Por favor, Mr. Cole, manere no tweed.

01/12/2011

(Este texto é inspirado e segue a linha de raciocínio do ensaio publicado pelo amigo e colega Vitor Hugo Triska.)

Uma das melhores brincadeiras de 1º de abril que eu lembro (ou pelos menos uma das mais bem escritas) apareceu no ano passado no site CNET. Fazendo uma alusão ao seriado norte-americano Doctor Who, a página noticiava que um jovem havia sido preso pela polícia suíça ao tentar sabotar o acelerador de partículas LHC – o tal Sr. Cole alegava ter vindo do futuro com a missão de impedir o fim do mundo. Há uma frase na divertida “matéria” que considero o seu ponto alto: “Police said Mr Cole, who was wearing a bow tie and rather too much tweed for his age, would not reveal his country of origin” (Traduzo: “A polícia disse que Sr. Cole, que estava vestindo uma gravata borboleta e um pouco de tweed demais para a sua idade, não queria revelar seu país de origem”).

A psicanálise hoje em dia se assemelha muito ao nosso querido Mr. Cole: uma prática que, por ter esquecido a sua origem – um Herr Freud sempre sintonizado com seu tempo e com as fantasias que sustentavam a Cultura de que era contemporâneo -, acaba usando tweed demais e, por vezes, se tornando um discurso empoeirado e démodé’ (confira-se, por exemplo, http://www.youtube.com/watch?v=TBUFMYythJQ). Acreditando vir do futuro, confessa sua escravidão ao passado.

É preocupante, mas é o estado da arte.

Há um abismo que separa a época de Freud da nossa. Mas estamos em tempos de aprendermos a caminhar sobre abismos. Ser “fiel a Freud”, ou seja, filiar-se à palavra de ensino freudiana é justamente aprender a ser filho de seu (nosso) tempo e pensar a contemporaneidade a partir dela (de nós) mesma (mesmos). Ser herdeiro do saber psicanalítico quer dizer fazer como Freud, claro, mas entendamos: fazer como Freud quer dizer seguir o seu exemplo e permitir-se escutar o que há de recalcado na Cultura contemporânea, e não intervir igual a Freud, calar-se igual a Freud, interpretar igual a Freud. Parece simples, mas há aqueles que confundem.

Um psicanalista hoje em dia deve ser capaz de explicar por quê a Lady Gaga é um role model, por quê Game of Thrones tem que ser a narrativa sobre o triunfo de um bastardo e por quê os zumbis não são figuras de ficção, mas caminham nas ruas todos os dias (e trabalham das 9h-17h).

Um psicanalista hoje em dia deve cuidar pra não usar muito tweed.

— Luciano Mattuella

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4 Respostas to “Por favor, Mr. Cole, manere no tweed.”

  1. Anônimo Says:

    Luciano, “uma prática que esqueceu a sua origem” é um argumento que tenho usado bastante (tbm pra filosofia) mas que causa um mal estar terrível para muitos. cada vez que tentamos lembrar a origem das coisas fica na atmosfera dos relacionamentos um tom herético, que é justamente o que não deveria ter.
    muito legal este teu ponto pra falar de Freud, pois tem muito psicanalista que nem sabe o que era a viena de 1900. muito menos suspeitam dos estopins das guerras mundias, etc. acham que esses eventos estão fora da “estrutura” da psicanálise, do pensamento ou coisa parecida. com isso são incapazes de suspeitar de certas arbitrariedades. enfim, um comportamento irritante, sem perspectiva epocal, como se a teoria tivesse simplesmente brotado da cabeça do Freud.
    Um abracao e felicidades na tua estada na europa! estou contente em receber noticias tuas! do teu potencial a gente já sabia!
    Marcelo Leandro.

  2. Luciano Mattuella Says:

    Marcelo, meu amigo,

    Que prazer contar com a tua leitura!

    Eu sempre me lembro do Flickinger comentando o quanto a razão toma conta quando esquecemos os mitos de origem. Hoje em dia, mais do que nunca, acho essa uma advertência importante: o melhor modo de sabermos aonde ir, é ter acesso ao lugar de onde viemos.

    E, esse é o meu ponto principal: como fazer uma leitura da origem que não seja simplesmente agonia nostálgica? Ao meu ver, poder ler (e traduzir) a origem é justamente a chave para poder seguir adiante criando algo novo – ninguém se livra dos imperativos da origem sem assumir uma posição crítica.

    Um forte abraço pra ti. Espero te encontrar em breve!

    — Luciano

    • Anônimo Says:

      É verdade Luciano, e justamente esse exercício de esquecer da razão identitária é que possibilita que ela se torne tbm um mito, sem poder se dar conta disso.

      Depois do aprendizado com o Flickinger e o Ricardo estamos livres (salvos!) da agonia nostálgica!

      Um abraço,
      Marcelo.


  3. […] texto original de Triska está aqui e a réplica de Mattuella aqui. ComentáriosPowered by Facebook […]


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