Nós e nossos frágeis fundamentos

16/01/2010

No post anterior fiz a proposta de um método para a interpretação da cultura. Uma proposta que é, antes, a proposição de uma tese: um evento se torna traumático na medida em que encontra ressonância em fantasias previamente constituídas. O pano de fundo para esta tese é a suposição – aceita como um dos pilares da psicanálise – de que substituímos o mundo em sua concretude por uma cenário particular de imagens e conceitos. O único acesso que temos ao que chamamos de realidade se dá, em última instância, através das fantasias que fazemos desta realidade. Este mecanismo é a tal ponto eficaz que podemos dizer que a própria realidade se estrutura como uma ficção.

Este substituição do mundo por uma versão, tão evidente nas sessões particulares de pessoas que buscam atendimento psicanalítico, também se constitui em nível mais amplo, na malha social. Cada época produz um imaginário que a sustenta, uma rede de referências simbólicas e imaginárias que estabelece lugares de valor, ideais e desejos. A questão é que este arcabouço fantasístico nem sempre é facilmente apreendido – por vezes (como na escuta de um paciente) é necessário um certo distanciamento para que se possa perceber a estrutura dos bastidores.

Um dos espaços privilegiados para a percepção de como uma época se sustenta fantasisticamente é aquele da produção de obras culturais como cinema, literatura, artes plásticas, blogs… O ato criativo se caracteriza justamente por isto, pela capacidade de dar forma a algo que resta como um não-dito social. Como mesmo o artista Marcel Duchamp já dizia, todo ato que se julgue criador traz, em sua própria realização, um hiato entre a intenção e a concretização – falta um elo na corrente, não se pode resumir a obra às intenções do seu autor. Este elo faltante é justamente, acredito, o ponto em que o não-dito da Cultura (com letra maíscula, para definir o corpus de fantasias de uma época) encontra vazão através de uma obra. E inteirar-se deste não-sabido é angustiante, é perturbador.

Assim, retomando a questão acerca dos eventos traumáticos, podemos dizer que qualquer evento que aconteça no mundo e que nomeie – explicite – este elo faltante na corrente pode ser entendido como um trauma. Acredito que é isto que esteja acontecendo agora com relação ao modo como o mundo todo trata do terrível terremoto que assolou o Haiti há poucos dias. Explico.

Se pararmos para pensar, um dos temas mais comuns nos filmes blockbuster das duas últimas décadas foi aquele que é conhecido no meio do cinema como cenário pós-apocalíptico. É o cenário que podemos encontrar em vários dos chamados filmes-catástrofe como Impacto Profundo, O Dia Depois de Amanhã, Armageddon e, mais recentemente, 2012. A natureza, em sua sublime magnitude, voltando-se contra o homem e destruindo suas obras. Se em uma primeira leitura o assustador do terremoto no Haiti pareça ser a magnitude sem precedência do acontecimento, quando olhamos com mais calma para as produções culturais de nossa época percebemos que aterrador mesmo é vermos se concretizando na cena do mundo aquilo que só suportávamos enquanto ficasse apenas no registro imaginário e fantasístico.

Ao explicitar no mundo algo que deveria ter restado como fantasia, o terremoto no Haiti levantou por alguns segundo o véu que torna possível nossa relação com a excessivamente ofuscante luz do sem-sentido fundamental da realidade.

— Luciano Mattuella


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