Os contornos apagados

16/03/2010

O assassinato do cartunista Glauco Villas Boas tem mobilizado os meios de comunicação e incitado toda espécie de teorização.

Aliás, sempre que acontece algo assim, é curioso como o corpo social se mobiliza na busca de uma suposta “verdade do fato”, uma busca pelo que “realmente aconteceu”. Trata-se de uma busca de justiça, claro, mas aí resta a pergunta: Abstendo-nos de uma espécie de “moral do rebanho” ou bom samaritanismo, por que somos levados a exigir essa justiça? O mesmo aconteceu com o caso Isabela, algum tempo atrás.

Tentando ir um pouco além, seria interessante – ao menos dentro do âmbito a que este blog se propõe – se pensássemos o motivo pelo qual este evento se tornou traumático para a nossa sociedade. Seguindo a linha de raciocínio que venho mantendo através dos posts, poderíamos perguntar: o que ocorre neste evento no mundo que faz com que nos sintamos interpretados por ele? Por que temos a impressão de que, por um breve instante, a reconfortante cortina foi aberta e expôs o obsceno da fantasia nos bastidores?

É um exercício interpretativo o que me proponho fazer aqui, nada mais.

Na verdade, eu gostaria de recortar apenas um traço do caso todo, uma pequena nuance. Sabe-se agora que Carlos Eduardo – suposto assassino – disse ter matado Glauco para “cumprir uma missão”, missão que lhe foi atribuída por Deus. Ora, os psicanalistas com certeza não conseguiram se furtar de lembrar do famoso Presidente Schreber, conhecido caso clínico de Freud sobre a paranóia: Schreber acreditava ter sido escolhido por Deus para iniciar uma nova linhagem de homens na Terra. O próprio Deus fertilizaria Schreber através de feixes nervosos. O caso é bem complexo, mas vale muito a pena ser lido.

Não estou – de forma alguma – diagnosticando Carlos Eduardo. Fazer diagnóstico fora de transferência (fora da contingência da relação analista-analisando) é como julgar um livro pela sua capa: simplesmente não funciona (apesar de alguns profissionais da área psi adorarem capas acetinadas). Fato é que também Schreber julgava ter uma missão na Terra.

Mas o que isso tem a ver com o efeito traumático de que falei? Ora, sabemos que os eventos psicóticos (paranóicos, no caso) fascinam não porque são tão diferentes do que estamos acostumados, mas precisamente porque expõem na cena do mundo algo da ordem da fantasia de todos nós. O bizarro que reconhecemos na psicose é aquele que está domesticado dentro de nós pelo força do recalque (é a operação de recalque que permite a manutenção do contorno que separa o mundo “externo” do “interno”).

Em certa medida, todos acreditamos estar cumprindo uma missão, todos tomamos como referência para nossas escolhas de vida certos ideais – primeiramente ideais familiares, posteriormente, culturais. A pergunta “O que querem de mim?” é central para a estruturação da subjetividade, como pode-se ler no ensaio Introdução ao Narcisismo, publicado em 1914 por Freud. Precisamos do outro para nos constituirmos. Encontramos nosso lugar no mundo, em um primeiro momento, através do futuro que nossos pais projetam para nós. Distanciar-se destes ideais e poder construir seu próprio desejo é um árduo processo (que, na maior parte das vezes, é operado ao final da adolescência).

Entretanto, estes ideais que servem de referencia restam recalcados, em geral, ou seja, têm efeito no mundo através de seus efeitos, não por eles mesmos. É preciso contar a sua própria história várias vezes para se ter uma pálida idéia da missão que se está tentando cumprir.

O que é assustador no caso da morte de Glauco é que a missão de Carlos Eduardo não só estava exposta na cena do mundo como era palpável. E pior: realizável.

— Luciano Mattuella


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Uma resposta to “Os contornos apagados”

  1. Alexandre Says:

    Belo texto.


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