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Os homens nucleares

15/03/2011

Apesar de ter sido filho legítimo do cientificismo, Freud valeu-se da sensibilidade clínica – esta possibilidade de ser surpreendido pela inquietante opacidade particular e singular, e não deixar-se ensurdecer pela transparência apaziguadora do universal e essencial – para colocar em questão os dogmas e as diretrizes de um modo de pensar vigente (à época e, certamente, ainda hoje). Assim, também lançar luzes àquilo que escapa ao senso comum, que faz tensão e sulca brechas no discurso científico, suposto lugar da verdade no contexto social (“É científico, é verdadeiro”). Pergunta-se, em carta enviada a Albert Einstein em 1932:

Mas toda a ciência não termina numa espécie de Mitologia? Parece-lhe diferente na física de hoje?

Ao mesmo tempo em que mantinha o rigor experimental na escrita, levando em conta as opiniões de seus antecessores, valorizando teses antes levantadas, Freud permitiu-se deixar atravessar pelo único da fala de cada um de seus pacientes. Para ele, não havia fórmula para um tratamento analítico: cada novo caso clínico implicava um deslocamento e um questionamento da posição do analista. Ou seja, um conselho que ainda hoje, mais do que nunca, é importante: não há garantias prévias a qualquer tratamento pela Psicanálise. O próprio do sujeito é resistir a toda forma de nomeação e conceitualização.

Esta possibilidade de explicitar a impotência do discurso científico em dar conta da vida, do cotidiano, do sofrimento humano, revela-se, parece-me, como um interessante norte para todo aquele que se debruçar sobre os textos ditos culturais de Freud (artigos como o “Mal-Estar na Cultura” e “O Futuro de uma Ilusão”, por exemplo).

Nestes escritos, vê-se muito bem os paradoxos daquilo que chamamos de técnica – toda a gama de recursos que o homem desenvolveu para dominar a natureza. O mesmo Freud que é entusiasta dos feitos da Racionalidade humana escreve frases como a seguinte, retirada ainda da carta a Einstein:

Há tempos imemoriais ocorre na humanidade o processo de evolução da cultura (…). A ela devemos o melhor daquilo que nos tornamos e uma boa parte daquilo de que sofremos.

Sutil e delicadamente matizada opinião freudiana: o acúmulo de conhecimento, realizado na cena do mundo como progresso técnico (e tecnológico), é ao mesmo tempo cura e origem de sofrimento. Assim, seria próprio da humanidade a construção dos abrigos nos quais refugiasse de suas próprias bombas. A cultura como espaço de criação mas também de destruição, como a filósofa Hannah Arendt escreve em seu belíssimo “Entre o passado e o futuro”:

No momento em que iniciamos processos naturais por conta própria – e a fissão do átomo é precisamente um destes processos naturais efetuados pelo homem – não somente ampliamos nosso poder sobre a natureza (…), mas, pela primeira vez, introduzimos a natureza no mundo humano como tal, obliterando as fronteiras defensivas entre os elementos naturais e o artefato humano nas quais todas as civilizações anteriores se encerravam.

Fico me perguntando qual seria a reação de Freud e de Hannah Arendt ao verem estas mesmas imagens que agora tenho a minha frente em meu computador, imagens de um mundo distante, mas ainda assim tão próximo: vejo um reator nuclear em chamas, prenunciando a invisível e destrutiva potência de um sol nascente.

– Luciano Mattuella


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