Archive for fevereiro, 2010

Have you met Ted?

21/02/2010

No meio acadêmico, costuma-se desprezar a cultura pop em sua potência interpretante do Imaginário Social. O “professor” tem que referenciar música clássica, autores tradicionais, pintores renomados. Essa, por falta de nome melhor, elitização da Academia é um mal que cega os pensadores de hoje em dia para o mal-estar de nossa civilização, para os sintomas que posicionam os indivíduos no mundo e estabelecem laços sociais.

Os consultórios particulares também, por sua vez, estão povoados de psicanalistas que não fazem questão alguma de partilhar das referências culturais de seus pacientes. Este fenômeno é sintomático da alienação do terapeuta à teoria, à uma imagem de psicanalista ideal. Escuta-se demais a teoria e de menos o discurso singular dos pacientes.

Estar atento às manifestações culturais é parte essencial do trabalho de qualquer psicanalista. Ignorar isso é correr o risco de empreender junto ao paciente um trabalho pedagógico (no mal sentido da palavra), em que o analisando tem de adequar-se a um ideal social – delirante – do analista, ao invés de escutar a sua verdade pessoal, estruturada na ficção que construiu para si de sua vida.

A ironia é justamente esta: tentar fugir da alienação é, na maior parte das vezes, alienar-se ainda mais.

Não quero entrar em rigores conceituais neste post, mas proponho que aquilo que Adorno chamava de cultura de massa é um material valiosíssimo que tem sido deixado de fora do meio de publicações acadêmicas. O que é uma pena, pois justamente a música que escutamos no carro, os filmes que vemos nos finais de semana, as revistas que nos acompanham no ônibus, é que podem dar testemunho de como nos localizamos no mundo e por onde circulam nossos desejos mais íntimos.

Um bom exemplo para ilustrar esta discussão é o seriado americano How I Met Your Mother, que vai ao ar aqui no Brasil pela emissora HBO, criada por Carter Bays e Craig Thomas, em 2005.

Trata-se de um sitcom – uma “comédia de situações” supostamente leve – que narra a história de cinco jovens em seus encontros e desencontros com a vida: Ted, o personagem central, é um arquiteto recém-formado com uma visão romantizada do mundo; Robin, uma apresentadora de noticiários televisivos (a que ninguém assiste); Lily, uma professora de jardim-de-infância e artista frustrada; Marshall, marido de Lily, advogado em início de carreira que sonha em tornar-se ambientalista (mas trabalha para uma grande corporação); e Barney, um womanizer que tem como lema a frase “Suit up!” – algo como: “Vista seu terno!”.

Um grande diferencial do seriado é sua estrutura narrativa. Os episódios começam, em geral, no ano 2030, quando um Ted mais velho conta para seu casal de filhos adolescentes a história de como, enfim, conheceu a mãe deles. Estamos já na quinta temporada de How I Met Your Mother e a esposa de Ted ainda nem apareceu no seriado. Portanto, a história dos cinco personagens é toda contada em flashbacks entrecortados por comentários – em geral amargurados e irônicos – do “Ted do futuro”.

Se levarmos em conta aquilo que a psicanálise ensina, que todo laço social, ou seja, toda a relação que estabelecemos com nossos pares e com nossos grupos de convivência, se estabelece não por gostos semelhantes, mas pelo compartilhamento de um sintoma em comum – inconsciente, portanto -, podemos dizer que Ted, Robin, Marshall, Lily e Barney estão unidos a partir do momento em que elaboram conjuntamente a ferida narcísica de não terem dado conta de realizarem aquilo que julgavam que deveriam.

Em certo momento, Ted abre mão da carreira de arquiteto para dar aula em uma universidade, o que ele encara como uma derrota pessoal. Marshall tem que contentar-se em ser advogado de uma grande empresa, e não alguém que luta pelo meio-ambiente, como era seu desejo aos 15 anos de idade. Lily chega a participar de uma bolsa de estudos para artistas iniciantes mas percebe que não tem vocação para as artes-plásticas.

HIMYM (sigla pela qual o seriado é conhecido) alterna momentos cômicos geniais com situações de uma tristeza e desolação que só comédias as ótimas conseguem engendrar – como o diálogo abaixo, de um episódio chamado The Leap (“O salto”):

Lily:
– You can’t design your life like a building. It doesn’t work that way. You just have to live and it will design itself.
Ted:
– I should just do nothing?
Lily:
– No. Listen to what the world is telling you to do and… take the leap.

[Lily:
– Você não pode projetar sua vida como um prédio. Não funciona deste jeito. Você tem que viver e tudo vai se projetar por si.
Ted:
– Eu não devo fazer nada?
Lily:
– Não. Escute o que o mundo está dizendo para você e… dê o salto.]

Interessante é que todo a série é justamente estruturada sobre a função do acaso na vida de Ted – e de como ele, frente ao não-sabido, preferiu dar o salto à ficar estagnado. Se tais e tais situação não tivessem fugido do controle, ele não teria conhecido a “mother”. E não poderia estar contando aos seus filhos a história que agora lhes pertence e na qual têm que se inserir e carregar como uma herança.

Um dos grandes trunfos de How I Met Your Mother, uma suposta série boba americana – produto da cultura de massa -, é mostrar como em nossa imaginário popular estamos condicionados a dar conta de um desejo que é, na maioria das vezes, um ideal impossível. E, principalmente, de como é possível fazer resistência a este ideal e, por isso mesmo, construir uma história singular, única, para ser passada adiante através da narrativa.

— Luciano Mattuella


O célebre grande irmão

06/02/2010

Mesmo aqueles que não acompanham o Big Brother Brasil 10 não conseguirem ficar completamente alheios às repercussões da participação da “sister” Tessália, conhecida no meio virtual como a “Twittess”. Foi a primeira vez que os brasileiros assistiram a um BBB com o recurso do Twitter para publicar suas opiniões. Formou-se, rapidamente, um movimento chamado #foratessália, palavra que ocupou por vários dias os trending topics (os assuntos mais comentados pelos usuários do serviço eletrônico) do Twitter no Brasil.

Quando finalmente o povo teve chance de votar contra a permanência de Tessália na casa, foi fulminante. A moça sofreu uma expressiva rejeição do público e saiu do jogo. Em entrevista, alguns dias depois de sua saída, Tessália disse que não se surpreendeu com o movimento #foratessália e até mesmo já esperava por isso, que entendia como algo que faz parte do meio virtual. Parecia estar sendo sincera.

Gerou muita polêmica o fato de Tessália se utilizar de um script no Twitter, um recurso para conseguir mais followers (seguidores de seu perfil virtual – sua timeline) de modo rápido. E ela foi bem-sucedida. Muito bem. Logo, ainda antes da participação no BBB, veio o convite para que Tessália fizesse um ensaio sensual na revista VIP – onde recebeu definitivamente o apelido Twittess (um neologismo que junta as palavras “twitter” e “miss”).

Há algo aí para se pensar, mas, antes eu gostaria de apresentar um segundo fato.

No caderno Kzuka – direcionado, pelo que entendo, ao público adolescente – da Zero Hora de sexta-feira passada, dia 5 de fevereiro, foi perguntado a uma menina de 16 anos quem ela gostaria de ser caso não fosse ela mesma. A resposta: “uma celebridade qualquer”. Reparem na formação da frase: não é “qualquer celebridade”, mas sim “uma celebridade qualquer“.

A pergunta do jornal é muito parecida com aquela que se faz às crianças pequenas: “O que tu queres ser quando crescer?”. É uma questão complexa. A resposta, em geral, explicita muito mais o desejo narcísico do pais do que o real interesse da criança, afinal é no imaginário dos pais que habitam os primeiros ideais com os quais as filhos sentem-se impelidos a se identificar.

Freud já comentava, em 1914, sobre esse futuro antecipado que os pais conjugam para a criança: que ela consiga realizar tudo aquilo que não conseguimos. E este é um investimento saudável, pois lança o sujeito na dialética do desejo próprio. Com o tempo, a criança distancia-se do imaginário dos pais para procurar pelos ideais que estão inscritos na Cultura. Esta passagem do desejo dos pais para o desejo da Cultura ocorre, de praxe, na adolescência, momento em que a pergunta “o que vais ser quando crescer?” é re-atualizada, em geral pelo vestibular – uma espécie de concurso de entrada na vida adulta.

O que tanto Tessália quanto a menina entrevistada pelo Kzuka denunciam de forma tão evidente? O que elas nos dão a ver do Imaginário Social em que estamos inseridos? Adio um pouco a resposta para citar uma pequena passagem do livro “The End of Dissatisfaction?”, de Todd McGowan, sobre o qual falei no post anterior:

“All of the knowledge that the father once embodied and passed on to the son has become useless because (…) success doesn’t require knowledge today. The basis for success has become celebrity, not knowledge.”

[Todo o conhecimento que o pai uma vez encarnava e passava adiante para o filho se tornou inútil porque o sucesso não requer mais conhecimento hoje em dia. A base para o sucesso tornou-se celebridade, não conhecimento.]

Pai, no discurso psicanalítico, é um conceito multifacetado que vai muito além da figura de carne-e-osso do progenitor. No contexto da citação acima, a palavra pai pode ser substituída por tradição, no sentido de um saber acumulado e transmitido de geração em geração (diferente de tradicionalismo, que é a tradição colocada no museu, sem possibilidade de dinamismo).

O que salta aos olhos na frase da menina de 16 anos é que nem importa mais qual celebridade ela admira, ou seja, não há mais uma identificação a um traço de sucesso ou de reconhecimento: o que é almejado é o lugar de celebridade. Ser reconhecida não necessariamente por mérito, mas pela simples existência. É algo bastante sintomático desta sociedade que McGowan apresenta no livro. Sintomático, eu digo, porque traz à luz algo da estrutura, do funcionamento implícito, do contexto social em que vivemos.

E nem se trata mais de uma grande celebridade, mas de uma celebridade qualquer – celebridade passa a ser uma moeda cotada pelo número de amigos no Facebook, no Orkut, de seguidores no Twitter… Não se está mais falando de um ideal impossível de ser atingido, mas de um role model que pode facilmente ser seguido – um ideal, se assim se pode dizer, horizontal. O vizinho mais sortudo.

Assim, tanto a Tessália quanto a garota do Kzuka, cada uma a seu modo, nos permitem entender o que acontece por debaixo do edredon do nosso contexto social.

— Luciano Mattuella


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