. Este é o único motivo que me ajuda a pensar a cobertura de alguns meios de comunicação com relação, por exemplo, às riots em Londres e ao Movimento Occupy. Dizer que estas manifestações culturais são “coisa de vagabundo” ou de “neo-burguês entediado” é um atestado de incapacidade de leitura do contexto contemporâneo. Ou mesmo um ato de má-fé – mas não é este o meu ponto aqui.

As novas (novas?) tecnologias, ao contrário do que parece pensar a geração do lado de lá do abismo, não enfraquecem a capacidade de fala. Elas surgem como uma, talvez a única, forma de se fazer escutar em um mundo que tinha desaprendido a protestar (é difícil protestar em uma língua morta). Não é à toa que, inspirados em Alan Moore, os manifestantes do Occupy utilizam a máscara de Guy Fawkes, um revolucionário de outros tempos: ao fazerem isso, não cortam laços com os antepassados, mas homenageiam e atualizam um potencial crítico que há muito foi emudecido pela rotina de trabalho, pelo cinza dos escapamentos dos carros, pelos monopólios de informação (algo que, como todos sabemos, “a gente vê por aqui”).

Eu gostaria de levar a discussão um pouco adiante. Por mais que eu seja um instigador e um entusiasmado com os movimentos sociais em redes, acredito que há algo a se tomar cuidado: de algum tempo para cá parece estar ganhando consistência, especialmente no Facebook, uma espécie de imperativo da indignação. Quão indignado você fica com a presença da PM na PUC-SP? E com Pinheirinho? E com o salários dos deputados? E com todo o resto? Fique indignado, não importa com o quê!

E, bom, estamos realmente indignados. Mas é importante saber que isso não é suficiente.

Estar indignado e não fazer nada, mesmo que sejam movimentos em nível micro – e aí o trabalho psicanalítico é imprescindível -, é ser cúmplice, é emprestar o olhar para sustentar uma violência. As redes sociais convocam o olhar (“Veja esta foto!”, “Repare neste absurdo!”), e este é justamente o seu grande risco – e trunfo. Aquele que “curte” uma “postagem de indignação” sem assumir uma posição crítica está na mesma posição do motorista que passa ao lado de um acidente, diminui a velocidade para ver melhor os feridos, e segue adiante: empresta o seu olhar para que as coisas fiquem como estão. Um olhar que não evoca a palavra é um olhar de gozo e de anuência.

Mas, como eu disse antes, esta fascinação pelo olhar é também o grande trunfo das redes sociais: será que saberíamos sobre o massacre de Pinheirinhos se não fosse o Facebook, se dependêssemos apenas dos meios tradicionais de comunicação? Levaríamos a sério e entenderíamos o real significado das revoltas londrinas? Lembrando, de passagem, que a revista Veja (!) apresentou aqueles jovens britânicos como alienados que estavam saqueando lojas atrás de tênis de marca e aparelhos eletrônicos. Faltou à revista perceber que aqueles jovens queimavam os produtos da loja: um modo simbólico de dizer que este sistema econômico em que vivemos está caduco, que, no fundo, toda a parafernália de consumo não tem valor.

Voltando ao assunto: a questão central está em saber o que fazemos com todas estas convocações à indignação. Como podemos quebrar os ciclos de violência, mesmo que os mais simples e discretos? Tenho em mente aqui uma frase genial de Guy Débord, em A Sociedade do Espetáculo:

À aceitação (…) daquilo que existe pode também se adicionar como uma mesma coisa a revolta puramente espetacular: isto traduz o simples fato de que a insatisfação ela própria se torna uma mercadoria (…).

Como ir além do espetáculo, além da convocação de um olhar passivo? Se “curtir” for o suficiente para estarmos com a consciência limpa, estamos fazendo algo errado. Bem errado.

As redes sociais são ferramentas importantíssimas para a construção de pontos de visibilidade no mundo. Compartilhar uma violência é uma forma de tornar pública e fazer visível algo que talvez não teria lugar na mídia. Entretanto, se a “insatisfação se torna uma mercadoria”, como diz Débord, nada muda – vira uma queixa vazia e sem sentido prático, um discurso que não gera movimentos – gozo da desilusão. Estar indignado porque é justamente isso o que o mundo parece querer é uma das novas formas de cinismo. Uma indignação espetacular.

Uma indignação de novela das oito.

— Luciano Mattuella

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Luiza e o nosso jet lag

25/01/2012

Uma das tarefas essenciais de qualquer um que se ocupe com interpretação da Cultura hoje em dia é estimular uma discussão sobre o contexto contemporâneo que não caia nem no cinismo“não há nada a ser feito” –  nem na nostalgia“antes é que era bom”. Tanto a posição nostálgica quanto a cínica são estratégias, às vezes muito bem aceitas socialmente, de defesa, formas de manter-se distante do verdadeiro debate. A posição crítica, uma terceira via que me parece mais interessante, implica o risco de, volta e meia, tensionar e romper algumas opiniões aceitas pelo coletivo.

Um dos maiores perigos do pensamento nostálgico – por falta de nome mais adequado – é a sua transformação em moralismo – este artifício que Freud já denunciava como uma das formas mais refinadas de reprimir um desejo inconsciente – e, com isso, ainda desfrutar de certa aceitação social: “Olhem para aquele homem: tão correto, tão fiel aos seus princípios”. É também o caso da mulher que se apavora ao pensar que, por debaixo de toda a roupa, ela está completamente nua.

O que não se percebe com tanta frequência é que o moralismo é um modo de imposição de valores e diretrizes sob o pretexto de uma suposta preservação “da família e dos bons costumes”, estes estandartes tão caducos hoje em dia. Perplexo em sua adoração por um passado idealizado, o nostálgico desiste do presente. E, certamente, abre mão de qualquer possibilidade de interpretação de fatos sociais que não acabe sendo uma pálida e saudosista homenagem aos “bons tempos de outrora”. Em vez de entender um fato cultural como um sintoma de uma estrutura subjacente, o moralista petrifica-o em uma interpretação obsoleta.

Por outro lado, um fenômeno que me interessa muito, e que é uma das maiores críticas endereçadas a alguns pensadores pós-modernos, é a cada vez maior presença do pensamento cínico na Cultura. Na verdade, em sua manifestação mais explícita, o cínico acaba por encontrar-se na mesma esquina que o moralista: cada um ao seu modo, ambos abdicam da palavra em sua função transformadora para fazerem uso de um discurso que mantém tudo como está. Há, entretanto, uma forma mais sutil de cinismo, o que eu gostaria de chamar de modo irônico de viver.

Enquanto o moralista entende a ruptura com os modos de vida do passado como uma maldição, o cínico de hoje em dia – os ditos “hipsterssão uma boa, mas não suficiente, ilustração – celebra o fato de o passado não ser mais uma prisão, de poder inventar-se como bem entender. Se a tradição que pertencia a uma época antiga não dialoga mais com o presente, se os valores de outros tempos não ditam mais comportamentos, então somos livres, o mundo é nosso por direito!

Seria ótimo – mas não é bem assim que a coisa funciona.

O que por vezes não percebemos é que este rompimento em relação a uma linhagem que traz consigo um saber sobre a vida cobra um preço bastante alto: ao não nos remetermos mais a referências do passado, somos levados a procurar no presente pelos ideais que ajudam a compor nossa identidade. O problema é que, em geral, estes ideais são absolutamente fugazes.

Se antigamente o psicanalista era procurado em razão de um sintoma específico – um comportamento repetitivo, uma dúvida com relação a uma escolha amorosa… -, hoje em dia os consultórios recebem cada vez mais a queixa abstrata de que “nada faz sentido”, de que “a vida parece não ter propósito”. Isso parece evidenciar como a tentativa de organizar uma identidade através da mimetização de role models é vã e cruel.

E, bom, a princípio a vida não tem mesmo um propósito. Mas o que perdemos hoje em dia foi justamente a capacidade de inventar um sentido particular e singular para a existência de cada um. Não conseguimos mais contar histórias. A ficção é uma moeda cada mais desvalorizada, queremos o que “realmente” (aspas!) aconteceu, os fatos mesmos, a crueza dos dados quantitativos – como se existíssemos fora do mundo, como  (tele)espectadores.

Aquele que vive ironicamente a vida, aquele que mantém um distanciamento cool com relação ao mundo, cai numa armadilha: ao tentar fugir dos imperativos sociais tradicionais, acaba tendo que se haver com os imperativos performáticos que ele próprio criou. O rompimento com o passado, que deveria ser uma benção, acaba erguendo prisões cada vez mais confortáveis e alienantes. A liberdade acaba se tornando a pior sentença: seja livre, obrigatoriamente!

Então, sinceramente, não é a Luiza – no Canadá ou não – que vai nos ajudar a saber se ficamos mais ou menos burros.

[Este texto segue discussões iniciadas no grupo “Psicopatologia e Mal-Estar na Cultura Contemporânea”, ao qual estão convidados todos os que se sentirem convocados pelo tema]

— Luciano Mattuella

Os estupradores do imaginário

18/01/2012

Em meu primeiro ensaio publicado neste blog (no dia 16 de janeiro de 2010), propus um início de reflexão sobre a questão: como os psicanalistas interpretam a Cultura? À época, fiz referência ao livro Bem-vindo ao deserto do Real, do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Certamente há alguns pontos naquele pequeno texto que, hoje, eu reveria e teria escrito de forma diferente. A ideia central, entretanto, ainda me parece bastante válida. Retorno a isto daqui a pouco.

Comecemos por outro lado: ontem, o filósofo Juremir Machado da Silva publicou um artigo no jornal Correio do Povo que me fez retornar ao texto que escrevi há mais de um ano. Juremir lança alguns aforismas sobre o Big Brother Brasil 12 – famoso BBB12 – e o suposto estupro que teria ocorrido no programa. Reproduzo, abaixo, um pequeno trecho que me parece especialmente astucioso:

O suposto estupro do BBB12 é o ai se eu te pego que se materializou.

Quando se brinca com a fantasia ao extremo, flertando com o abismo, o salto acaba por acontecer.

Não precisa existir relação direta.

O imaginário é o resultado de saltos lógicos.

“Quando se brinca com a fantasia ao extremo (…) o salto acaba por acontecer”. Juremir parece sintetizar em uma frase toda a teorização psicanalítica sobre a fantasia e os modos de a fantasia precipitar-se na cena do mundo.

Que a Cultura seja também um repositório de tendências de acontecimentos é algo com o que os psicanalistas estão já acostumados. Esta é uma das possíveis interpretações da célebre tese de Lacan de que “a verdade está estruturada como uma ficção”, ou seja: a história de nossa vida nada mais é do que uma narrativa suficientemente consistente na qual escolhemos acreditar (os motivos pelos quais escolhemos tal ou tal narrativa são testemunho de nosso modo específico de estarmos inscritos na Cultura – mas isso é assunto para outra hora).

O ponto aqui é o seguinte: qual a importância da Cultura popular para o psicanalista? O que as músicas, seriados, filmes, enfim, qualquer produto da indústria cultural, dizem das fantasias inconscientes de uma determinada época, de uma determinada narrativa que um período escolheu para contar a sua própria história? Que haja uma tênue linha aproximando o Big Brother Brasil 12 e o “Ai se eu te pego” do Michel Teló, esta é uma consideração brilhante de Juremir Machado da Silva.

Os dois produtos – sim, mesmo o dito estupro é, infelizmente, um produto da indústria cultural (prova disso é a audiência recorde do BBB12 no dia em que Daniel foi expulso) – são a materialização de alguma fantasia inconsciente que insiste no imaginário social e insiste em ganhar materialidade concreta.

E aqui retomo Zizek, citado no primeiro posto do blog:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Quando a imagem invade o mundo, quando a fantasia ganha consistência material, estamos frente à falência da herança simbólica, ou seja, frente à fragilização daqueles referenciais que podemos utilizar para contar a nossa história (ficcional, diga-se de passagem). O estupro é o assassinato da ficção – é o colapso do imaginário. O grande brother também habita o deserto do real.

— Luciano Mattuella

Por favor, Mr. Cole, manere no tweed.

01/12/2011

(Este texto é inspirado e segue a linha de raciocínio do ensaio publicado pelo amigo e colega Vitor Hugo Triska.)

Uma das melhores brincadeiras de 1º de abril que eu lembro (ou pelos menos uma das mais bem escritas) apareceu no ano passado no site CNET. Fazendo uma alusão ao seriado norte-americano Doctor Who, a página noticiava que um jovem havia sido preso pela polícia suíça ao tentar sabotar o acelerador de partículas LHC – o tal Sr. Cole alegava ter vindo do futuro com a missão de impedir o fim do mundo. Há uma frase na divertida “matéria” que considero o seu ponto alto: “Police said Mr Cole, who was wearing a bow tie and rather too much tweed for his age, would not reveal his country of origin” (Traduzo: “A polícia disse que Sr. Cole, que estava vestindo uma gravata borboleta e um pouco de tweed demais para a sua idade, não queria revelar seu país de origem”).

A psicanálise hoje em dia se assemelha muito ao nosso querido Mr. Cole: uma prática que, por ter esquecido a sua origem – um Herr Freud sempre sintonizado com seu tempo e com as fantasias que sustentavam a Cultura de que era contemporâneo -, acaba usando tweed demais e, por vezes, se tornando um discurso empoeirado e démodé’ (confira-se, por exemplo, http://www.youtube.com/watch?v=TBUFMYythJQ). Acreditando vir do futuro, confessa sua escravidão ao passado.

É preocupante, mas é o estado da arte.

Há um abismo que separa a época de Freud da nossa. Mas estamos em tempos de aprendermos a caminhar sobre abismos. Ser “fiel a Freud”, ou seja, filiar-se à palavra de ensino freudiana é justamente aprender a ser filho de seu (nosso) tempo e pensar a contemporaneidade a partir dela (de nós) mesma (mesmos). Ser herdeiro do saber psicanalítico quer dizer fazer como Freud, claro, mas entendamos: fazer como Freud quer dizer seguir o seu exemplo e permitir-se escutar o que há de recalcado na Cultura contemporânea, e não intervir igual a Freud, calar-se igual a Freud, interpretar igual a Freud. Parece simples, mas há aqueles que confundem.

Um psicanalista hoje em dia deve ser capaz de explicar por quê a Lady Gaga é um role model, por quê Game of Thrones tem que ser a narrativa sobre o triunfo de um bastardo e por quê os zumbis não são figuras de ficção, mas caminham nas ruas todos os dias (e trabalham das 9h-17h).

Um psicanalista hoje em dia deve cuidar pra não usar muito tweed.

— Luciano Mattuella

Também falando sobre a minha geração

21/05/2011

Hoje acordei e logo percebi que o relógio – de pulso – que deixo ao lado da cama estava parado. Sorri um sorriso um tanto freudiano, mas ainda tingido por umas imagens de sonho que insistiam em emancipar-se ao mundo.

Suspenso no tempo, tomei um café – sem açúcar, como gosto – enquanto lia um belíssimo texto escrito por meu amigo e colega Moysés. O café ficou um pouco mais amargo. Logo em seguida uma daquelas imagens do meu sonho sentou-se ao meu lado, silenciosa, aconchegada, mas muito nítida. Lembro que sonhei que eu estava embaixo de uma colina; no topo, um grupo de pessoas – todas iguais! – gritavam “Acabou, acabou!”. Desesperado, eu gritava de volta: “Ainda não, ainda tem tempo, ainda não!”. Só que, quando essas frases chegavam até os que estavam em cima da colina – lembro que eu via a frase fazendo todo o caminho até lá – ela se fazia eco da voz daquelas pessoas: “Acabou, acabou”. Como se eu falasse uma coisa e eles só conseguissem escutar aquilo que lhes fosse familiar.

Pensei de novo no relógio parado e desisti do café.

Então recordei que hoje era pra ter sido o fim do mundo. Há alguns meses foi ganhando consistência na cultura a idéia de que 21 de maio de 2011 seria o fim dos tempos (pra mim foi, na exata medida do meu pulso). “A Bíblia garante” é uma das frases estampadas em um outdoor aqui em Porto Alegre, na Terceira Perimetral. Sinal dos tempos: o fim do mundo é anunciado em outdoor (desculpem o spoiler). Profetizaram o Juízo Final e a sequência de catástrofes que se abateriam sobre os não escolhidos, os não puros. Os que ficaram embaixo da colina.

Penso sinceramente que eles – os profetas do apocalipse – estão corretos. Sem ironia, penso mesmo. Das duas, uma: se o mundo realmente acabar e hoje for o dia em que Jesus Cristo retornará para levar ao Paraíso os escolhidos, eles estarão certos. Se, por outro lado, nada disso acontecer e tudo seguir na mesma, bem, aí eles e Walter Benjamin estarão certos: “Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe”, escreveu o filósofo.

A minha geração é irmã – mais velha, pelo menos no meu caso – de Lady Gaga. E isso significa algo, definitivamente.

Esperamos por um Juízo Final (o sonho kantiano, o derradeiro juízo sobre tudo e todos!) que, cá entre nós, nunca virá. Ou já veio e nós perdemos porque nossos relógios estavam parados. Temos essa fantasia como constitutiva do nosso tempo: se tudo ficar sempre igual, nunca morreremos. Se o relógio não marcar o tempo, não envelheceremos. Se tomarmos nossas vidas como algo a ser pensado, corremos o risco de não encontrar nada no fundo da caneca do café. E ainda teremos que nos contentar em ficar dizendo: “como era bom o meu café amargo!”.

É como se a minha – a nossa? – geração fosse toda ela filha de uma mãe deprimida. Quando o filho de uma mãe depressiva volta-se para trás e pergunta: “Mãe, o que vale a pena no mundo?”, ela responde: “Nada, filho. Deixa assim mesmo”. Trata-se de uma mãe que não consegue antecipar um futuro para um filho, que não consegue banhar o tempo com desejo. Estamos desamparados, mas somos radicalmente felizes por esta condição: ela nos alivia da responsabilidade de ter que dar conta de alguma dívida, de que tenhamos de nos questionar pelo nosso próprio desejo. Por outro lado, nós estamos ainda presos nessa tentativa absurda de tentar animar uma mãe entristecida.

Não é esta a função que cabe a um filho, Freud nos ajuda a entender. Na verdade, o mesmo mundo desabitado que faz parte da fantasística de uma mãe deprimida pode ser encarado de duas formas: para os de cima da colina, como um lugar em que tudo já acabou. Para os que estão embaixo da colina, como um lugar que ainda nem começou. Talvez precisemos parar de tentar gritar a nossa resistência aos lá de cima e nos preocuparmos mais em falar em um tom mais calmo aos aqui de baixo.

Quem sabe seja por isso que vários autores (o genial Vladimir Safatle, por exemplo) costumam dizer que a marca de nossos tempos é o cinismo: como defesa à rugosidade do mundo nós desdenhamos da esperança, dizemos que sonhar e devanear são ações inúteis. Como não somos ouvidos, vestimos uma vestido de carne crua (lembrando da nossa irmã mais nova). Pior do que não criticarmos as coisas como estão, nós nos organizamos de tal forma a acreditar que estamos criticando. A sacola de tecido – e não de plástico – que levamos ao supermercado permite que nós durmamos tranquilos, mas definitivamente não nos ajuda a sonhar.

Enfim, meu relógio ainda marca a mesma hora em que acordei. Se o mundo ainda não tiver acabado, vou mandar consertar na segunda-feira.

— Luciano Mattuella

Os homens nucleares

15/03/2011

Apesar de ter sido filho legítimo do cientificismo, Freud valeu-se da sensibilidade clínica – esta possibilidade de ser surpreendido pela inquietante opacidade particular e singular, e não deixar-se ensurdecer pela transparência apaziguadora do universal e essencial – para colocar em questão os dogmas e as diretrizes de um modo de pensar vigente (à época e, certamente, ainda hoje). Assim, também lançar luzes àquilo que escapa ao senso comum, que faz tensão e sulca brechas no discurso científico, suposto lugar da verdade no contexto social (“É científico, é verdadeiro”). Pergunta-se, em carta enviada a Albert Einstein em 1932:

Mas toda a ciência não termina numa espécie de Mitologia? Parece-lhe diferente na física de hoje?

Ao mesmo tempo em que mantinha o rigor experimental na escrita, levando em conta as opiniões de seus antecessores, valorizando teses antes levantadas, Freud permitiu-se deixar atravessar pelo único da fala de cada um de seus pacientes. Para ele, não havia fórmula para um tratamento analítico: cada novo caso clínico implicava um deslocamento e um questionamento da posição do analista. Ou seja, um conselho que ainda hoje, mais do que nunca, é importante: não há garantias prévias a qualquer tratamento pela Psicanálise. O próprio do sujeito é resistir a toda forma de nomeação e conceitualização.

Esta possibilidade de explicitar a impotência do discurso científico em dar conta da vida, do cotidiano, do sofrimento humano, revela-se, parece-me, como um interessante norte para todo aquele que se debruçar sobre os textos ditos culturais de Freud (artigos como o “Mal-Estar na Cultura” e “O Futuro de uma Ilusão”, por exemplo).

Nestes escritos, vê-se muito bem os paradoxos daquilo que chamamos de técnica – toda a gama de recursos que o homem desenvolveu para dominar a natureza. O mesmo Freud que é entusiasta dos feitos da Racionalidade humana escreve frases como a seguinte, retirada ainda da carta a Einstein:

Há tempos imemoriais ocorre na humanidade o processo de evolução da cultura (…). A ela devemos o melhor daquilo que nos tornamos e uma boa parte daquilo de que sofremos.

Sutil e delicadamente matizada opinião freudiana: o acúmulo de conhecimento, realizado na cena do mundo como progresso técnico (e tecnológico), é ao mesmo tempo cura e origem de sofrimento. Assim, seria próprio da humanidade a construção dos abrigos nos quais refugiasse de suas próprias bombas. A cultura como espaço de criação mas também de destruição, como a filósofa Hannah Arendt escreve em seu belíssimo “Entre o passado e o futuro”:

No momento em que iniciamos processos naturais por conta própria – e a fissão do átomo é precisamente um destes processos naturais efetuados pelo homem – não somente ampliamos nosso poder sobre a natureza (…), mas, pela primeira vez, introduzimos a natureza no mundo humano como tal, obliterando as fronteiras defensivas entre os elementos naturais e o artefato humano nas quais todas as civilizações anteriores se encerravam.

Fico me perguntando qual seria a reação de Freud e de Hannah Arendt ao verem estas mesmas imagens que agora tenho a minha frente em meu computador, imagens de um mundo distante, mas ainda assim tão próximo: vejo um reator nuclear em chamas, prenunciando a invisível e destrutiva potência de um sol nascente.

– Luciano Mattuella


Nós, os cisnes negros?

12/02/2011

É de fato impressionante o quanto se tem escrito, discutido, comentado e publicado sobre O Cisne Negro (Black Swan, 2010), filme do diretor Darren Aronofksy recém-chegado aos cinemas brasileiros (com o atraso habitual, diga-se de passagem). O enredo conta a história de Nina (Natalie Portman) uma jovem e retraída dançarina escolhida para o papel principal da famosa montagem “O Lago dos Cisnes” e a de seu reflexo no espelho, Lily (Mila Kunis), outra dançarina, menos técnica, porém mais desenvolta, mais passional no palco.

Não quero me ater ao desenrolar da trama, até porque vale a pena ver o filme sem muitas informações prévias – quero focar minha atenção mesmo em pensar por quê razão este filme gerou tantos efeitos, tanta discussão. Sempre que alguma produção cultural gera este tipo de movimento, sempre que ela desaloja o público espectador do lugar passivo para convocá-lo à posição de crítico (mesmo que seja na conversa entre amigos), podemos nos perguntar: O que de traumático este produção cultural trouxe à tona? Que ponto de silêncio da Cultura – que dimensão do recalcado, em termos mais técnicos – foi tocada?

Desde Freud, sabemos: nos ocupamos de falar sobre aquilo que nos angustia, aquilo que nos desestabiliza – há uma aposta (acertada) de que o ato de falar sobre algo tranquiliza na medida em que dá contorno, transforma em história, algo que de outra forma seria insuportável. Substitui-se a dor do afeto pela saída criativa de uma história de si.

Neste sentido, minha opinião é a de que O Cisne Negro transpõe para a tela a dinâmica da aquisição do próprio corpo. O que isso quer dizer? Ora, não nascemos donos de nós mesmos, precisamos do auxílio de um outro para que sobrevivamos. É preciso alguém que nos alimente, que nos proteja do frio e do calor, que cuide de nossas necessidade básicas. Quando somos muito pequenos, nosso corpo está – literalmente – nas mãos dos outros.

Se dermos sorte, estes outros (em geral os pais) permitirão que, pouco a pouco, este corpo seja investido de referenciais que vão para-além de seus próprios desejos e seja gradualmente inserido em um “caldo cultural”. Trata-se daquelas famosas frases: “Chutou muito quando estava na barriga, aposto que vai ser jogador de futebol”, ou “Ela anda feito uma princesa… vai ser modelo quando crescer!” – sentenças que guardam dentro de si um desejo de que aquele corpo seja mais do que um conjunto de órgãos, proteínas, etc…, mas que tenha um lugar no ambiente cultural de sua época. Aos poucos, o corpo (a libra de carne, como dizia Freud, remetendo a Shakespeare) vai sendo traduzido em palavras.

Se, além de darmos sorte, ainda por cima formos capazes de nos responsabilizarmos por estas frases proféticas e tomarmos nosso futuro em nossas mãos, nos descolando, por assim dizer, dos desejos de outros, então poderemos nos olhar no espelho (das palavras, claro) e ver nossos pais lá no fundo da cena, mais como sustentação da moldura do que como o reflexo em si. Entender que aquelas frases – carregadas de desejo – que nos davam bordas na infância são um ponto de partida, e não de chegada: eis a virada que a adolescência, na melhor das hipóteses, permite.

É neste ponto, me parece, que algo falha para Nina.

É muito importante (peço que o leitor veja o filme antes de seguir lendo) que nunca ter sido escolhida como a atriz para o papel principal de “O Lago dos Cisnes” é a grande desilusão da vida da sufocante mãe de Nina. De alguma forma, Nina fica presa nessa necessidade de dar conta dos desejos da mãe, de ser a cura para a sua insatisfação. E o faz da forma mais dolorosa possível: ao não ter palavras para falar disso, entrega o próprio corpo. Mais um dos ensinamentos clínicos da psicanálise: aquilo que não conseguimos traduzir em palavras, o corpo – padecendo e sofrendo – denuncia.

Exemplo disso são as suas alucinações: indícios de asas saindo das costas, os dedos dos pés grudados, como os de um pássaro… Nina, pouco a pouco, vai se tornando um cisne. É como se ela respondesse – com o corpo! – ao mandato materna: Torna-te o cisne negro (que eu não pude ser)!

Por isso a importância das cenas sexuais do filme: a masturbação é uma primeira forma, ainda muito primitiva (uma vez que narcisista), de apossar-se do próprio corpo, de descobrir que o próprio toque pode trazer prazer. Quando Nina tenta se masturbar, é a figura da mãe que aparece, em toda sua potência disruptiva e desorientadora, substituindo alguma fantasia erótica que diria de um desejo próprio. Para que alguém se torne dono de seu corpo e possa usá-lo ativamente, é preciso antes separá-lo e diferenciá-lo do corpo de sua mãe. Muitas patologias contemporâneas denunciam o quanto este processo é complicado e psiquicamente trabalhoso.

Em entrevista à revista francesa Les InrocKuptibles, a própria Natalie Portman dá sustentação (sem o vocabulário teórico, naturalmente) a esta minha linha de interpretação. Quando perguntada sobre a importância da cena de sexo com Mila Kunis, responde:

Penso que se trata de uma cena necessária, uma vez que é o primeiro momento em que Nina se deixa levar e dá prazer a si mesma ao invés de dar prazer aos outros. É a sua primeira revolta contra um mundo que a oprime.

Que o sexo tenha se banalizado, é um fato. É definitivamente mais fácil falar hoje sobre sexo com os irmãos-amigos do que na época de Freud. Entretanto, ainda é muito complicado e traumático falar de sua própria sexualidade. O próprio corpo ainda é (e tem como não ser?) excessivamente opaco, excessivamente visível. É fácil falar de sexo quando se está falando do sexo dos outros. Nina explicita isso da forma mais radical em O Cisne Negro: assumir sua sexualidade e dar contornos próprios ao seu corpo implica, necessariamente, a renúncia da instância materna, uma instância ao mesmo tempo consoladora e, eventualmente, devastadora.

Em tempo: outro artigo – muito interessante, abordando desde uma dimensão mais clínica – no blog de meu colega e amigo Vitor Hugo Triska: http://vhtriskaensaios.blogspot.com/.

– Luciano Mattuella


A palavra contra a desilusão

15/09/2010

O escritor americano Philip Roth é, certamente, um dos grandes porta-vozes do mal estar da contemporaneidade. Junto a figuras como J.M. Coetzee, Raymond Carver e Richard Ford, Roth é expoente entre aqueles escritores que detêm o talento único de traduzir em palavras a atmosfera de paranóia, medo e impotência que tomou conta do mundo nas últimas décadas, especialmente após os atentados de 11 de setembro.

O que Philip Roth diagnostica em suas obras – como em American Pastoral, livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1997 – é justamente a sensação de desilusão do homem atual com relação àquilo que o passado é capaz lhe transmitir de experiência para dar conta de suas angústias. Como pode um passado tingido pelo matiz da guerra e da violência servir como referência para uma ação que procure a construção de um futuro que não seja repetição desta violência?

Já em 1933 (ano de nascimento de Philip Roth, aliás), o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamin havia alertado, em seu conhecido artigo Experiência e Pobreza, para este enfraquecimento da relação entre o homem e sua história, para a impossibilidade de o passado ser apreendido como uma herança que lance luzes sobre o presente. Philip Roth leva magistralmente adiante este tese, mostrando como a cultura americana produz ou homens alienados (os ufanistas republicanos, cegos para a decadência da América) ou homens desiludidos, como Nathan Zuckerman, célebre – e talvez um autobiográfico – personagem de diversos livros de Roth.

Zuckerman, aliás, que se alia a David Kepesh – outro personagem típico, central, por exemplo, em The Professor of Desire (1977) – como exemplos de outro dos temas recorrentes em Philip Roth: a senescência, essa inexorável e incessante passagem do tempo. O tempo como uma força devastadora, como Cronos a devorar todos os filhos – um tempo, enfim, que não aponta para uma possibilidade de futuro, para a perpetuação e a transmissão de uma herança, mas tão-somente para o passar da vida e a fragilização do corpo rumo ao silêncio da morte.

Assim, a idéia de desilusão também assume, nas obras de Philip Roth, esta fachada de resignação à insuficiência do tempo vivido: somos todos projetos fadados a nunca nos realizarmos por completo. Afinal, como pode um homem que nada herda legar algo de permanente para aqueles que virão depois dele? Talvez não seja por acaso que vários dos personagens de Roth não tenham filhos: não conseguiram, a bem da verdade, nem mesmo tornarem-se, ele próprios, filhos de sua cultura – uma cultura cuja inocuidade insistem em explicitar, especialmente no campo político, da ação coletiva.

Paradoxalmente, e para a sorte de todos nós, seus leitores, Philip Roth procura justamente na potência da escrita a possibilidade de denunciar as arestas mal-acabadas de um mundo desiludido. A palavra como um último recurso para que nos reste mais do que o mero papel de animais agonizantes.


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