Por um método de interpretação da cultura

16/01/2010

A psicanálise entende de modo bem claro que o efeito ditotraumático de um evento não se deve somente ao caráter de excesso de afeto associado a determinado fato, mas também à flagrante constatação de que algo que devia ter ficado no domínio da fantasia – dos sonhos, das antecipações pessimistas, dos anseios – se realizou na cena do mundo.

Esta idéia é exposta de modo flagrantemente simples pelo filósofo Slavoj Zizek, em seu livro Bem-vindo o deserto do real:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Assim, todo evento traumático já está anunciado desde muito antes em nível latente, e é esta representação domesticada pela razão que adquire matizes de excesso quando irrompe na vida vivida. A trauma não é a falta, mas o excesso de sentido que desfaz as referências simbólicas que utilizamos para organizar nossas vidas em uma narrativa mais ou menos consistente.

É exatamente por isso que elemento que eleva um acontecimento ao estatuto de traumático é a fragilização – impotência – da palavra em sua potência ordenadora e organizadora. Em termos simples: acontece uma perda de consistência da malha simbólica. Estabelece-se uma espécie de fobia à palavra. Isto equivale a dizer que o trauma tem como efeito o surgimento do desamparo do homem frente às intempéries do mundo em sua rugosidade fundamental, seu sem-sentido de base, uma vez que lhe faltam os referências simbólicos usuais.

O que vemos como marca da contemporaneidade é uma recusa completa a suportar a face estrangeira da tradição – algo que Walter Benjamin já havia notado de modo brilhante ao afirmar que“a arte de narrar está em vias de extinção”, ou seja, de que não temos mais o recurso ao saber que chegaria do passado até o presente conduzido pela palavra.

— Luciano Mattuella


Anúncios

Uma resposta to “Por um método de interpretação da cultura”


  1. […] meu primeiro ensaio publicado neste blog (no dia 16 de janeiro de 2010), propus um início de reflexão sobre a […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: