Archive for janeiro, 2012

Luiza e o nosso jet lag

25/01/2012

Uma das tarefas essenciais de qualquer um que se ocupe com interpretação da Cultura hoje em dia é estimular uma discussão sobre o contexto contemporâneo que não caia nem no cinismo“não há nada a ser feito” –  nem na nostalgia“antes é que era bom”. Tanto a posição nostálgica quanto a cínica são estratégias, às vezes muito bem aceitas socialmente, de defesa, formas de manter-se distante do verdadeiro debate. A posição crítica, uma terceira via que me parece mais interessante, implica o risco de, volta e meia, tensionar e romper algumas opiniões aceitas pelo coletivo.

Um dos maiores perigos do pensamento nostálgico – por falta de nome mais adequado – é a sua transformação em moralismo – este artifício que Freud já denunciava como uma das formas mais refinadas de reprimir um desejo inconsciente – e, com isso, ainda desfrutar de certa aceitação social: “Olhem para aquele homem: tão correto, tão fiel aos seus princípios”. É também o caso da mulher que se apavora ao pensar que, por debaixo de toda a roupa, ela está completamente nua.

O que não se percebe com tanta frequência é que o moralismo é um modo de imposição de valores e diretrizes sob o pretexto de uma suposta preservação “da família e dos bons costumes”, estes estandartes tão caducos hoje em dia. Perplexo em sua adoração por um passado idealizado, o nostálgico desiste do presente. E, certamente, abre mão de qualquer possibilidade de interpretação de fatos sociais que não acabe sendo uma pálida e saudosista homenagem aos “bons tempos de outrora”. Em vez de entender um fato cultural como um sintoma de uma estrutura subjacente, o moralista petrifica-o em uma interpretação obsoleta.

Por outro lado, um fenômeno que me interessa muito, e que é uma das maiores críticas endereçadas a alguns pensadores pós-modernos, é a cada vez maior presença do pensamento cínico na Cultura. Na verdade, em sua manifestação mais explícita, o cínico acaba por encontrar-se na mesma esquina que o moralista: cada um ao seu modo, ambos abdicam da palavra em sua função transformadora para fazerem uso de um discurso que mantém tudo como está. Há, entretanto, uma forma mais sutil de cinismo, o que eu gostaria de chamar de modo irônico de viver.

Enquanto o moralista entende a ruptura com os modos de vida do passado como uma maldição, o cínico de hoje em dia – os ditos “hipsterssão uma boa, mas não suficiente, ilustração – celebra o fato de o passado não ser mais uma prisão, de poder inventar-se como bem entender. Se a tradição que pertencia a uma época antiga não dialoga mais com o presente, se os valores de outros tempos não ditam mais comportamentos, então somos livres, o mundo é nosso por direito!

Seria ótimo – mas não é bem assim que a coisa funciona.

O que por vezes não percebemos é que este rompimento em relação a uma linhagem que traz consigo um saber sobre a vida cobra um preço bastante alto: ao não nos remetermos mais a referências do passado, somos levados a procurar no presente pelos ideais que ajudam a compor nossa identidade. O problema é que, em geral, estes ideais são absolutamente fugazes.

Se antigamente o psicanalista era procurado em razão de um sintoma específico – um comportamento repetitivo, uma dúvida com relação a uma escolha amorosa… -, hoje em dia os consultórios recebem cada vez mais a queixa abstrata de que “nada faz sentido”, de que “a vida parece não ter propósito”. Isso parece evidenciar como a tentativa de organizar uma identidade através da mimetização de role models é vã e cruel.

E, bom, a princípio a vida não tem mesmo um propósito. Mas o que perdemos hoje em dia foi justamente a capacidade de inventar um sentido particular e singular para a existência de cada um. Não conseguimos mais contar histórias. A ficção é uma moeda cada mais desvalorizada, queremos o que “realmente” (aspas!) aconteceu, os fatos mesmos, a crueza dos dados quantitativos – como se existíssemos fora do mundo, como  (tele)espectadores.

Aquele que vive ironicamente a vida, aquele que mantém um distanciamento cool com relação ao mundo, cai numa armadilha: ao tentar fugir dos imperativos sociais tradicionais, acaba tendo que se haver com os imperativos performáticos que ele próprio criou. O rompimento com o passado, que deveria ser uma benção, acaba erguendo prisões cada vez mais confortáveis e alienantes. A liberdade acaba se tornando a pior sentença: seja livre, obrigatoriamente!

Então, sinceramente, não é a Luiza – no Canadá ou não – que vai nos ajudar a saber se ficamos mais ou menos burros.

[Este texto segue discussões iniciadas no grupo “Psicopatologia e Mal-Estar na Cultura Contemporânea”, ao qual estão convidados todos os que se sentirem convocados pelo tema]

— Luciano Mattuella

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Os estupradores do imaginário

18/01/2012

Em meu primeiro ensaio publicado neste blog (no dia 16 de janeiro de 2010), propus um início de reflexão sobre a questão: como os psicanalistas interpretam a Cultura? À época, fiz referência ao livro Bem-vindo ao deserto do Real, do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Certamente há alguns pontos naquele pequeno texto que, hoje, eu reveria e teria escrito de forma diferente. A ideia central, entretanto, ainda me parece bastante válida. Retorno a isto daqui a pouco.

Comecemos por outro lado: ontem, o filósofo Juremir Machado da Silva publicou um artigo no jornal Correio do Povo que me fez retornar ao texto que escrevi há mais de um ano. Juremir lança alguns aforismas sobre o Big Brother Brasil 12 – famoso BBB12 – e o suposto estupro que teria ocorrido no programa. Reproduzo, abaixo, um pequeno trecho que me parece especialmente astucioso:

O suposto estupro do BBB12 é o ai se eu te pego que se materializou.

Quando se brinca com a fantasia ao extremo, flertando com o abismo, o salto acaba por acontecer.

Não precisa existir relação direta.

O imaginário é o resultado de saltos lógicos.

“Quando se brinca com a fantasia ao extremo (…) o salto acaba por acontecer”. Juremir parece sintetizar em uma frase toda a teorização psicanalítica sobre a fantasia e os modos de a fantasia precipitar-se na cena do mundo.

Que a Cultura seja também um repositório de tendências de acontecimentos é algo com o que os psicanalistas estão já acostumados. Esta é uma das possíveis interpretações da célebre tese de Lacan de que “a verdade está estruturada como uma ficção”, ou seja: a história de nossa vida nada mais é do que uma narrativa suficientemente consistente na qual escolhemos acreditar (os motivos pelos quais escolhemos tal ou tal narrativa são testemunho de nosso modo específico de estarmos inscritos na Cultura – mas isso é assunto para outra hora).

O ponto aqui é o seguinte: qual a importância da Cultura popular para o psicanalista? O que as músicas, seriados, filmes, enfim, qualquer produto da indústria cultural, dizem das fantasias inconscientes de uma determinada época, de uma determinada narrativa que um período escolheu para contar a sua própria história? Que haja uma tênue linha aproximando o Big Brother Brasil 12 e o “Ai se eu te pego” do Michel Teló, esta é uma consideração brilhante de Juremir Machado da Silva.

Os dois produtos – sim, mesmo o dito estupro é, infelizmente, um produto da indústria cultural (prova disso é a audiência recorde do BBB12 no dia em que Daniel foi expulso) – são a materialização de alguma fantasia inconsciente que insiste no imaginário social e insiste em ganhar materialidade concreta.

E aqui retomo Zizek, citado no primeiro posto do blog:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Quando a imagem invade o mundo, quando a fantasia ganha consistência material, estamos frente à falência da herança simbólica, ou seja, frente à fragilização daqueles referenciais que podemos utilizar para contar a nossa história (ficcional, diga-se de passagem). O estupro é o assassinato da ficção – é o colapso do imaginário. O grande brother também habita o deserto do real.

— Luciano Mattuella

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