Os estupradores do imaginário

18/01/2012

Em meu primeiro ensaio publicado neste blog (no dia 16 de janeiro de 2010), propus um início de reflexão sobre a questão: como os psicanalistas interpretam a Cultura? À época, fiz referência ao livro Bem-vindo ao deserto do Real, do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Certamente há alguns pontos naquele pequeno texto que, hoje, eu reveria e teria escrito de forma diferente. A ideia central, entretanto, ainda me parece bastante válida. Retorno a isto daqui a pouco.

Comecemos por outro lado: ontem, o filósofo Juremir Machado da Silva publicou um artigo no jornal Correio do Povo que me fez retornar ao texto que escrevi há mais de um ano. Juremir lança alguns aforismas sobre o Big Brother Brasil 12 – famoso BBB12 – e o suposto estupro que teria ocorrido no programa. Reproduzo, abaixo, um pequeno trecho que me parece especialmente astucioso:

O suposto estupro do BBB12 é o ai se eu te pego que se materializou.

Quando se brinca com a fantasia ao extremo, flertando com o abismo, o salto acaba por acontecer.

Não precisa existir relação direta.

O imaginário é o resultado de saltos lógicos.

“Quando se brinca com a fantasia ao extremo (…) o salto acaba por acontecer”. Juremir parece sintetizar em uma frase toda a teorização psicanalítica sobre a fantasia e os modos de a fantasia precipitar-se na cena do mundo.

Que a Cultura seja também um repositório de tendências de acontecimentos é algo com o que os psicanalistas estão já acostumados. Esta é uma das possíveis interpretações da célebre tese de Lacan de que “a verdade está estruturada como uma ficção”, ou seja: a história de nossa vida nada mais é do que uma narrativa suficientemente consistente na qual escolhemos acreditar (os motivos pelos quais escolhemos tal ou tal narrativa são testemunho de nosso modo específico de estarmos inscritos na Cultura – mas isso é assunto para outra hora).

O ponto aqui é o seguinte: qual a importância da Cultura popular para o psicanalista? O que as músicas, seriados, filmes, enfim, qualquer produto da indústria cultural, dizem das fantasias inconscientes de uma determinada época, de uma determinada narrativa que um período escolheu para contar a sua própria história? Que haja uma tênue linha aproximando o Big Brother Brasil 12 e o “Ai se eu te pego” do Michel Teló, esta é uma consideração brilhante de Juremir Machado da Silva.

Os dois produtos – sim, mesmo o dito estupro é, infelizmente, um produto da indústria cultural (prova disso é a audiência recorde do BBB12 no dia em que Daniel foi expulso) – são a materialização de alguma fantasia inconsciente que insiste no imaginário social e insiste em ganhar materialidade concreta.

E aqui retomo Zizek, citado no primeiro posto do blog:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Quando a imagem invade o mundo, quando a fantasia ganha consistência material, estamos frente à falência da herança simbólica, ou seja, frente à fragilização daqueles referenciais que podemos utilizar para contar a nossa história (ficcional, diga-se de passagem). O estupro é o assassinato da ficção – é o colapso do imaginário. O grande brother também habita o deserto do real.

— Luciano Mattuella

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15 Respostas to “Os estupradores do imaginário”

  1. Anônimo Says:

    Luciano,
    é interessante observar como a letra dessa música do Teló rompe com as possíveis fronteiras entre o imaginário infantil e o imaginário pornográfico. Os contextos da letra podem transitar livremente se o interlocutor for um bebê ou uma mulher a ser assediada. Mas essa mescla de contextualizações possíveis naturaliza a tonalidade do apelo sexual da mesma frase.
    Há uma estrutura bem arquitetada do ponto de vista da coerência na indústria cultura, no seu formato serial (penso nas séries matemáticas). Essa estrutura organizada empresta sentido à realidade vivida individual, que é difícil de ser organizada solitariamente, ou seja, subjetivamente, com o uso do imaginário e da experiência de determinado sujeito. Entre o circo preparado industrialmente (e industriosamente) e o Lager há uma semelhança lógica terrível. Ambos tendem a “produzir” as ações de seus prisioneiros, em decorrência da determinação a que estes estão cercados. Imagine o que aconteceria se esse mesmo Daniel se recusasse a se embebedar da maneira como todos se embebedam nessas festas do Big Brother? Imagine, em contraste e na devida proporção, o que aconteceria a um prisioneiro que recusasse o trabalho em Auschwitz? A vida contemporânea é organizada em adesão a regras verticais, e a opção moral pela não adesão projeta o risco constante de banimento ou morte. O Lager e o BBB são laboratórios da existência determinada na sociedade contemporânea. A existência determinada é um nome para a vida que não vive. Pelo menos o que se imaginava que deveria significar viver nos tempos do velho Humanismo.

    Um abraço,
    Marcelo Leandro.

    • Luciano Mattuella Says:

      Marcelo, meu amigo,

      Gostei muito do teu comentário – deu uma outra dimensão ao meu texto.

      Eu nunca tinha pensado sobre esta aproximação entre o imaginário infantil e o imaginário sexual na cultura brasileira; agora que tu falou, me parece evidente! Quase toda banda de pagode parece ter alguma música nesse sentido (“Brincadeira de criança / como é bom / como é bom”, e assim vai). Acho que isso também fala de como o Brasil lida com o seu infantil (não com a infância, mas com o infantil, ou seja, aquela constelação de memórias da infância que insiste na vida presente). Somos um país que conseguiu elaborar um infantil pra si?

      Sobre a aproximação entre o Lager e o Big Brother. Interessantíssimo, e eu ainda iria um pouco além: será que não seria interessante pensar também na subordinação voluntária (não no Lager, claro, mas no Big Brother). Engraçado, porque transformar a subordinação forçada em um jogo parece ser uma estratégia e tanto pra amenizar a potência crítica, não?

      Forte abraço e obrigado pelo comentário!

      – Luciano

      • Anônimo Says:

        Claro,
        talvez tenha um pouco a ver com essa erotização infantilizada. Pois se alguém se subordina voluntariamente (e faz questão disso) pode indicar que está seduzido pelo contexto vivível que o BBB oferece. Ou seja, admite pacificamente suas ofertas. Parece que o indivíduo vai sendo preparado desde cedo a se deixar seduzir superficialmente. Basta observar a linguagem afetiva excessivamente dengosa dos adultos para com as crianças …
        E essas músicas são uma ferramenta importante, na medida em que transitam do Programa Infantil à zona da cidade. O Patati e o Patatá podem cantar no horário que quiserem, O Pe Marcelo Rossi também pode onde quiser. Todo mundo pode, porque a concepção que temos de democracia é vulgar. É um demos sem cratos. Porque a dimensão política do termo democracia (cratos) nós não temos. Ela é assimilida e justificada como a voz de todos, a voz dos que têm direitos, a voz dos que são livres. O Brasil ainda sofre as consequências de um trauma político. E vou além: a identidade política do Brasil é avaliada quase que exclusivamente pelo sucesso econômico. Enquanto que os propósitos da política clássica são infinitamente mais amplos, dado o esforço de atingir o seu objetivo central que é a formação integral do ser humano. É isso que a pólis deveria oferecer. É isso que um espaço humano (politizado) deveria oferecer (para Platão e Aristóteles era assim e nos faz falta hoje).

        Por isso, e com todo o respeito aos demais, eu acredito que os sintomas dessa nossa sociedade são e precisam ser dizíveis.

        Um abraço,
        Marcelo.


    • E o que falar da história infantil da Bela Adormecida? Um desconhecido que não resiste à tentação da bela em coma e, a partir de um ato sexual não consentido (um beijo, que na história original me parece que era justamente um estupro), acaba por salvá-la!

      • Luciano Mattuella Says:

        Algo que se encontra em boa parte dos contos infantis, por sinal, não?

      • Anônimo Says:

        Bem lembrado! Vários contos têm resquícios daquele direito feudal à primeira noite, onde o Senhor (o príncipe) tinha o direito de desvirginar qualquer noiva dos aldeões antes das núpcias. Se pensarmos na Cinderela, o príncipe sai a procurar oficialmente com o sapatinho na mão, até encontrar “aquilo” que lhe serve. Em partes da Europa o direito à primeira noite vigorava até meados do século XIX. No Brasil nem se fala, com os Senhores de Engenho. O que é a Branca de Neve com aqueles anõezinhos enrabichados nela (seriam eunucos?) preparando-a nos afazeres domésticos, onde a dona-de-casa esfria sua cabeça e seu corpo e ensaia a docilidade com os inofensivos anõezinhos (seu papaizinho em suas sete variações de humor?), para servir a contento àquele que vai chegar soberanamente: o determinado e objetivo príncipe, que leva a vantagem de ser o mais prático possível, pois não pode perder tempo com os caprichos do universo feminino, já que tem um reino a administrar. Isso também é a expressão de uma sexualidade violadora (ou violada?)!

        Um abraço,
        Marcelo Leandro.


  2. Gostei muito de seu texto, e quando ao estupro, é o real excessivo,inominável, desmantelando o imaginário e prejudicando a inscrição do simbólico. Estupro, como algo da ordem do indizível,é o que aconteceu aos telespectadores também que foram invadidos, estuprados pelo real que invadiu as telas, as rodas de conversa, os jornais, as revistas, os meios de comunicação. Esta é a marca que a cultura inscreve nos sujeitos.
    Iara maria pereira

    • Luciano Mattuella Says:

      Cara Iara,

      Obrigado pelo comentário.

      Acho interessante quando tu trazer a posição do telespectador à discussão. Claro, tem uma invasão… mas e será que o telespectador também não ocupa o lugar daquele olhar que sustenta um gozo? Ele não entrega esse objeto – o olhar – de modo a manter a cena?

      Já leste o “Videologias”, da Maria Rita Kehl e do Eugênio Bucci? É um livro que discute essa função da mídia, do espectador…

      Abraço,

      – Luciano

  3. Augusto Jobim Says:

    …no nervo do Real.
    Parabéns pelo belo texto.

  4. Luciano Mattuella Says:

    Marcelo,

    Sim, há várias absurdos aí. Essa equiparação de povo mais feliz = povo melhor consumidor é algo que me incomoda há um bom tempo. Quanto mais alienado, mais feliz. Me lembra muito Freud, em “O Mal-Estar na Cultura”, falando sobre o imperativo da felicidade.

    Fiquei curioso pela tua ideia de trauma político. A que tu te referes?

    Abraço forte,

    — Luciano

    • Anônimo Says:

      Luciano,
      será que entendemos o que representou os anos de ditadura? Se não entendemos (e tudo indica que não) ainda estamos dentro desses limites, ou seja, não saímos dela como trauma. Os processos democráticos (em geral na América Latina) foram coletivamente assimilados como uma espécie de benção.
      Acho que é um trauma tbm pq ainda não aprendemos a ensaiar individualmente nossas vidas políticas com toda a dimensão e responsabilidade que isso exige.

      Mas esse papo vai longe…

      Por isso a tradução acertada que tu usas, pois esse tipo de coisa somente pode acontecer na Kultur, que é um estágio inferior e muito precário da experiência humana, e no qual ainda engatinhamos.
      Civilização… Quem sabe um dia? E Freud acreditava nesse dia, como humanista que era.

      Marcelo.

      • Luciano Mattuella Says:

        Marcelo,

        Olha, essa questão da ditadura no Brasil mostra os efeitos desastrosos do que acontece quando não se permite que a palavra circule. E reforça ainda mais aquela idéia de que o brasileiro não se sente como detentor de um passado.

        E, bom, uma civilização tem que ter uma história, um passado…

  5. Bibiana Says:

    Achei muito interessante de ler o texto do teu blog (e os comentários), primeiramente porque propicia abrir novas “frentes” na forma de pensar uma questão, e sem segundo, porque acabei conhecendo o blog!
    Parabéns!

    • Luciano Mattuella Says:

      Olá, Bibiana.

      Bem-vinda ao blog!

      Dei uma olhada no teu blog e na tua dissertação. Que tema interessante tu pesquisas, hein? Essa passagem de fronteiras entre o fantasístico e o efetivo me parece o cerne do pensamento psicanalítico hoje em dia.

      Seguimos mantendo contato.


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