Archive for janeiro, 2010

A grama do vizinho e um golpe de sorte

31/01/2010

Descobri, recentemente, o trabalho de Todd McGowan, professor na Universidade de Vermont. Seguindo uma linha de pensamento muito semelhante à do filósofo Slavoj Zizek, McGowan procura entender os bastidores da sociedade contemporânea através do estudos de fenômenos culturais – seu forte é a análise crítica de filmes.

Em seu impressionante livro “The End of Dissatisfaction? – Jacques Lacan and the Emerging Society of Enjoyment“, McGowan centra a atenção em uma mudança estrutural radical ocorrida nas últimas décadas: a passagem de uma sociedade da proibição (prohibition society) para uma sociedade do imperativo do gozo (society of command of the enjoyment). A discussão aberta pelo autor é muito longa e repleta de nuances importantes, mas a tese central é a de que se passou de um contexto social em que o gozo era proibido – abdicava-se do gozo pessoal em prol da manutenção de uma suposta estrutura social – para outro em que se é “obrigado” a gozar – importa o quanto cada um consegue se adequar a um ideal social de felicidade.

A questão agora é uma demanda de que sejamos felizes. O complicado, ainda seguindo a linha de raciocínio do autor, é que não temos referências que nos ajudem a entender o que é isso, ser feliz. Trata-se de uma ordem vazia de conteúdo, uma espécie de voz sem significado. Este problema não é novo: em seu artigo “O Mal-Estar na Civilização”, Freud já dizia que o homem é capaz de abrir mão de diversas coisas em troca de uma ilusão de felicidade. Especialmente daquilo que lhe é essencial: sua subjetividade (sua capacidade de resistência a um discurso hegemônico).

A série de televisão Mad Men, da rede HBO, – sobre a qual pretendo escrever com mais calma em breve – mostra claramente esta transição de que fala McGowan: aos publicitários (os homens da Madison Av.) não cabe mais demonstrar a utilidade e a praticidade de um produto: é necessário vender uma imagem. Já no primeiro episódio isto é evidente: quando a revista Reader’s Digest publica um artigo mostrando os malefícios do cigarro, a agência Sterling-Cooper, que trabalha com a conta Lucky Strike, opta por uma estratégia hoje em dia óbvia: não vendamos o produto, mas vendamos a imagem de alguém que corre riscos, que vive a vida no limite. Problema resolvido: o cigarro faz mal? Sim. Mas fumar mostra o quanto o consumidor é alguém que vive plenamente a vida. Em outras palavras: que goza a vida até o fim.

É este o fenômeno que explica, em parte, o sucesso de marcas como a Apple: ao comprar um iPod, não se está comprando apenas um tocador de músicas, mas sim toda uma imagem de uma pessoa “descolada”, atualizada e minimalista. Os comerciais da Apple batem muito forte nesta tecla da identificação com a marca: I’m a mac é o slogan utilizado. Sou um mac. Identifico-me à uma imagem de felicidade.

Percebe-se que o pano de fundo é uma questão de filiação, mas uma filiação não mais regulada através da presença de um pai em comum, mas sim através da semelhança com os irmãos. Os adesivos que vêm junto com os produtos da Apple marcam isso de modo muito forte: quando coloco no meu carro uma maçãzinha branca, estou mostrando para o mundo algo da minha (suposta) identidade.

Acredito que a importante sutileza nessa questão toda é saber interpretar estes fenômenos sem cair na armadilha do julgamento moral superficial. Discordo dos autores que têm um ponto de vista pessimista com relação ao mundo de hoje. Acho mais produtivo procurar entender as engrenagens por detrás do discurso vigente para, desta forma, poder sustentar um crítica – se é que ela é cabível – coerente.

Mas, de volta ao livro de McGowan. O que caracteriza, para o autor, o discurso social contemporâneo é este imperativo do gozo pleno, gozo total, um gozo que só pode ser atingido em nível fantasístico, uma vez que não há objeto no mundo que possa ser comprado/adquirido/incorporado de modo a satisfazer plenamente o homem. Este é grande paradoxo dos nossos tempos: é exigido que aproveitemos ao máximo a vida, mas a vida ela mesma não se entrega por completo. McGowan escreve isso de modo bem claro:

The fundamental thing to recognize about the society of enjoyment is that in it the pursuit of enjoyment has misfired: the society of enjoyment has not provided the enjoyment that it promises.

[O fundamental que temos que reconhecer sobre a sociedade do gozo é que nela a busca pelo gozo falhou: a sociedade do gozo não ofereceu o gozo que ela prometeu.]

O que de modo algum nos impede de tentarmos encontrar este gozo prometido. Aliás, provoca-nos ainda mais.

Consequência disso é que o reino da fantasia – das imagens -, que antes ocupava o lugar de “imagina se…”, agora aparece na própria cena do mundo, encarnado em role models, sejam eles celebridades ou mesmo o vizinho (cuja grama é mais verde). Perde-se a referência em um ideal construído de geração em geração, que opera pela via da transmissão de um saber que pode ser herdado. Um ideal que antes se encontrava numa linha vertical – da ancestralidade – agora coabita o nosso mundo, pode ser a pessoa ao lado.

Minha relação com o ideal agora não é uma remissão a uma ausência, mas, sim, ao ideal encarnado, a uma presença sufocante. As imagens de felicidade estão por todos os lados, fazendo parecer que é fácil ser feliz, seja isso o que for. O que faz com que um traço marcante da sociedade contemporânea seja um vida vivida sempre no presente: é preciso desfrutar ao máximo o momento, viver intensamente o agora. Aliás, este “conselho” (viva o momento em sua intensidade máxima) é chavão em literatura de auto-ajuda – o complicado, e sabe-se que o efeito depressivo dos livros de auto-ajuda pode ser devastador, é que este imperativo do gozo completo coloca o sujeito em uma situação impossível. Não há como viver tudo, ao máximo, em sua plenitude.

E é aqui que a leitura de McGowan me fez mais sentido, pois me ajuda a sustentar a minha tese de que o imaginário contemporâneo não consegue sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se o imperativo do gozo aponta sempre para o agora, sempre para o presente, é impossível um distanciamento suficiente do mundo – enquanto se está ensandecido atrás do gozo, não se consegue fazer pausas para pensar – que permita ser possível a construção de uma fantasia do porvir.

No final das contas, pode tudo estar condicionado a um golpe de sorte.

— Luciano Mattuella


"Everything in its right place"

23/01/2010

No último encontro de nosso grupo de estudos sobre Subjetividade Contemporânea discutimos os primeiros parágrafos do excelente Experiência e Pobreza, de Walter Benjamin. Uma das frases que causou mais discussão foi a seguinte: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”. Já citei esta passagem no post anterior, mas gostaria de revisitá-la, agora desde um outro ponto de vista.

Se observarmos atentamente, neste texto Benjamin se coloca a mesma questão que preocupou Freud em 1920, no artigo Para Além do Princípio do Prazer: como podemos explicar que os sobreviventes da Primeira Guerra tenham voltado dos campos de batalha mais pobres em experiências, não mais ricos? O lógico seria que, após um evento de tamanha intensidade emocional, aqueles combatentes voltassem para suas famílias repletos de histórias para contar, de lições para transmitir às futuras gerações. Não foi o que aconteceu. Fecharam-se em um profundo silêncio, resignados a reviver em seus sonhos uma e outra vez o evento traumático da morte de um amigo, uma amputação, o odor da fumaça das granadas.

Experiência, para Benjamin, é o estatuto ao qual um fato – uma vivência – pode ser elevado quando narrado desde a posição subjetiva singular e intransferível daquele que o presenciou. Ou seja, a função narrador é aquela através da qual a rugosidade do mundo adquire características de uma história a ser contada. O ouvinte deixa de ser inocente quando escuta uma história, torna-se testemunha de algo, ou seja, sua presença enquanto depositário de uma enunciação o responsabiliza pelo narrado (aliás, diga-se de passagem, posição típica do psicanalista).

Freud diagnostica os tempos pós-Primeira Guerra como tingidos por um sentimento ao qual ele dá o nome de desilusão. Dentro deste contexto, desilusão significa a impossibilidade de a humanidade, dada a crueza e o sem-sentido das atrocidades dos campos de batalha, fazer uma aposta no futuro, ou seja, sustentar uma fantasia de futuro. Em outros termos, para Freud, a Primeira Guerra teve como principal vítima a própria dimensão de futuro. Tornou-se impossível dar consistência à uma idéia de futuro.

Não seria disso que Benjamin estaria falando? Ora, um dos motivos para não poder sustentar uma fantasia viável de futuro é a impossibilidade de resgatar do passado aquela palavra de transmissão que está em jogo em todo ato narrativo. Quando a história dos antepassados se torna um mero jogo causal, perde-se a sua potência simbólica de sustentação de um lugar no mundo. Ocorre o que Benjamin chama de desvinculação do presente com relação ao patrimônio cultural.

E, frente a este vazio de referência, acaba-se caindo em uma das duas piores alternativas: ou nos vinculamos cegamente a um passado que não nos pertence e realizamos inconscientemente o desejo de outros (nos colocamos como meros coadjuvantes), ou nos distanciamos de tal modo de nossa história que nos tornamos caricaturas de nós mesmos (tão somente figurantes de um roteiro escrito por outro).

Muitos filmes de ficção-científica exploram estes cenários de aridez subjetiva absoluta, como, por exemplo, a primeira incursão no cinema de George Lucas, o surpreendente file THX 1138, de 1971, ou mesmo o mais recente The Island, de 2005 – para citar apenas dois de inúmeros. Nestes filmes, a sociedade desenvolveu-se de tal modo que o paradigma da pureza e da limpeza rege absolutamente a vida cotidiana, ao preço da perda da subjetividade e da singularidade (primeiras vítimas em qualquer regime totalitário). Tudo em seu respectivo lugar. Everything in its right place, como na música da banda Radiohead.

O que se perde, numa sociedade desiludida – uma sociedade mecanizada e burocratizada-, é a possibilidade da remissão a uma estilo, ou seja, a capacidade de responsabilizar-se pela experiência dos antepassados de forma a, de modo singular, poder inserir-se nesta história e transmitir adiante algo que tenha valor simbólico.

— Luciano Mattuella


Elementar, meu caro… Veríssimo?

19/01/2010

Em sua coluna do dia 14 de janeiro, Luis Fernando Veríssimo se mostra incomodado pela escolha de Robert Downey Jr. para viver o detetive Sherlock Holmes nos cinemas, afirmando que se trataria de um caso de miscastingescolha errada de ator para um papel. A sua opinião gerou algumas respostas e críticas, como esta do jornal CineSemana. Entretanto, no próprio texto Veríssimo afirma não ter visto o filme ainda, marcando ainda mais o tom meramente humorístico e provocativo da coluna.

Interessante que este termo – miscasting – me remeteu, por um motivo ao qual só agora tenho acesso, a um livro da psicanalista Maria Rita Kehl intitulado O tempo e o cão. Nesta obra, Kehl faz uma análise aprofundada do mal-estar contemporâneo, situando o lugar da depressão nos dias de hoje. Não se trata da depressão como o distúrbio clínico psiquiátrico, caracterizado por apatia, falta de apetite, distúrbios de sono, etc., mas sim da depressão como condição mesma da subjetividade contemporânea. O depressivo é aquele que não consegue atribuir sentido ao mundo, que tem a sensação de que nada lhe diz respeito, que não está implicado em nenhum dos discursos atuais, em nenhuma das narrativas que atribuem um lugar social para alguém. É um fora-do-mundo, por assim dizer. Um outcast.

É conhecida a afirmação de que, no mundo de hoje, os ideais vieram terra abaixo. Cada discurso social gera um Imaginário que dá consistência para o mundo, que tinge a realidade com os matizes dos anseios e fantasias herdados do passado e re-significados no contexto presente. Os ideais sendo, portanto, aquelas figuras que dariam conta de responder às demandas de uma época e que serviriam de referência. A questão que se coloca, entretanto – e também por isso alguns autores falam do fim da história – é que a contemporaneidade carece de um discurso, de uma narrativa organizadora.

Para Maria Rita Kehl, a depressão é um sintoma social, ou seja, uma espécie de enfermidade que denuncia, à sua maneira, algo da ordem inconsciente que opera na cena do mundo. O sintoma, em psicanálise, ocupa o lugar do mensageiro que é morto em lugar do remetente: é um ponto de não-saber (“não sei porque faço/sinto sempre isso!”) que aponta para um mecanismo inconsciente que ultrapassa a racionalização. Logo, a sensação de não pertencer ao mundo, de não ter lugar no mundo – sentimento de estar exilado em sua própria pátria -, típica do discurso do depressivo, diz de uma fragilização da própria tessitura do Imaginário Social contemporâneo. Todos nós, portanto, estamos minimamente identificados à figura do depressivo.

E aqui reencontramos Luis Fernando Veríssimo: o miscasting, ter sido uma péssima escolha para um papel que lhe foi atribuído, é a própria marca do depressivo. É a sensação de que só os outros desempenham muito bem suas partes, seguem tranquilamente um roteiro, improvisam ali onde é necessário, fazem parte de um grande enredo. Entretanto, Maria Rita Kehl parece avisar que devemos nos perguntar, atentos às demandas dos depressivos, se há ainda um roteiro que nos sirva de referência.

Acredito que esta questão está na base de minha hipótese de que a discurso social contemporâneo não é capaz de sustentar uma fantasia autêntica de futuro: se não podemos olhar para trás e nos apropriar de nossa história – e dos nosso antepassados -, não poderemos nos colocar no lugar daqueles que transmitem algo às futuras gerações. Ou, como se interroga Walter Benjamin, no artigo Experiência e Pobreza: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”

— Luciano Mattuella


"Agora o oceano é de plástico"

18/01/2010

A frase que dá título a este post foi dita a Kitt Doucette – da revista Rolling Stone – pelo comandante da embarcação de pesquisa Alguita, Charles Moore. A tradução na íntegra desta matéria está na edição de janeiro da Rolling Stone brasileira e é parte de um breve dossiê cuja chamada na capa é: “Aquecimento Global – O Fim do Mundo Está Próximo?

A revista americana Wired também tem tratado deste tema com bastante frequência e de forma muito competente, como é o caso deste dossiê, disponibilizado online em seu site.

Voltando à matéria da RS, entretanto.

“Não importa onde você está, não tem como superar, não tem como escapar. Agora o oceano é de plástico.” Esta é a frase completa dita por Moore, com toda a urgência e a desilusão esperadas de quem, vagando pelos mares, encontrou por acaso a maior ilha de dejetos plásticos do mundo, localizada no Oceano Pacífico, chamada Grande Mancha de Lixo no Pacífico – “um vórtice giratório de uma sopa de plástico, um pântano imenso e fétido de dejetos em que pedacinhos minúsculos de plástico podre se sobrepõe ao zooplâncton (…) na proporção de seus para um”.

Em ainda outra matéria deste dossiê, Steven Chu, atual secretário de Energia dos Estados Unidos, diz, referindo-se às consequências do aquecimento global: “Acho que o povo americano ainda não se deu conta do que pode acontecer.”

O diagnóstico é certeiro.

Como explicitei no post anterior – e aqui eu gostaria de seguir aquela linha de raciocínio – o povo (não só americano) “não se deu conta” justamente porque não consegue sustentar uma fantasia de futuro autêntico para si. E esta impossibilidade gera uma consequência que opera diretamente na cena do mundo: ao não poder supor imaginariamente um futuro (a não ser um mundo sem humanos) para as próximas gerações, a humanidade não consegue tomar as rédeas da situação presente, minimizando a urgência da situação ou, ainda, menosprezando o papel que o homem tem no ambiente.

São muitas as discussões em torno da responsabilidade do ser humano no surgimento daquele efeito que conhecemos por aquecimento global. Ótimas teses são defendidas pró-intervenção humana e também excelentes opiniões são emitidas na direção oposta. Mas, parece-me, esta discussão serve como aquela imagem bem construída de “preocupação intelectual” que serve de fachada e encobre o que realmente está em questão: sendo ou não responsabilidade do homem a causa do aquecimento global, o problema existe e deve ser enfrentado. É necessário responsabilizar-se justamente por aquilo que não parece nos implicar na posição de culpados.

Procuro assumir uma posição atenuada por um distanciamento teórico. Esta ponto de vista me impede de dizer que somos culpados por algo, ainda mais no que tange a culpar alguém pela não possibilidade de construção de uma fantasia. Prefiro entender que ações cotidianas como separar lixo orgânico de lixo seco, abastecer o carro com etanol (ou não usar o carro!), utilizar de embalagens biodegradáveis, ainda não entraram para a rotina da maior parte da população porque a preocupação com o futuro não encontra anteparo fantasístico no imaginário social contemporâneo. Poderíamos arriscar, inclusive, a dizer que o descaso com o meio-ambiente pode ser entendido, uma vez que se trata de uma ação que ultrapassa a intenção, como uma espécie de sintoma social. Sintoma ao qual estamos todos, uma vez que todos somos filhos de nosso tempo, mais ou menos alienados.

E, como a psicanálise nos ensina há mais de 100 anos, o modo mais eficaz de abastar um sintoma, de esvaziá-lo de seu conteúdo nocivo, é que se fale repetidamente sobre ele. Mas que se fale no idioma que faz função na estrutura simbólica do mundo. Por isso não sou contra aproximações entre ecologia e moda (produtos ecofashion, por exemplo) ou campanhas publicitárias que atribuam uma qualidade cool àqueles que se preocupam com o ambiente. Há que se entrar na lógica para poder movimentar os alicerces.

No site da RS ainda podemos encontrar uma matéria cobrindo o tão falado – e tão decepcionante – COP15, a conferência da ONU que tinha como intuito repensar seriamente o aquecimento global e as alternativas que os governos poderiam lançar mão para lidar com ele.

Um dos comentários da revista sobre o evento é o seguinte (o grifo é meu):

É claro que ninguém quer trazer para a vida real o apocalipse que Hollywood alardeia há anos, em produções como O Dia Depois de Amanhã e o mais recente 2012. Mas a questão político-econômica pesa. Países desenvolvidos (principalmente os EUA) não queriam arcar com todas as despesas, nem brecar sua indústria. Países em desenvolvimento reclamaram por terem entrado na festa do desenvolvimento mais tarde. Para não passar a impressão de “conversa para boi dormir”, o acordo precisava ser aprovado por todos – norma da ONU para torná-lo legal. Venezuela e Cuba eram alguns dos opositores mais barulhentos.

Acredito que deveríamos nos ocupar das questão ambientais do mesmo modo que Freud aconselhava seus pacientes a tomarem conta de seus atos falhos, sonhos e sintomas: mesmo sentindo que eles vinham “de fora”, que não lhes pertenciam, devia-se tomá-los como se fossem seus e procurar dar sentido a eles levando em conta a sua história pessoal. Àqueles que não se dispunham a deixar rachar minimamente a sua carapaça narcísica e perceberem-se como autores de seus atos, Freud chamava de covardes morais.

Somos antropocêntricos para tudo, exceto para assumir responsabilidades.

— Luciano Mattuella


Um mundo sem humanos

17/01/2010

No caderno Cultura da Zero Hora de 16 de janeiro há uma interessante entrevista realizada por Ed Pilkington – jornalista do The Guardian – com o historiador inglês Tony Judt, intelectual acometido de Esclerose Lateral Amiotrófica, um mal que rapidamente evoluiu e lhe privou do movimento dos membros, além de lhe dificultar a respiração. Pois é desde este cenário de doença e mal-estar que Judt comenta, em tom entristecido:

Esta é a segunda geração de pessoas que não conseguem imaginar mudanças a não ser em suas próprias vidas, que não têm nenhuma noção de bens ou serviços públicos coletivos, que são apenas indivíduos isolados esforçando-se desesperadamente para melhorar a si próprios acima de todos os demais.

Acredito que o ponto de vista de Judt seja um tanto extremado, como costumam ser as posições de toda uma geração – a dele – que carrega consigo este sentimento de ter sido traída: prometeram-nos um mundo de prazeres e libertação (refiro-me aqui aos eventos dos anos 60) e nos deram apenas esta miséria de mundo. Foi uma geração que supôs que, após um período tão conturbado, merecia algo melhor. Que o Destino lhe devia algo. Uma geração que julgou ter percebido a tempo a artificialidade dos construtos sociais da década de 50: as famílias bem organizadas, os filhos, todos eles, possíveis futuros presidentes, a economia aparentemente estável, o american way of life, as cercas brancas na frente das casas, circundando os verdes gramados.

O que essa geração não tinha como saber, entretanto, é que as cercas brancas metaforizavam o arame-farpado das trincheiras.

Mas, apesar desta minha ressalva, acredito que a afirmação de Judt é, sim, válida. O historiador apenas “erra a mira”, se podemos dizer assim: ele diagnostica como se fosse um mal na realidade do mundo algo que, na verdade, faz adoecer a outra cena, como diria Freud, o mundo fantasmático que sustenta esta realidade (nos posts anteriores já falei algo sobre este arcabouço imagético, sobre este imaginário social). Naturalmente que esse padecimento do Imaginário Social tem seus efeitos na concretude do mundo; aliás, só é possível nos aproximarmos dele através de evento no mundo que sejam consequência de sua operação. Seria ingênuo pensar o contrário.

Mas qual seria este padecimento do Imaginário Social? Ora, creio que esta impossibilidade que Judt aponta, esta dificuldade em pensar um “mundo melhor” (por falta de outra expressão) que se ocupasse das preocupações do coletivo, que levasse em conta, enfim, a suposição de que outras gerações virão depois desta, é apenas um de inúmeros traços da civilização atual que nos permitem levantar a seguinte tese: a sociedade contemporânea não consegue sustentar uma fantasia de um futuro autêntico. E, consequência factual disto, age como se não fosse existir um mundo amanhã. Basta ver a (falta) de preocupação com a questão ambiental – a injunção “que mundo deixará para teus filhos?” não opera efetivamente porque não encontra eco no Imaginário Social para validá-la.

Este mote, aliás (sendo ainda fiel ao método a que me propus no primeiro post deste blog), está presente e antecipado em diversos filmes de razoável sucesso como I Am Legend (2007), de Francis Lawrence e o fantástico Children of Men (2006), de Alfonso Cuarón, ao qual pretendo dedicar mais minha atenção em breve. Em ambos, o que podemos perceber é a inevitabilidade de um mundo sem humanos, ou seja, um mundo reduzido à sua mecanicidade natural de ciclos e estações. Uma realidade em que a humanidade não foi exterminada por um agente externo como um fenômeno da natureza, mas sim na qual o homem foi, por suas próprias incapacidades e impossibilidades, pavimentando para si um lento processo de extinção da subjetividade.

Mais ou menos aquilo que a sociedade americana dos anos 50 tentou mimetizar.

— Luciano Mattuella


Nós e nossos frágeis fundamentos

16/01/2010

No post anterior fiz a proposta de um método para a interpretação da cultura. Uma proposta que é, antes, a proposição de uma tese: um evento se torna traumático na medida em que encontra ressonância em fantasias previamente constituídas. O pano de fundo para esta tese é a suposição – aceita como um dos pilares da psicanálise – de que substituímos o mundo em sua concretude por uma cenário particular de imagens e conceitos. O único acesso que temos ao que chamamos de realidade se dá, em última instância, através das fantasias que fazemos desta realidade. Este mecanismo é a tal ponto eficaz que podemos dizer que a própria realidade se estrutura como uma ficção.

Este substituição do mundo por uma versão, tão evidente nas sessões particulares de pessoas que buscam atendimento psicanalítico, também se constitui em nível mais amplo, na malha social. Cada época produz um imaginário que a sustenta, uma rede de referências simbólicas e imaginárias que estabelece lugares de valor, ideais e desejos. A questão é que este arcabouço fantasístico nem sempre é facilmente apreendido – por vezes (como na escuta de um paciente) é necessário um certo distanciamento para que se possa perceber a estrutura dos bastidores.

Um dos espaços privilegiados para a percepção de como uma época se sustenta fantasisticamente é aquele da produção de obras culturais como cinema, literatura, artes plásticas, blogs… O ato criativo se caracteriza justamente por isto, pela capacidade de dar forma a algo que resta como um não-dito social. Como mesmo o artista Marcel Duchamp já dizia, todo ato que se julgue criador traz, em sua própria realização, um hiato entre a intenção e a concretização – falta um elo na corrente, não se pode resumir a obra às intenções do seu autor. Este elo faltante é justamente, acredito, o ponto em que o não-dito da Cultura (com letra maíscula, para definir o corpus de fantasias de uma época) encontra vazão através de uma obra. E inteirar-se deste não-sabido é angustiante, é perturbador.

Assim, retomando a questão acerca dos eventos traumáticos, podemos dizer que qualquer evento que aconteça no mundo e que nomeie – explicite – este elo faltante na corrente pode ser entendido como um trauma. Acredito que é isto que esteja acontecendo agora com relação ao modo como o mundo todo trata do terrível terremoto que assolou o Haiti há poucos dias. Explico.

Se pararmos para pensar, um dos temas mais comuns nos filmes blockbuster das duas últimas décadas foi aquele que é conhecido no meio do cinema como cenário pós-apocalíptico. É o cenário que podemos encontrar em vários dos chamados filmes-catástrofe como Impacto Profundo, O Dia Depois de Amanhã, Armageddon e, mais recentemente, 2012. A natureza, em sua sublime magnitude, voltando-se contra o homem e destruindo suas obras. Se em uma primeira leitura o assustador do terremoto no Haiti pareça ser a magnitude sem precedência do acontecimento, quando olhamos com mais calma para as produções culturais de nossa época percebemos que aterrador mesmo é vermos se concretizando na cena do mundo aquilo que só suportávamos enquanto ficasse apenas no registro imaginário e fantasístico.

Ao explicitar no mundo algo que deveria ter restado como fantasia, o terremoto no Haiti levantou por alguns segundo o véu que torna possível nossa relação com a excessivamente ofuscante luz do sem-sentido fundamental da realidade.

— Luciano Mattuella


Por um método de interpretação da cultura

16/01/2010

A psicanálise entende de modo bem claro que o efeito ditotraumático de um evento não se deve somente ao caráter de excesso de afeto associado a determinado fato, mas também à flagrante constatação de que algo que devia ter ficado no domínio da fantasia – dos sonhos, das antecipações pessimistas, dos anseios – se realizou na cena do mundo.

Esta idéia é exposta de modo flagrantemente simples pelo filósofo Slavoj Zizek, em seu livro Bem-vindo o deserto do real:

Teríamos, portanto, de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu e destruiu a nossa realidade (ou seja, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade).

Assim, todo evento traumático já está anunciado desde muito antes em nível latente, e é esta representação domesticada pela razão que adquire matizes de excesso quando irrompe na vida vivida. A trauma não é a falta, mas o excesso de sentido que desfaz as referências simbólicas que utilizamos para organizar nossas vidas em uma narrativa mais ou menos consistente.

É exatamente por isso que elemento que eleva um acontecimento ao estatuto de traumático é a fragilização – impotência – da palavra em sua potência ordenadora e organizadora. Em termos simples: acontece uma perda de consistência da malha simbólica. Estabelece-se uma espécie de fobia à palavra. Isto equivale a dizer que o trauma tem como efeito o surgimento do desamparo do homem frente às intempéries do mundo em sua rugosidade fundamental, seu sem-sentido de base, uma vez que lhe faltam os referências simbólicos usuais.

O que vemos como marca da contemporaneidade é uma recusa completa a suportar a face estrangeira da tradição – algo que Walter Benjamin já havia notado de modo brilhante ao afirmar que“a arte de narrar está em vias de extinção”, ou seja, de que não temos mais o recurso ao saber que chegaria do passado até o presente conduzido pela palavra.

— Luciano Mattuella


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