E quem não é filho do Batman?

16/10/2012

Sempre tomo um café no intervalo do meio da tarde. Pelas quatro horas vou até a cafeteria aqui da esquina. Não é um Starbucks, mas tem o melhor espresso aqui da volta do consultório. A dona é uma mulher muito gentil e simpática. Ontem, ela mesma trouxe o meu café e, junto, uma pergunta: “E aí, e a Carminha?”. Fui pego desprevenido. Achei que ela tinha me confundido por outra pessoa. Carmen? Por sorte, um colega analista estava sentado ao meu lado e, prontamente pulando na conversa, me aliviou de ter de responder. Disse ele que, na verdade, ele queria mesmo era saber o assassino do Max.

Confesso que não sei quem matou o Max. Aliás, confesso que nem sei quem é o Max.

Sendo um pouco mais sincero: eu conheço o Max. Mas conheço assim, como um amigo de amigo, como um conhecido de que só ouvi falar. E também sei que vingança é – ainda – um tema em voga na nossa Cultura. Sei do desastre que é um incêndio de um lixão (sempre nos impressionamos com Nero). E também que “ninguém é de todo bom ou mau”. Mas isso tudo eu sei através dos relatos que escuto no consultório. Sei de algumas coisas que se passam na Cultura através de meus pacientes, destes homens e mulheres que me fazem cada vez mais perceber o quanto é importante que um psicanalista saiba ser também um intérprete do seu tempo. Nessa avenida, a Brasil, sigo de carona.

Uma das coisas que aprendi com o meu tempo de clínica é que um psicanalista não pode se importar com spoilers. Se você for analista e não quiser saber o que acontece no final dos filmes em cartaz, corra para as pré-estreias. Dependendo do tempo que você demorar para ver o filme, talvez já saiba todo o enredo, todas as reviravoltas, todos os trejeitos e maneirismos dos personagens. A mesma coisa com seriados e livros. O paciente, assim como o artista e o escritor, como dizia Freud, sempre está uma página adiante.

O que me intriga na realidade é um certo desdém de alguns psicanalistas hoje em dia pelas formas “menos eruditas” (péssima expressão, mas não me surge outra) de manifestações culturais. Como se o nosso sofrimento fosse escandido em dodecassílabos, como se nossa angústia fosse parnasiana. É preciso de um bom tanto de coragem para se permitir vasculhar o porão – mas é ali mesmo que se esconde o que nos faz sofrer. Em pouco tempo de prática clínica já percebemos que às vezes um blockbuster diz mais do que um filme perdido de Godard.

Ora, no momento em que nos identificamos com personagens da cultura pop e popular, estamos nos deixando atravessar por esses discursos, estamos, basicamente, nos constituindo através dessas histórias. E o que somos nós se não narrativas mais ou menos coerentes de nós mesmos? Há mais de um século Freud atentou para a importância de que um tratamento analítico possa ajudar alguém a construir para si uma história de vida. E, mais ainda: segundo ele, na nossa infância, emprestamos para os nossos pais as roupas de heróis e personagens que povoam nosso cotidiano imaginativo. Quem nunca se imaginou filho de Bruce Wayne? Quem nunca mentiu que o pai era astronauta? Enfim, é importante que em algum momento da infância, cada um ao seu modo, tenhamos podido imaginar um pai que pudesse viajar pelos planetas e voltar para contar o que viu. Depois de adultos, sabemos que nosso pai não foi às estrelas, mas que mesmo assim nos deixou como legado a curiosidade pela imensidão do universo.

Assim como na escuta de seus pacientes, um psicanalista deve levar também para a sua prática de interpretação da Cultura a premissa da atenção flutuante, ou seja, é  importante que não privilegie de antemão conteúdos de acordo com seu suposto grau de “erudição”, nem muito menos desvalorize narrativas por seu caráter notoriamente midiático ou de fácil assimilação. Somos todos filhos da Cultura em que estamos imersos, afinal.

Enfim, em suma, acredito ser importante saber que tem gente que prefere o espresso da esquina, e não o do Starbucks.

— Luciano Mattuella

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4 Respostas to “E quem não é filho do Batman?”


  1. Olá,
    Foi por acaso que encontrei o seu blog e achei interessante suas reflexões. Assisti e me diverti com as personagens da novela Avenida Brasil, embora não seja uma noveleira típica. Nem todas as novelas me atraem.
    Achei interessante a opinião do Arnaldo Jabor a respeito do fenômeno incrível de audiência dessa novela. Não sei se vou chover no molhado, mas coloco aqui o link para o Arnaldo Jabor, no Jornal da Globo da sexta-feita passada: “Avenida Brasil une as classes socials brasileiras.”:

    http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/t/edicoes/v/avenida-brasil-une-as-classes-socials-brasileiras/2199445/


  2. Ótimo o seu blog, Luciano!
    Muitos textos interessantes para ler aqui.
    Abraço!


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