Elementar, meu caro… Veríssimo?

19/01/2010

Em sua coluna do dia 14 de janeiro, Luis Fernando Veríssimo se mostra incomodado pela escolha de Robert Downey Jr. para viver o detetive Sherlock Holmes nos cinemas, afirmando que se trataria de um caso de miscastingescolha errada de ator para um papel. A sua opinião gerou algumas respostas e críticas, como esta do jornal CineSemana. Entretanto, no próprio texto Veríssimo afirma não ter visto o filme ainda, marcando ainda mais o tom meramente humorístico e provocativo da coluna.

Interessante que este termo – miscasting – me remeteu, por um motivo ao qual só agora tenho acesso, a um livro da psicanalista Maria Rita Kehl intitulado O tempo e o cão. Nesta obra, Kehl faz uma análise aprofundada do mal-estar contemporâneo, situando o lugar da depressão nos dias de hoje. Não se trata da depressão como o distúrbio clínico psiquiátrico, caracterizado por apatia, falta de apetite, distúrbios de sono, etc., mas sim da depressão como condição mesma da subjetividade contemporânea. O depressivo é aquele que não consegue atribuir sentido ao mundo, que tem a sensação de que nada lhe diz respeito, que não está implicado em nenhum dos discursos atuais, em nenhuma das narrativas que atribuem um lugar social para alguém. É um fora-do-mundo, por assim dizer. Um outcast.

É conhecida a afirmação de que, no mundo de hoje, os ideais vieram terra abaixo. Cada discurso social gera um Imaginário que dá consistência para o mundo, que tinge a realidade com os matizes dos anseios e fantasias herdados do passado e re-significados no contexto presente. Os ideais sendo, portanto, aquelas figuras que dariam conta de responder às demandas de uma época e que serviriam de referência. A questão que se coloca, entretanto – e também por isso alguns autores falam do fim da história – é que a contemporaneidade carece de um discurso, de uma narrativa organizadora.

Para Maria Rita Kehl, a depressão é um sintoma social, ou seja, uma espécie de enfermidade que denuncia, à sua maneira, algo da ordem inconsciente que opera na cena do mundo. O sintoma, em psicanálise, ocupa o lugar do mensageiro que é morto em lugar do remetente: é um ponto de não-saber (“não sei porque faço/sinto sempre isso!”) que aponta para um mecanismo inconsciente que ultrapassa a racionalização. Logo, a sensação de não pertencer ao mundo, de não ter lugar no mundo – sentimento de estar exilado em sua própria pátria -, típica do discurso do depressivo, diz de uma fragilização da própria tessitura do Imaginário Social contemporâneo. Todos nós, portanto, estamos minimamente identificados à figura do depressivo.

E aqui reencontramos Luis Fernando Veríssimo: o miscasting, ter sido uma péssima escolha para um papel que lhe foi atribuído, é a própria marca do depressivo. É a sensação de que só os outros desempenham muito bem suas partes, seguem tranquilamente um roteiro, improvisam ali onde é necessário, fazem parte de um grande enredo. Entretanto, Maria Rita Kehl parece avisar que devemos nos perguntar, atentos às demandas dos depressivos, se há ainda um roteiro que nos sirva de referência.

Acredito que esta questão está na base de minha hipótese de que a discurso social contemporâneo não é capaz de sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se não podemos olhar para trás e nos apropriar de nossa história – e dos nosso antepassados -, não poderemos nos colocar no lugar daqueles que transmitem algo às futuras gerações. Ou, como se interroga Walter Benjamin, no artigo Experiência e Pobreza: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”

— Luciano Mattuella


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2 Respostas to “Elementar, meu caro… Veríssimo?”

  1. Gauti Says:

    Kehl é genial, usei esse livro na cadeira de audiovisual e dá pra falar de muita coisa sob o ponto de vista dela, mas quase ninguém da comunicação conhece, infelizmente.

    Genialidade teu texto!

    Abraço!

  2. luciano.mattuella Says:

    Sim! Gosto muito da leitura que ela faz da subjetividade contemporânea. Tem outro livro dela, “Sobre Ética e Psicanálise”, que me parece essencial pra qualquer um que se proponha a pensar o pós-modenismo, ultra-modernismo, ou como quiserem chamar.

    Abraço!


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