"Everything in its right place"

23/01/2010

No último encontro de nosso grupo de estudos sobre Subjetividade Contemporânea discutimos os primeiros parágrafos do excelente Experiência e Pobreza, de Walter Benjamin. Uma das frases que causou mais discussão foi a seguinte: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”. Já citei esta passagem no post anterior, mas gostaria de revisitá-la, agora desde um outro ponto de vista.

Se observarmos atentamente, neste texto Benjamin se coloca a mesma questão que preocupou Freud em 1920, no artigo Para Além do Princípio do Prazer: como podemos explicar que os sobreviventes da Primeira Guerra tenham voltado dos campos de batalha mais pobres em experiências, não mais ricos? O lógico seria que, após um evento de tamanha intensidade emocional, aqueles combatentes voltassem para suas famílias repletos de histórias para contar, de lições para transmitir às futuras gerações. Não foi o que aconteceu. Fecharam-se em um profundo silêncio, resignados a reviver em seus sonhos uma e outra vez o evento traumático da morte de um amigo, uma amputação, o odor da fumaça das granadas.

Experiência, para Benjamin, é o estatuto ao qual um fato – uma vivência – pode ser elevado quando narrado desde a posição subjetiva singular e intransferível daquele que o presenciou. Ou seja, a função narrador é aquela através da qual a rugosidade do mundo adquire características de uma história a ser contada. O ouvinte deixa de ser inocente quando escuta uma história, torna-se testemunha de algo, ou seja, sua presença enquanto depositário de uma enunciação o responsabiliza pelo narrado (aliás, diga-se de passagem, posição típica do psicanalista).

Freud diagnostica os tempos pós-Primeira Guerra como tingidos por um sentimento ao qual ele dá o nome de desilusão. Dentro deste contexto, desilusão significa a impossibilidade de a humanidade, dada a crueza e o sem-sentido das atrocidades dos campos de batalha, fazer uma aposta no futuro, ou seja, sustentar uma fantasia de futuro. Em outros termos, para Freud, a Primeira Guerra teve como principal vítima a própria dimensão de futuro. Tornou-se impossível dar consistência à uma idéia de futuro.

Não seria disso que Benjamin estaria falando? Ora, um dos motivos para não poder sustentar uma fantasia viável de futuro é a impossibilidade de resgatar do passado aquela palavra de transmissão que está em jogo em todo ato narrativo. Quando a história dos antepassados se torna um mero jogo causal, perde-se a sua potência simbólica de sustentação de um lugar no mundo. Ocorre o que Benjamin chama de desvinculação do presente com relação ao patrimônio cultural.

E, frente a este vazio de referência, acaba-se caindo em uma das duas piores alternativas: ou nos vinculamos cegamente a um passado que não nos pertence e realizamos inconscientemente o desejo de outros (nos colocamos como meros coadjuvantes), ou nos distanciamos de tal modo de nossa história que nos tornamos caricaturas de nós mesmos (tão somente figurantes de um roteiro escrito por outro).

Muitos filmes de ficção-científica exploram estes cenários de aridez subjetiva absoluta, como, por exemplo, a primeira incursão no cinema de George Lucas, o surpreendente file THX 1138, de 1971, ou mesmo o mais recente The Island, de 2005 – para citar apenas dois de inúmeros. Nestes filmes, a sociedade desenvolveu-se de tal modo que o paradigma da pureza e da limpeza rege absolutamente a vida cotidiana, ao preço da perda da subjetividade e da singularidade (primeiras vítimas em qualquer regime totalitário). Tudo em seu respectivo lugar. Everything in its right place, como na música da banda Radiohead.

O que se perde, numa sociedade desiludida – uma sociedade mecanizada e burocratizada-, é a possibilidade da remissão a uma estilo, ou seja, a capacidade de responsabilizar-se pela experiência dos antepassados de forma a, de modo singular, poder inserir-se nesta história e transmitir adiante algo que tenha valor simbólico.

— Luciano Mattuella


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